sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Métodos Marckosianos (6)

Sempre é difícil resumir em palavras algo tão intenso pra você. É assim com o primeiro beijo, com a primeira transa, com a última vez em que se pôde conversar com seu melhor amigo. Falar do ano que passou também não é tarefa fácil, principalmente quando aqueles 365 dias poderiam perfeitamente virar um livro de memórias, digno de estar na prateleira de biografias. Mas é o que venho tentando fazer ano após ano desde o início deste blog. Os “Métodos Marckosianos” viraram uma espécie de momento de reflexão, onde abro meu baú de segredos e exponho tudo ou maioria daquilo que vivi de maneira simplória e agradável a mim e aos outros. Esses outros, tão fundamentais a cada dia.

Revendo os textos anteriores, procurei uma maneira diferente para escrever este aqui. Decidi por algo mais direcionado a quem me lê e não apenas uma seleção de verdades escancaradas sobre mim mesmo. Além do mais, lá no finalzinho, uma playlist com músicas que fizeram meu ano valer a pena e uma lista com 10 coisas para fazer em 2012 – e que podem muito bem servir pra você, que dedicou alguns minutos de leitura às minhas memórias reflexivas. Vamos às lições.

Planeje sim. Nada de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Aconteceu comigo e gostaria que não se repetisse com ninguém. Estudar, trabalhar, tirar carteira de motorista, sair com os amigos, ficar na internet, assistir filmes e séries, namorar, ir ao banco, viajar... Tudo isso, ao mesmo tempo, não dá certo. Em 2011, baguncei planos e prioridades justamente por não ter planos e prioridades definidos. Saí fazendo coisa após coisa sem me preocupar se iria dar tempo, se eu estaria cansado ao final do dia ou se sairia bem feito. Algumas até deram certo, mas outras vou tentar reorganizar no ano que se inicia.

Nunca pense que acabou. Milagres também acontecem. Quando que eu pensei que, aos 45 do segundo tempo, passaria para Direito em uma universidade federal? Acabara de voltar de uma viagem maravilhosa com o pessoal do curso de História quando recebo uma ligação da faculdade perguntando se eu estaria interessado em uma vaga que havia surgido. “Estou”, disse o menino feliz. Agora é hora de fazer valer a pena a chance vinda dos céus, vinda de Deus. Porque quando nada mais der certo, é n'Ele que se deve confiar.

Cuidado com as camas de gato. Cama de gato, pra quem não sabe (ou só relaciona com aquela novela das 18h da Rede Globo), é uma brincadeira infantil em que se constroem formas com barbantes presos às mãos. Na vida, o barbante pode ser uma mentira, alguém que você conheceu, mas não deu a devida importância, uma atitude peculiar, enfim, algo que, mais tarde, possa entrelaçar seus objetivos ou bagunçá-los, ao sabor do acaso. Aliás, uma cama de gato pode muito bem surgir por acaso, como aconteceu em 2011 pra mim. Dica esperta: somente com bastante sagacidade podemos nos livrar dela.

Viaje. Pela primeira vez, saí do Maranhão. Pela primeira vez, fui a um aeroporto, fiz check-in, voei de avião, passei mal depois de voar de avião, fiz conexões e conheci o Rio de Janeiro. Em um ano em que não tive férias, já que a faculdade tomou todo o meu tempo, passar 1 semana fora foi suficiente para desestressar, fazer novos planos, retomar alguns antigos e visitar locais que com certeza terei o prazer de rever mais tarde. Desejo, sinceramente, que eu possa conhecer novos lugares e aproveitar o que esse mundão tem de belo em 2012.  Ah, imitar o Bob Esponja pros passageiros mais uma vez também seria legal...

Evite a solidão de alguma forma. Ligue pra alguém em um domingo à tarde, saia com uma desconhecida em uma sexta à noite, conheça alguém na mesa de um bar, deixe de ser tímido o suficiente pra marcar uma saída qualquer, faça novos amigos, observe quem está ao seu redor. Não deixe que a solidão domine sua vida monótona ou cheia de metas a cumprir. Nada de negar compromisso com a desculpa de estar sem tempo para dedicar-se a ele. Algumas vezes, pode até ser verdade, mas logo depois, você vai se sentir culpado por não ter alguém por perto, pra lhe oferecer cuidados ou simplesmente ouvir o que você tem a dizer. Dica preciosa, essa. De alguém que já melhorou muito nesse aspecto, mas que busca cada vez mais aprendizado.

Religião não pode afastar as pessoas. Embora seja o que mais se veja atualmente, nunca deixe que lhe digam em quem acreditar. Entender o mundo à sua maneira é a coisa mais bonita que existe e respeitar a opinião do outro acerca desse entendimento será sua maior virtude. Pessoas estão destruindo seus sonhos porque os homens viraram intérpretes de Deus sem nenhuma virtude para isso. Acreditar ou não acreditar só serve para você. Não acredito em um Deus que castigará quem não seguir a Igreja Mundial do Templo Sagrado do Senhor da Assembleia do Sétimo Dia do Julgamento Final Universal. Ele é mais que isso, minha gente. Ele é mais do que nós.

Dê tempo ao tempo. Pessoas que foram embora de sua vida sem dar explicação nenhuma vão voltar, lhe desejando sucesso e os mais sinceros votos de um tempo bom. Não se trata de profecia ou coisa parecida. As pessoas voltam quando sentem que há espaço para elas. Ir embora deve ser culpa do medo, do orgulho ou da própria culpa. Elas voltam, ficam longe o suficiente para que você sinta falta, mas logo se vê que elas estão ali de novo, prontas para lhe ajudar, preparadas para o que der e vier. Porque crescemos. E crescer faz parte de outro verbo: o viver [!]

Trate seu passado com carinho. Nada de cartas queimadas, presentes destruídos, indiretas idiotas. Nada de passar pela pessoa amada de outrora e virar a cara, praguejar contra os deuses, fugir. Isso tudo é coisa de gente incapaz de dar valor ao que se teve de bom, incapaz de conseguir viver novos tempos bons com novas pessoas boas. Deve-se ter respeito pela figura do outro e evitar certas atitudes que você mesmo não gostaria de encarar. 2011 me ensinou que é preciso ter coragem para seguir em frente e muito mais que isso para encarar toda a poeira que nossos passos deixaram pelo caminho. E que esse pretérito seja de paz.

Enfim. Ainda queria falar tanta coisa, mas já chega. Já são quase 11 da noite da última sexta-feira de 2011 e eu acabo de perceber que as oportunidades mais brilhantes do ano eu agarrei com toda a força, com toda a garra, com toda fé. Se você não fez isso, relaxe. Você ainda tem o sábado inteiro pra procurar o garoto ou a garota dos seus sonhos. Ainda dá pra voltar a falar com seu filho, irmão, sobrinho ou ex-namorado idiota que você não vê há tanto tempo. Ainda resta tempo pra terminar de ler aquele livro que você vem arrastando desde o início do ano. Ainda dá pra aproveitar a lua crescente, o sol, a chuva, afastar seus medos, encontrar um motivo pra viver, deixar pra trás quem te deixa pra trás. Ainda há tempo de viver!

Que 2012 seja a síntese de tudo o que você plantou em 2011. Que seja um ano repleto de realizações pessoais, profissionais, amorosas e religiosas. E que eu possa riscar todos os itens da listinha e dizer, verdadeiramente, que eu pude fazer valer a pena. Que 2012 seja doce!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Boas festas...

Viviam às turras. O Marido, cansado, chega em casa, desabotoa o palitó, deixa o sapato pela sala e pega rapidamente o controle remoto a fim de não perder os minutos finais do jogo de quarta. A Esposa, que a essa altura já brigou com o Filho adolescente por causa do barulho da guitarra, ensaia mais uma discussão, agora com aquele que outrora fora o destinatário de seu ‘felizes para sempre’. O Marido retruca dizendo que está cansado, o que se comprova pela sexta palavra deste conto infeliz. A queixa faz lembrar a casa ao lado, onde a mesma cena se repetiu noite passada. Agora são as opções de comida que desagradam os ex-noivos. O Filho continua tocando Nirvana com notas erradas. Isso acontece, religiosamente, todo santo dia.

24 de Dezembro. O Marido beija a Esposa e exala o perfume novo que ganhou da prometida como se não houvesse amanhã. O Filho de 16 anos veste uma roupa nova que ganhou da mãe protetora e passeia pela casa com a 18ª Namorada. Comida não é problema. Na mesa posta, várias opções para um jantar que só pode ser servido à meia-noite, preparado especialmente pela mulher que mais gosta de cozinhar nesse mundo: a Esposa. Os Tios chegam trazendo os Avós, meio desconsertados pela idade avançada, mas cheios de histórias. A Prima começa a flertar com o Filho e a Namorada do Filho imagina uma cena de ciúme explícito, mas se contém, afinal é noite de Natal. A felicidade reina e a falsidade também.

Intervalo entre 25 e 30 de Dezembro: favor ler o primeiro parágrafo (com exceção do futebol, que, nessa época, é substituído por comédias duvidosas).

31 de Dezembro. O Marido traz uma caixa de fogos de artifício e promete “passar a virada” tocando foguetes, o que não faz desde os 12 anos de idade porque queimou a mão acidentalmente. A Esposa liga para as amigas e procura uma festa animada, de preferência com comida pronta e boa música, para fazer o Marido desistir da ideia boba. O Filho passeia pela casa com a 19ª Namorada (leia-se: a Prima). Todo mundo resolve, em uma conversa pacífica, passar o “Ano Novo” na praia. O Marido põe a bermuda branca que ganhou no amigo invisível da empresa, a Esposa coloca o vestido que mandou fazer na costureira e o Filho continua beijando a Prima, pouco se importando com o que usar.

1º de Janeiro. Um trânsito infernal na hora de voltar da praia. A Esposa passa mal graças a um marisco que comeu horas antes por lá. O Marido, depois de umas 5 cervejas, começa a dizer que avisou para ela não comer “porcaria” e que deveriam ter ficado em casa iluminando o céu do bairro com os tais fogos. Os dois brigam. O Filho e a Prima encontram uns amigos e se drogam na areia. Já é quase de manhã. Aparentemente, tudo voltou ao normal. Com gosto de Ano Novo, com jeito de vida velha...

Tenho me perguntado isso todos os dias...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Solto em uma cama de gato

Quer saber? Já tô cansado de viver como em um filme do Woody Allen. Cansei de tantos encontros e desencontros, chegadas e despedidas, histórias fortuitas e intempestivas. Cansei de alcançar a pessoa certa e simplesmente desperdiçá-la por minha falta de coragem ou qualquer outra coisa parecida. Tô cansado de chegar ao ponto de ônibus segundos depois do coletivo ter passado. Cansei por nem ter chegado. Eu, sinceramente, cansei.

Não é por causa de você. Nem por sua causa. Nem pela sua. Vocês formaram a tríade do que eu pensei ser impossível, do que eu nunca acreditei que pudesse acontecer, daquilo que eu nunca sonhei que viesse a ser verdade. Estou preso a uma cama de gato, diferente das normais, já que eu posso sair dela a qualquer momento, até porque ela nem existe realmente. É uma cama de gato eficiente. Problemas resolvidos que, do nada, parecem mal resolvidos; histórias incompletas que se completam justamente por causa da incompletude nelas evidente; romances que nem mesmo aconteceram, mas que povoaram minha mente por semanas e semanas.

Afinal, o que é certo a fazer? Envolver-se em uma trama insincera e resolver todos os seus problemas ou vivenciar uma paixão tórrida há tanto sonhada e cair no abismo da traição? O que é justo? Se a gente não tivesse exagerado a dose, teria vivido um amor Grand Hotel, esse mesmo, do filme antigo. Aliás, o que anda sendo o amor ultimamente? O retorno a uma realidade de duros golpes ou a pura ausência do querer aventurar-se? Não consegui dormir noite passada. Rolei na cama por horas até entender que eu sem você é pura questão de tempo. E que eu sem a gente, simplesmente não existe.

Tenho sido poeta, eu sei. Mas poesia ainda é uma das poucas coisas que me restam, aliada ao meu bom senso, ao bom caráter e ao bom dia. Não tenho do que reclamar, eu só não estava preparado pra enfrentar tanta coisa em tão pouco tempo. Ou devo dizer, tanta falta de tanta coisa em tão pouco tempo. O certo é que tenho grande parte da culpa pela inexistência de algumas dessas coisas. Eu reneguei, deixei pra lá e cá estou eu, digitando freneticamente tudo o que me vem à cabeça. E o pior que nenhuma gota de chuva cai do céu.

Se era isso que queriam, conseguiram. Não duvido nada de terem planejado tudo isso em um domingo à tarde, com nutellas à mesa e vingança na mente. Plantaram evidências nos locais certos, aproveitaram-se de minha nobreza e conquistaram o mais precioso dos meus bens: o coração. Nele, está guardada a lição mais valiosa que aprendi disso tudo: respeito é bom e eu gosto. E foi o que eu mais tive de vocês nesses últimos tempos.

Cada uma é inesquecível à sua forma. E o único elo pra que essa história pudesse fazer sentido estava aqui o tempo todo, pronto pra vivê-la, cabeça erguida e coração desprotegido. Não condeno vocês por nada. Ninguém foi o culpado. Eu só não tive tempo de dizer tudo o que eu queria a quem eu queria. Hoje, já está tudo resolvido. Sinceridades à parte, vejo, finalmente, que Drummond tinha razão quando escreveu "Quadrilha". E, olha, eu morro de medo de ser um J. Pinto Fernandes, aquele que nem sequer havia entrado na história.

História de um par - Stalingrado

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Amor, só de letras

Autor: Mario Prata
Originalmente publicado em "O Estado de São Paulo" (20 de Setembro de 2000)

Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva. Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta - que ele fez uma cara emocionada. Pela feitura da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.

Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:

- Essa tá muito novinha. Leva aquela.

E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.

Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram. Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima.

De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes. Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via internet. Via cabo, literalmente.

Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras. Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.

Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro. Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.

A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela. E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.

Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da Venezuela. Ou do Arroio Chuí. Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente. "Uma pessoa com um texto desses..." A tudo isso o bom texto supera.

Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita suja. E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais: conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.

Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto. No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.

Quando comecei a escrever um livro pela internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet. Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso:

- Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil.

E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?

Quer uma prova? Estou fazendo um concurso de crônicas no meu site (marioprataonline.com.br), entre os leitores/escritores. Entre lá e veja o nível. Pessoas que há pouco tempo atrás odiava escrever redação nas escolas, estão descobrindo o texto. Leiam e me digam se eu não estou certo. E são jovens, muito jovens.

Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras. Como diria Pelé, love, love, love.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Jogo de estranhos

Se apaixonou pela garota do prédio ao lado, mesmo sem grandes atribuições. Não era bonita o suficiente pra estampar as páginas centrais de uma grande revista de moda nem preenchia outdoors de escolas particulares da cidade. Tinha cabelo curto, piercing no nariz, tatuagem no pulso e no pescoço e falava apressadamente. Deveria citar 1003 palavras em apenas 1 minuto. Seu sorriso completava todos os comerciais de creme dental já vistos na televisão. Era culta. Lia Bukowski, Franz Kafka e Machado de Assis só pra nacionalizar a coisa. Era oculta. Pouco se sabia sobre como viera parar ali ou para onde iria.

Não aguentou e decidiu segui-la, aproveitando que precisava sair. Girou as chaves e procurou velocidade em seu sonho de romance. Ela seguia devagar, discreta, sem pressa, totalmente diferente de quando falava ao telefone, provavelmente com as amigas, pois sempre dizia nomes e cores de esmaltes indecifráveis e inteligíveis para qualquer mente masculina. Ia pela estrada sempre seguindo a mesma faixa, que parecia contínua tal qual sua vontade de afastar-se dele. Já passava das 5. Da tarde. Ele dirigia apressadamente. Deveria atingir 1003 quilômetros em apenas 1 minuto. Pareciam estar indo para o mesmo lugar. Voltemos à realidade.

Descia do carro com seu vestido floral, sapatilha cor de pele, bolsa preta, maquiagem leve e toda a alegria de quase adulta. Mexia no cabelo repetidas vezes e tinha uma mistura compassada de pinturas em seus fios delineados. Só bebia água em seu próprio copo. Queria namorar um homem mais velho, mas já sonhara em ser paixão de um padre. Não aturava mentiras nem ficante metido a rei da balada. Era estudiosa. Apresentava teses e antíteses completadas em uma síntese de vermelhidão tranquila em seu rosto de princesa. Aliás, de deusa. Quando exagerava no álcool, falava inglês, francês, russo. Só queria ser feliz.

Foi quando viu aquele jovem, perdido no primeiro andar da universidade, prestes a adentrar na mesma sala em que passariam os próximos 5 anos juntos. Não fez planos, não dizimou oportunidades, apenas perguntou seu nome. E descobriu que eram vizinhos e que poderiam apostar corrida todas as noites até que um cansasse da disputa e aceitasse parar, respirar e seguir em frente. No prédio ao lado. Eram vizinhos. Contadores de histórias. Sonhador e sonhadora de algo bom. Disso que se chama vida...


domingo, 30 de outubro de 2011

Sobre pessoas e baladas

Talvez eu seja uma das únicas pessoas no mundo a parar no meio da balada e começar uma análise antropológica dos indivíduos que ali estão. Não sei se o que me motiva a fazer isso são as doses de álcool que insisto em tomar a cada ida nesses ambientes ou a pura vontade de entender melhor o ser humano que me cerca. Vocês poderão dizer: “que bobagem, esquece isso e vai dançar”, mas eu não sei dançar. Nem sei ao certo por que ainda vou pra balada.

Antes de compartilhar algumas dessas minhas observações com vocês, gostaria de responder a um questionamento feito por uma amiga tempos atrás sobre o que era melhor: ir sozinho ou acompanhado para as festas. Imediatamente – isso logo depois de terminar um namoro – respondi que era melhor ir sozinho, até porque desacompanhado você tem chance de exercitar seu lado conquistador, de partir para o ataque – coisa que não precisa mais fazer quando já tem uma namorada. Entretanto, depois de algumas baladas na condição de solteiro, descobri que sou um fracasso na arte de conquistar pessoalmente.

Já me ensinaram milhões de formas diferentes pra “estabelecer conexão” com uma menina durante essas festas, mas eu simplesmente não consigo colocá-las em prática.  Sou mil vezes melhor na conquista cibernética, onde a abordagem se faz adicionando a pessoa – sem que você veja a reação dela durante o “flerte”. Isso significa dizer que ir acompanhado, seja com sua namorada ou ficante, torna as coisas bem melhores pra alguém tipo eu. Mas ir com os amigos ainda é bem mais divertido.

Voltando às considerações iniciais, e as meninas, como se comportam na balada? Nos lugares aonde vou, é quase unânime: um grupo de amigas que se reúnem pra beber e dançar sem necessariamente querer um homem por perto. Salto alto, maquiagem forte, vestido curto ou calça colada. Um estilo feito pra chamar a atenção de quem elas simplesmente ignoram. Poucos são os relacionamentos que dão certo a partir de uma festa nesses moldes. É tudo frívolo, sem sentido, egoisticamente ébrio. Ah, existem exceções!

Os homens partem para o ataque. Aproximam-se, falam qualquer coisa, beijam e pronto. Saem novamente em busca de mais vestidos curtos e comida para seus olhos famintos de desejo. Mais uma dose de cerveja cara (porque nesses ambientes nunca dá pra usar a ideia do “gole de cerveja barata”), outra olhada correspondida e bingo. É assim a noite toda. A balada transformou-se em uma selva onde vence o mais despojado, o mais bem vestido e o mais cafajeste.

Os casais de namorados se desentendem, quase sempre por causa de uma olhadela descompromissada do rapaz para aquela menina de 16 anos que entrou no local com a carteira de identidade falsa. As mulheres reclamam porque as mãos dos rapazes passeiam por seus corpos como carros em asfalto novo. Como se elas não tivessem metade da culpa ao usarem panos tão minúsculos que decerto não encobrem suas vergonhas. Quem não dança, fica olhando quem sabe dançar. Quem sabe dançar, fica procurando quem o veja dançar. Uma guerra de egos em meio a luzes intermitentes.

No final da festa, a casa vai ficando vazia. É a hora do tudo ou nada, do agora ou nunca. Os últimos solteiros sobram e tentam fazer xeque mate nesse xadrez noturno, onde a única intenção é honrar sua própria moral, abalada por até agora não ter conseguido um beijinho sequer. Isso porque eu nem falei dos funcionários cansados e sonolentos que se escandalizam com beijos triplos e vômitos sucessivos enquanto tentam tirar garrafas de cerveja do chão. “No meu tempo não era assim”, condenam com olhares reprovadores.

No mais, prefiro sair e ver com meus próprios olhos cada uma dessas relações repletas de necessidade de autoafirmação, tentativa de suprir carência ou simples desligamento programado do mundo. A qualquer momento, quando eu decidir – e aprender – me tornar um deles, mudo de opinião quanto a ir sozinho ou acompanhado nesses ambientes. Por enquanto, só quero dançar mesmo sem saber, olhar pra elas sem perguntar seus nomes e admirar cada pessoa que escolheu estar ali pelo mesmo motivo: ser feliz efemeramente!

A vida é chata, mas ser plateia é pior...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Qual a credibilidade do palhaço?


Por muito tempo me vi preso à incerteza de abandonar ou não a besteira. Explico: abandonar a besteira, em termos práticos – e para o meu grupo de amigos –, significa deixar de lado piadinhas bobas, comparações absurdas e sacadas espertas (ou idiotas, sabe-se lá) a qualquer momento. Eu bem que tentei, mas é mais forte que eu. Quem me conhece pessoalmente diz ser impossível me encarar sem ter vontade de rir. Recentemente, ao apresentar um trabalho na faculdade, um amigo jurava que eu iria parar a exposição e começar a imitar a Marília Gabriela – coisa que você confere no final desse texto.

Minha descrição no Twitter exemplifica bem esse bom humor. “Blogueiro, universitário, imitador e menino da xerox. Posso anotar seu pedido?!” Uma clara brincadeira entre as quatro ocupações principais de minha vida atualmente: escrever, estudar, fazer rir e trabalhar. Outro amigo até já fala em patrocinar meu stand-up comedy. Como se alguém fosse assisti-lo! O engraçado nisso tudo é que quando algo realmente sério me acomete, fica difícil imaginar qual seria minha reação até pra mim mesmo. E nas relações amorosas, onde ponderar às vezes é fundamental, essa incerteza ganha proporções colossais. O que fazer então?

Já tentei dosar entre a sobriedade humorística e o bom humor desmedido. Não sei se deu muito certo. A única reclamação que tive nesse aspecto foi em 2009 (e lá se vão dois anos), quando uma namorada reclamou que era impossível conversar comigo porque eu levava tudo na molecagem. De fato, era demasiado. Aprendi com o tempo que querer chamar atenção não nos leva a lugar algum. É bem melhor quando você sente que pode se tornar atração, quando aquele momento e as pessoas ao redor (seu potencial público) o admitem como digno de atenção. Não dá pra forçar. Pode demorar mil anos, mas se você tiver talento pra alguma coisa, seu reconhecimento virá da forma mais inesperada possível.

Acontece mais ou menos assim com o pessoal do circo, artistas de TV ou profissionais de qualquer área. Sua credibilidade é construída com o tempo e cabe a você mantê-la o mais sólida possível. Mas e quanto ao palhaço? Qual credibilidade esse ser  – que se esconde através de uma pintura e um nariz vermelho em formato de bola – pode transmitir à sociedade? Fazer alguém sorrir é suficiente para transmitir a ideia de um profissional sério naquilo que faz? Acredito que sim. Pensar em alguém que dribla as dificuldades diárias, seus problemas pessoais e suas angústias justamente na tentativa de fazer o outro rir é imaginar que o ser humano não é egoísta o bastante como vendem por aí. O palhaço tem sim uma credibilidade, camuflada, mas ela existe.

Já os palhaços que não se vestem adequadamente à “profissão”, como é meu caso, também merecem aplausos. Quantas vezes não estive cheio de problemas, mas preferi dar alegria a meu próximo, mesmo através de piadas bobas, sem nexo. Arrancar um sorriso do rosto de meu amigo é minha maior alegria. É como se meu dia tivesse valido realmente a pena. Ver alguém sorrindo é conhecê-lo em seu estado mais natural possível, em sua doçura angelical de criança, perdida pela selvageria do tempo. E como eu gosto disso. Não o faço pra ganhar dinheiro, pra usurpar meu semelhante ou pra mostrar o quanto talentoso sou. Faço isso porque gosto. Sou o espelho do sorriso alheio e isso me basta!

Por fim, decido não abandonar a besteira. É ela quem me faz seguir em frente, continuar olhando esse mundo de uma maneira menos fria e desacreditada. Pensar que tudo poderia ser melhor se você sorrisse ao invés de proferir um xingamento quando alguém pisasse, acidentalmente, em seu pé no ônibus. Por que não rir do trocador quando ele erra na contagem do troco e o entrega faltando 10 centavos? Por que não rir de sua namorada indecisa quanto à escolha do vestido para a festa do sábado? Por que não sorrir? Como diz um desses rock’s modernos, “prefiro ser mais eu, continuar sorrindo”!

Por quê?!

domingo, 16 de outubro de 2011

A essência da impossibilidade

Não era isso? Eu não era a essência da impossibilidade? Então, cá estou eu, depois de um bom tempo, eu sei, pronto pra dar a cara a tapa e dizer tudo o que tenho pra dizer. Vou logo adiantando que não tenho nada pra falar, muito menos pra escrever nestas humildes linhas. É tudo tão indefinido. Aliás, sempre foi. Sempre foi indefinido o que eu sentia por você. Não era amor, atração, desejo. Como disse Martha Medeiros, era melhor. Uma mistura louca, que eu nunca senti igual, mas que não pude – ou não quis – deixar que tomasse conta de mim.

E o que importa? Nós nunca nos demos bem, a não ser pelo carinho infinito que sentimos um pelo outro, pela preocupação quando tudo ia mal, pelo gosto musical maravilhoso, pelas conversas de outrora em mensageiros virtuais. Nunca, nada disso foi mentira. E quanto eu te queria por perto a cada noite de chuva, a cada filme alternativo nos feriados, a cada sábado à tarde. E como eu te achei em um sábado à tarde... Com outra, na praia. Que hilário! Aliás, era você quem devia estar ali, não aquela tresloucada de quem nunca mais tive notícias. Incrível como minha vida é uma cadeia de acontecimentos suscetíveis a roteiros de filme, tipo aquela vez em que voltamos pra casa em um ônibus lotado segurando os dedos um do outro. E tudo isso por causa de um bluetooth ligado...

E das vezes em que te dei bolo? Dá pra abrir uma doceria com tantas vezes em que eu queria estar ao teu lado, mas meu medo foi maior. Medo de seguir em frente com você, de olhar nos seus olhos e não dizer uma palavra sequer. Eu quis isso. Eu quis e imaginei te beijar na fila de cinema ou em um show de rock. Fazia nosso estilo. A gente se completava, de uma maneira que não dá de explicar pros nossos filhos ou pros nossos futuros namorados. Aliás, e você? E seus relacionamentos, como estão? Daqui dá pra te dizer que, hoje, somente uma pessoa mexe tanto comigo a ponto de eu querer dar bolos por sentir medo ou por não saber como e por onde começar. E ela não é você. Ela é tudo o que eu sempre quis, também é perfeita pra ver o pôr do sol da praia, mora perto de você e, inclusive, já foi sua amiga de classe. Ou conhecida, sei lá.

Por mim, passaria a noite inteira escrevendo cartas pra você, remexendo o passado, repintando as partes cinzas de azul e ouvindo as músicas que nunca ouvimos juntos. Era de você quem eu lembrava a cada dia nublado, a cada música do The National, a cada bolinha de papel atirada ao acaso. Ou a cada X marcado na mão para que eu evitasse meus vícios. Ah, te beijar foi como se a janta tivesse sido servida na hora certa, com direito a sobremesa e cupcakes fofinhos que só você sabe degustar. Só não entendi por que o corpo tão quente. Medo? Vontade? Prazer?

Sinto falta de quando eu tinha tempo pra dividir com você meus anseios. De quando te via pelas universidades da vida. De quando te conheci. Foi bom te ter por perto, mesmo que de longe. Juro que queria voltar a sonhar com sua casa, com seus pais e com seu jeito estranho de dizer “entra, a porta tá aberta!”. Quem sabe um dia o karma volte e você me leve àquele lugar especial, tão perto e tão longe, que, aliás, eu nunca soube qual era. Pois é. Eu não senti borboletinhas na barriga, eu não deixei o verão vir esquentar o chão e ver se ainda nascia um amor de verdade, eu só deixei você. Seguir em frente. Segui em frente. Não sei pra onde. Eu simplesmente segui. Boa noite, estranha!

Eu ando em frente por sentir vontade...

domingo, 2 de outubro de 2011

Música, sentimentos e Coldplay

A gente nunca vai entender o poder de certas coisas. Nunca vamos conseguir entender o porquê de nos apaixonarmos, a razão pela qual certo lugar nos faz tanto bem ou o verdadeiro motivo de querermos demasiadamente alguma coisa. De fato, essa incerteza é fabulosa e recai sobre uma dúvida recorrente em minha vida: por que a música nos deixa tão vulneráveis, propensos a sentimentalismos e pequeninos? Teria ela uma fórmula mágica ou seria pura questão de formação, lá na nossa infância? 

Tenho uma vaga lembrança da primeira vez em que ouvi Coldplay, minha banda favorita. Era uma noite de sábado em 2003, aniversário de alguém aqui na rua e aquele piano de “Clocks” insistindo em tocar repetidamente os mesmos acordes. Nessa época, não fazia a mínima ideia de quem diabos era Coldplay, mas adorei a melodia, que ficou guardada na mente. Com o tempo, mais precisamente em 2005, graças ao lançamento do terceiro álbum da banda, X&Y, e de programas como o Disk MTV, passei a contemplar e gostar cada vez mais das canções. 

É como se cada uma tivesse sido trilha sonora de um momento da minha vida. Escola, amigos, namoro, realizações, traumas, decepções, alegrias, tristezas... Um misto de sentimentos conturbados que eu sei muito bem onde e por que estão guardados. Mas por mais que eu tente, não consigo entender qual o poder que essas letras e melodias têm. Por que um piano, frases belíssimas e um sotaque britânico carregado me afetam tanto? Teria alguma explicação racional ou apenas sentir já é o suficiente? 

Sinceramente, prefiro não me ater a essas frivolidades. A música tem um poder inquestionável de nos tornar pessoas melhores, de nos fazer bem e isso, pra mim, já basta. O que não me exime de lamentar minha ausência no show do Coldplay no Rock In Rio. Só de imaginar toda aquela galera fazendo parte do coro de “Viva La Vida”, indo ao delírio com a versão da banda pra “Rehab” da Amy Winehouse e chorando com “Fix You”, bate uma pontinha de inveja. Ver pela televisão já traz uma energia tão boa, pessoalmente deve ser um trilhão de vezes melhor.

No mais, fica a ansiedade pra outro show deles por aqui ou para novos momentos inesquecíveis ao som de suas canções. Um álbum com mais músicas apaixonantes já vem chegando e só nos resta ter um pouquinho de paciência pra ouvi-lo por completo. Ser fã é ter sempre essa esperança de que seu ídolo pode fazer melhor e que o resultado vai agradá-lo de todas as formas possíveis. E um recado ao futuro: “Sim, meus filhos, esse é seu pai escrevendo sobre a banda que embala as noites de vocês. Durmam bem e deixem que eu cuide do resto!”


sábado, 10 de setembro de 2011

Nossos velhos e novos horizontes

Decidir seu futuro com apenas uma escolha sempre será tarefa difícil. Desde cedo, somos obrigados e acostumados a marcar uma única alternativa nas questões objetivas, a escolher um entre os 60 lanches disponíveis na cantina da escola ou optar por ir somente a uma festa no fim de semana mais movimentado do ano. Quando chega o momento de escolher que curso seguir em uma universidade, a coisa ganha proporções colossais. Um medo descomunal começa a percorrer sua mente, você imagina milhões de coisas e, por vezes, pensa em repensar sua opção original. Como disse Ferreira Gullar, “O novo é para nós, contraditoriamente, a liberdade e a submissão”. E é pra falar exatamente sobre essa liberdade e submissão que estou aqui.

Quando escolhi cursar História aqui na Universidade Federal do Maranhão, não imaginei a mudança que essa decisão traria à minha vida. Sair do Ensino Médio, enfrentar um vestibular diferente como o ENEM, conhecer novas pessoas... A gente bem que imagina, mas nunca sai como “planejado”. O primeiro período soou como algo forçado, talvez porque não era o curso que eu realmente queria ou talvez porque sua estrutura de ensino não aborda, desde o início, a História propriamente dita. A coisa ficou animada no semestre seguinte. Comecei a fazer amizades que me pareceram sinceras, conheci uma das melhores professoras que já tive e aprendi que na vida, nem tudo é de primeira. Às vezes, é necessário continuar onde você está só pra descobrir o que realmente aquilo pode te oferecer.

Com o tempo, passei a dar mais importância pra o que eu tinha em mãos. Não é porque não estava no lugar onde eu queria estar que não daria valor a essa experiência. Pelo contrário, dei o máximo de mim. Ajudei, conheci, pesquisei, fui adiante. Sem desistir, mesmo quando as dificuldades e a necessidade de férias eram mais fortes. Ítalo Calvino, mitologia comparada, discografia do Falcão, Rio de Janeiro... Alguns dos milhares de marcadores desse 1 ano e meio de descobertas, graças a uma escolha perdida no passado.

A partir de agora, começo uma nova fase em minha vida e, mais uma vez, graças a uma escolha: dizer sim ou não a uma vaga surgida na universidade pra cursar Direito, minha opção original. O aperto no peito é normal. É difícil deixar pra trás algo que lhe deu tantas alegrias e o fez tão bem. É difícil deixar pessoas pra trás. Mas estou certo de que conhecerei novos personagens pra esse seriado norte-americano que é minha vida. Uma mistura de humor, drama, escolhas e capítulos anteriores mal-resolvidos. De resto, deixo a liberdade tomar conta de mim, mesmo me submetendo ao medo de encarar uma nova realidade. Ser feliz é o que realmente importa. E sei que o desejo do meu passado é que eu seja alguém melhor, mais feliz que antes, onde quer que eu esteja.

That's all, folks!!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Time's drops #03




O Quê: "Pouca Vogal", projeto paralelo do Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii)
Onde descobri: Na casa de um amigo, que havia comentado sobre outros projetos de cantores conhecidos.
Por que me chamou atenção: Boa melodia, letras inteligentes e a voz de dois compositores superexperientes (Humberto Gessinger, Engenheiros do Hawaii, e Duca Leindecker, líder da Cidadão Quem).
Por que você deve conhecer: Se você gosta de uma dessas bandas ou simplesmente anda à procura de um som diferente, mas parecido com algo que já ouviu, essa é uma ótima pedida. 
Apêndice: O site da banda, com agenda de shows e algumas músicas pra download (http://poucavogal.com.br/index.htm); Link do áudio do dvd gravado em 2009, também pra download (http://www.megaupload.com/?d=2OEKODQD).

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Namore um cara que lê


Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.

Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.

Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.

Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo –e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.

Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e –talvez não admita– sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.

Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.

Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.

E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.

Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar –com o coração aquecido– para o seu lado.

Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.

Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouví-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.

Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do "e eles viveram felizes para sempre", namore um cara que lê.

Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve.


domingo, 31 de julho de 2011

Top 10 - Propagandas Inesquecíveis

A publicidade está em todos os lugares. Seja nas escolas, nas ruas, campos ou construções, deparar-se com um anúncio qualquer já se tornou mais que comum. Com as propagandas veiculadas na televisão isso não é diferente. Usar e abusar da criatividade para conseguir vender seu produto é tarefa antiga, mas nem mesmo por isso anda sendo esquecida. Pra provar que comercial é algo que fica pra sempre em nossas mentes, elenquei 10 propagandas que me chamaram a atenção por causa de sua originalidade. Vale a pena curtir ou comentar outras especiais para você!

10.

Por que é inesquecível? Fazer uma comparação entre os motores rápidos e seus cavalos com a lentidão do carro e seus supostos "pôneis malditos" foi uma sacada de mestre. A musiquinha grudenta ajuda em sua fama, além da convergência entre mídias, já que a internet tem sido a maior aposta da empresa pra divulgar seu novo veículo.


9.

Por que é inesquecível? Vou confessar que sempre fico ansioso pra assistir à primeira propaganda do ano depois do Show da Virada. Como sempre é a de um banco, passei a me emocionar duas semanas antes, quando começam as de Natal e Ano Novo dessas instituições. Essa em especial me marcou porque tinha o Zeca Baleiro interpretando "Amor Para Recomeçar", do incrível Frejat - dois músicos que admiro bastante.

8.

Por que é inesquecível? Um sucesso surgiu nas telas dos lares maranhenses quando o sagaz empresário Alessandro Martins resolveu investir na música tema do filme Rei Leão, "In The Jungle (The Lions Sleeps Tonight)". Usando um viral da internet onde um hipopótamo e um cachorro dançam e cantam freneticamente, a concessionária de veículos Euromar levou crianças ao delírio, que exigiram de seus pais a compra de um carro em troca de bichinhos de pelúcia iguais ao do vídeo. Depois de uns anos e da descoberta de fraudes envolvendo o empresário, a empresa faliu, mas a propaganda, como boa influente que foi, nunca mais saiu de nossas mentes.

7.

A Propaganda: Mamíferos - Parmalat
Por que é inesquecível? Tem algo mais fofo que crianças vestidas de animais e imitando o som que eles fazem? Uma das campanhas publicitárias mais famosas do final dos anos 90, nunca esquecida por mim porque toda vez que eu ia tomar a gotinha no dia da vacinação, minha mãe me perguntava depois: "Tomou?", igual ao gambá no final do vídeo. Vale a pena ver como eles cresceram nesse outro comercial da empresa.

6.

A Propaganda: Tio - Sukita
Por que é inesquecível? Uma menina bonita sendo cantada por um cara mais velho. Algo bem comum que se tornou ideia de comercial em 1999, lançando assim a marca de refrigerantes em todo o Brasil. Na época, ser chamado de tio era algo apavorante e os marmanjos bem que aproveitavam a deixa pra tentar conquistar as menininhas com um bom papo regado a uma bebida gelada.

5.

Por que é inesquecível? Não sei se o que torna a propaganda inesquecível é a poesia ou a interpretação de Arnaldo Antunes. De qualquer forma, munido de belas imagens e com uma simplicidade tremenda, o comercial consegue ser marcante por insistir em uma única pergunta e tentar respondê-la diversas vezes. No meu caso, sempre o assistia pela manhã, no intervalo do "Hoje em Dia", da Record. Era um jeito de começar bem meu dia, sempre imbuído a descobrir o que me fazia realmente feliz.

4.

A Propaganda: Convite - Claro
Por que é inesquecível? Esse comercial só está na lista por causa de "Times Like These", do Foo Fighters, e essa maravilhosa versão acústica que dá ritmo a todo o vídeo. Mais uma prova de um bom texto aliado a uma boa música transmitem qualquer mensagem, de maneira clara, concisa e envolvente. Se não fosse a pouca quantidade de conhecidos usando a Claro aqui no estado, eu até arriscaria comprar um aparelho da empresa.

3.

Por que é inesquecível? Não precisa nem dizer a razão de ela ser marcante. Herbert Vianna é um dos maiores exemplos de superação em nosso país e a letra de "Lanterna dos Afogados" tem tudo a ver com isso. Dificuldades existem e outras novas virão, mas não devemos nos abalar e desistir tão fácil. Acho que já deu pra perceber que comerciais poéticos me fascinam de alguma forma, não é verdade?

2.

Por que é inesquecível? A campanha deste ano da empresa é uma das propagandas mais bonitas já vistas por mim. "Simples Desejo", originalmente composta pela cantora Luciana Melo, se encaixou perfeitamente às imagens e à mensagem emotiva que a maternidade carrega consigo. Algo pra ficar marcado na história da publicidade brasileira, da qual eu sou um grande fã.

1.

Por que é impecável? De quem diabos foi a ideia de colocar um coral de crianças pra cantar "Whatever", uma das músicas mais bonitas do Oasis, enquanto o vídeo nos enche de mensagens otimistas em relação a atual situação do mundo? Essa equipe deveria ganhar o Oscar da Publicidade (se é que existe) e ser reconhecida mundialmente. Porque pra um comercial me fazer chorar, ele deve ter muito. E esse primeiro lugar tem muito mais que isso!

domingo, 24 de julho de 2011

Time's drops #02


O Quê: 300 Discos Importantes da Música Brasileira. Ed. Instituto Sou da Paz (2008)
Onde descobri: Esperando o show do Marcelo Camelo começar, enquanto ouvia conversas alheias sobre música brasileira.
Por que me chamou atenção: Não é todo dia que uma publicação seleciona e filtra conteúdo cultural assim no Brasil. 300 ainda me parece pouco, mas tudo bem!
Por que você deve conhecer: Se você é daqueles que gosta de verdade de música brasileira e quer conhecer um pouco mais sobre nossas raízes musicais, essa é uma dica e tanto.
Apêndice: Um blog montado a partir do livro, com links para acesso e download de todos os 300 discos citados na publicação (http://300discos.wordpress.com); Disponível para compra na Livraria Cultura (http://migre.me/5l84U).

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Time's drops #01

Será paradoxo dizer que o Senhor do Tempo tem andado sem tempo pra postar por aqui? Pois bem. Para compensar o descompasso, eis o Time's Drops, uma minipostagem sobre alguma coisa que vi pela cidade, televisão, rádio, internet... e gostaria de compartilhar com vocês. Mãos à obra, então!



O Quê: "Vampire Weekend", banda novaiorquina formada em 2006.
Onde vi: Folheando, por acaso, a página 58 da Revista Bravo! de Março de 2010 que tenho aqui na mesa do computador e nunca li.
Por que me chamou atenção: A matéria da revista classifica a banda como "roqueiros que não se vestem como roqueiros". Daí procurei um vídeo dos caras no Youtube e bingo. Algo, no mínimo, curioso!
Por que você deve conhecer: "Cousins" tem um ritmo envolvente, bem semelhante ao frevo pernambucano. Pra você que gosta de música diferente e desconhecida no mainstream.
Apêndice: Vale a pena conhecer outras bandas legais, mais ou menos com o mesmo ritmo. Forro In The Dark, Discovery, MGMT e Ra Ra Riot são ótimas dicas.

domingo, 10 de julho de 2011

A dois passos do paraíso

1983. Miracema do Norte, fim de tarde. Maria Augusta voltava da casa de seus pais quando fora surpreendida por um caminhão, desses de faróis baixos e para-choques duros. Pensou ser sequestro, tentativa de homicídio, estupro. Ficou com medo e danou-se a gritar. Arlindo Orlando, um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade, desceu do veículo e pôs-se a explicar sua parada. O caminhão tinha pouco combustível, já estava escurecendo e ele queria descansar. Não era de seu feitio assustar as pessoas, principalmente uma moça linda como aquela, disse o rapaz.

Maria Augusta procurou se acalmar. Entraram em um bar à beira da estrada, pediram alguns comes e bebes e passaram a noite conversando, ouvindo a Radio Atividade. Tinham milhares de coisas em comum, inclusive o fato de estarem solteiros. Uma pousada, ao lado do bar, era, agora, o refúgio dos dois. Tiveram uma noite inesquecível, coisa de novela, com direito a juras de amor e pedido de casamento. Augusta questionou o fato de ele estar sempre viajando, ao passo que Orlando dizia não haver problema. Ele largaria tudo para viver com ela.

Amanheceu e ambos tiveram que partir. Comunicavam-se constantemente. Ele a viajar e ela a sonhar com seu destino, preparando cada detalhe do casamento. A data marcada chegara e nada poderia dar errado. Igreja lotada, convidados esperando pacientemente, uma noiva em prantos. Arlindo Orlando fugiu, desapareceu, escafedeu-se. O burburinho era uníssono. Noivo maldito, coitada da noiva, mentiroso, ingênua. Aquele seria o dia do dia mais feliz de sua vida e agora era apenas maquiagem borrada.

O que havia acontecido? Por que Arlindo Orlando sumiu? Por que não atendia mais o telefone? Maria Augusta resolveu arriscar descobrir o porquê. Pegou papel e caneta e mesmo aos prantos pôs-se a escrever. Assinava com o singelo pseudônimo de “Mariposa Apaixonada de Guadalupe”, utilizando as iniciais de seu nome para compor as novas palavras. Lembrara  ter ouvido na Rádio Atividade uma série sentimental chamada “Dedique uma canção a quem você ama”. Escolhera ouvir qualquer música de uma tal banda Blitz que estourava na época.

Ao ler aquela carta, o locutor fez um pedido mais que especial: “Onde quer que você esteja, volte para o seio de sua amada”. Do outro lado, Arlindo Orlando, atravessando o estado de Goiás, pensava em voltar. Pensava em largar tudo e aparecer, no mesmo caminhão de para-choque duro, farol baixo, chamando por sua Mariposa. Mas tudo era só aventura. Coisa de caminhoneiro perdido, que pensava estar a dois passos do paraíso.

*Texto escrito a partir da música "A Dois Passos do Paraíso", da banda Blitz, que, inclusive, teve sua verdadeira história revelada no curta-metragem abaixo. Pra quem gosta de filmes e tem curiosidade acerca da origem da canção, uma ótima pedida.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Europa é aqui

Todo mundo quer ser europeu. Todo mundo quer falar inglês, francês ou alemão. Conhecer a Cidade Luz, passear por entre as ruínas do Coliseu, visitar a Rainha. O fato é que ser europeu significa ser chique, ditar poder. E a culpa disso tudo pode estar justamente na hegemonia que esse continente deteve sobre o resto do mundo até pouco tempo atrás. Mas afinal, quais os efeitos da Europa em nós, meros americanos colonizados? Nossa identidade vale alguma coisa ou somos apenas espelho do Velho Mundo?

A globalização tornou tudo mais fácil, mas também pormenorizou certos aspectos culturais, como, por exemplo, a língua nativa de determinados povos. Falar português não tem o mesmo valor de mercado do que falar inglês. O fato de a língua portuguesa não ter alcançado a visibilidade que a inglesa alcançou é, com certeza, a principal razão para isso. Mas devemos ponderar. É cada vez maior o número de adolescentes que usam as redes sociais para popularizar ainda mais uma língua que não seja a sua. No Brasil, falar outra língua tornou-se grau de elitização. Louvável até, quando não há segregação.

Turismo, estudo, trabalho. Quanto mais fugimos de nossa cultura, mais somos valorizados. Se falamos 3 línguas, estamos aptos a exercer a presidência de uma empresa ou garantir aquela bolsa de estudos tão almejada. Herança europeia, que sempre negou nossa identidade, nosso jeito de ser. Fomos forçados a crer em seu Deus, a vestir o que eles vestiam, a falar o que eles falavam. Somos meras cópias, as quais tentamos repintar de tempos em tempos. O jeitinho brasileiro, a garra do povo e a própria população são apenas adaptações de costumes alheios, os quais até hoje tentamos imitar.

Ouve-se música estrangeira e detesta-se o popular, o nacional. Valoriza-se o idioma oficial de um filme, por exemplo, e nega-se a dublagem, o nosso falar. Infelizmente, talvez a única coisa realmente brasileira nesse emaranhado de plágios seja a natureza de nosso país, tão rica e grandiosa, inspiradora até na representação da bandeira da nação. Enquanto países europeus usam seus ideais, lutas e revoluções através de cores em suas bandeiras, no Brasil optou-se por valorizar nossa maior riqueza: a natureza. Ponto para nós.

Entretanto, não deve-se negar a importância que a Europa teve em nossa história. Somos gratos por tudo (ou pelo menos por quase tudo), mas seria bem melhor que construíssemos nossa própria identidade sem o auxílio de nenhuma metrópole. A Semana de Arte Moderna, em 1922, propôs isso; uma produção cultural e artística genuinamente brasileira, sem nenhuma interferência europeia. Deu certo.

E agora? Não seria o momento certo para valorizar nossa identidade e querer ser brasileiro? Desenvolvimento, visibilidade no exterior, capacidade de interferência nos grandes assuntos mundiais e você aí querendo ser inglês? Não seria a hora de rever seu próximo roteiro de viagem? Conhecer Curitiba deve ser bem mais legal que ir a Londres.

domingo, 12 de junho de 2011

Quebra-mar

Sentados no quebra-mar, faziam juras de amor
Não sabiam ao certo no que aquilo iria dar
Ela pedia atenção, ele exigia cuidado
Ela queria carinho, ele espalhava afago
Passos incertos, futuro na cara. Nenhum admitia.


Fim de tarde, pôr do sol, quase lua
Lua cheia. De desejo, de entrega, de luz
Mar calmo, quieto, simplório
Barulho zero, torpor à flor da pele
Eram os únicos da ilha, palco de toda dor.


Queriam coisas novas, tiveram novidades
Queriam coisas certas, tiveram inverdades
Negaram coisas prontas, enxergaram intimidade
Negaram coisas mortas, chegaram na idade


De viver e viver e viver
Mais um pouco, aonde der
Com você, sem você
Se esse quebra-mar quiser.


(Marcos Lima)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sabedoria de um escritor

Eu sei que você me lê. Eu sei que ainda compra meus livros escondida e diz por aí que são só uma fonte boba para sua pesquisa de mestrado. Eu sei de tanta coisa e não sei de quase nada. Não sei se me ver no ônibus carregando uma pasta preta te dá agonia ou pena. São somente edições de uma história que eu não queria contar, mas que acabei sendo obrigado pela vida a fazer. Sei também que eu poderia ter sido mais. Mais humano, mais digno, mais interessado, mais eu mesmo. Poderia ter sido menos também. Menos mandão, mal-humorado, menos afastado ou ciumento. Só não entendo por que ainda se esconde. Por que vira a cara toda vez que me vê, por que aparece em meus visitantes recentes no mundo virtual, por que resolveu ser assim. Machuca não ter você como fã. Machuca não saber se minhas vírgulas estão bem posicionadas, se meus adjetivos estão bem expressivos ou se meus pontos estão realmente pontuando alguma coisa. Machuca não ter você, sabe?! Não, não sabe. Não sabes de nada o que passa por aqui, pobre cristã. Não sabe se estou gordo, magro, calvo, velho, bonito ou feio. Só sabes que virei escritor. Um escritor bobo, desses que vira cada esquina procurando inspiração. Desses que ainda guarda um amor antigo na palma de sua mão. E que só pede uma coisa: que saibas - e entenda - que não te esqueci.

domingo, 29 de maio de 2011

Traumas musicais

Tramas e traumas: todo mundo tem. Um amor do passado que adorava Cazuza insiste em voltar toda vez que toca "Codinome Beija-Flor". Não responda nunca, meu amor, a qualquer um na rua "beija-flor", esse era o segredo de vocês. Música marca um bocado e você só percebe isso depois do último beijo, da última briga ou do último adeus. Até então, "Linger" era só a melodia que tocou em seu primeiro encontro, tal qual no filme Click.

Minha primeira música marcante foi "Wake Me Up When September Ends" do Green Day, lá em 2005. Marcante em relacionamentos, porque antes disso, muita coisa ficou guardada em forma de música por aqui. O clipe, aquela coisa melancólica de dizer adeus, e meu primeiro pseudonamoro contribuíram bastante pra banda americana encabeçar a lista. Era só eu ouvir a canção pra lembrar da maldita. Hoje estou curado (encontrei Jesus, encontrei Jesus).

2007 chegou e com ele um amor de verão, desses que vem de férias, passa 21 dias e te arrebenta bonito. Tempo suficiente para o Jota Quest e sua linda "Palavras De Um Futuro Bom" entrar no rol de músicas traumáticas. O som deixou de tocar todos os dias na rádio, a guria parou de falar comigo, mas mesmo assim, quando ouço, ainda dá vontade de precisar tanto aproveitar você, olhar seus olhos, beijar sua boca. Dizer palavras, palavras de um futuro bom.

O tempo passou e um trauma bem maior surgiu. Oasis e todas as suas músicas passaram a ser proibidão aqui em casa depois do fim de mais um pseudonamoro. A menina era fanática pela banda e ouvir Wonderwall sem lembrar do depoimento que ela havia me mandado com a letra da música era impossível. Graças a Deus que a banda acabou. Fim do trauma: mês passado, ouvindo "Stand By Me" na rádio, enquanto ia pra faculdade.

Por fim, tem a Colbie Caillat. Fim de 2009, casa da hoje ex-namorada, começo de namoro... O cd que rolava por lá era o "Coco" da Colbie. Festas de família, dá-lhe Colbie. Fim de ano? "Realize", "Bublly", "Magic". Por não contar com a possibilidade de que terminasse tão rápido, nem pensei em um possível trauma, portanto nem me preparei psicologicamente. Confesso que contarei por aqui quando eu ouvir "Battle" e não lembrar mais dela.

Hoje, a única certeza que tenho é que outros sucessos irão me traumatizar. Ou pelo menos me fazer lembrar de bons ou maus momentos. Dizem que eternizar é justamente isto: lembrar daquilo que você não quer, na hora em que menos imaginar querer!

domingo, 22 de maio de 2011

Pra ver A Banda Mais Bonita da Cidade passar

"Coração não é tão simples quanto pensa. Nele cabe o que não cabe na despensa. Cabe o meu amor! Cabe em três vidas inteiras. Cabe em uma penteadeira. Cabe nós dois. Cabe até o meu amor..."

Virou mania. De tempos em tempos, a internet descobre figuras que acabam fazendo sucesso em nosso dia a dia, seja na música, no humor ou em qualquer outro segmento cultural. Parte desse sucesso vem de vídeos postados no site Youtube, de perfis musicais criados no MySpace ou pela simples divulgação de uma opinião no Twitter. Artistas juvenis acabam sendo os mais beneficiados, haja vista seu maior contato com o mundo digital. E nós, os telespectadores, somos bombardeados diariamente com conteúdos agradáveis ou não.

Justin Bieber, Lady Gaga, Manu Gavassi e Fresno são alguns exemplos de cantores que alcançaram fama graças à massiva divulgação de suas músicas na rede mundial. No humor, figuras como PC Siqueira e Felipe Neto lideram as preferências graças a seus vídeos postados no Youtube. E tem muita gente bacana por aí, esperando seu vídeo alcançar 1 milhão de exibições em menos de uma semana pra garantir seu lugar ao sol. E foi o que aconteceu com a galera curitibana d’A Banda Mais Bonita da Cidade.

Com esse nome já dá pra ter ideia do que vem por aí. Ou eles são presunçosos demais ou realmente o conteúdo é que vale a pena. Nesse caso, fiquemos com a segunda opção. Em menos de uma semana (e até a conclusão desse texto), o clipe da música “Oração” da Banda Mais Bonita da Cidade já tinha alcançado 1.125.219 exibições. Como explicar esse sucesso estrondoso? Afinal, o que conta mais para a aceitação do público, o clipe, a música ou a divulgação?

Para alguns é o clipe. O vídeo, todo filmado em plano-sequência (sem cortes),  começa com um rapaz (o compositor da música, Leo Fressato, que não faz parte da banda) cabisbaixo, triste, cantando em um microfone e passeando pela casa. A cada cômodo que passa, músicos o acompanham com um instrumento diferente. No final, 16 pessoas estão reunidas em uma sala fazendo festa, como se fosse um grande encontro hippie, com vestidinhos florais, bermudões, etc.

Os que defendem que a música é o que garante o sucesso, o fazem pela sua facilidade de memorização, já que a letra tem apenas um parágrafo sequenciado, com palavras simples e rimadas. A divulgação também ajuda. No Facebook, 20.453 pessoas já curtiram a página da banda e o link com a música foi divulgado em vários perfis durante o fim de semana.

A prova de que simplicidade ainda é o melhor caminho para fazer sucesso está aí. A Banda Mais Bonita da Cidade chega para ser mais um hit da internet que, com certeza, terá retorno durante um bom tempo. Agora é esperar e aguardar mais coisinhas fofinhas aparecendo por aí. E enquanto elas não vêm, confira o clipe de “Oração”, aqui no Senhor do Tempo.



sexta-feira, 13 de maio de 2011

Não se morre de amor

Ando melhorzinho, mas ainda não livrei-me do dia do suicídio. Foi demais pra mim. Ver-te caída na sala de estar, olhos estáticos, sorriso forçado, dor. Não dava pra fazer mais nada. Só lembrava-me da carta. Maldita carta. Por que ele haveria de escrever-te dias antes uma carta? Poderia ser um e-mail, uma mensagem de texto. Tempos modernos, sacana. Morreu de amor ou do que dizia ser amor por ti, triste donzela. E você, boba, ingênua e infeliz, acreditou. Um homem não morre de amores assim. A morte é por dentro, tal qual a vida de uma árvore, que deixa a seiva acabar-se antes de cair suas folhas. Se morre aos poucos, de leve, primeiro às 4, depois às 10 da manhã. Ao meio-dia a dor é grande, mas pode-se resistir. Quando a tarde chega, já é hora de recomeçar. Deixar o sossego invadir e o pranto calar. À noite, tudo volta ao normal e fica-se esperando mais uma morte na madrugada seguinte. Morrer de amor é ressuscitar para amar, não suicidar-se da vida. Mais uma vez te enganou. Tal qual fez quando te levou pra cama, tirou tua roupa e rompeu tua inocência. Ah, Inocência. Morreu cedo demais. Antes mesmo que eu confessasse te amar. Morre aqui um sentimento, coisa que nem mesmo o tempo será capaz de matar.

domingo, 8 de maio de 2011

Contos de Whisky VI

Ah, ela estava ali parada, infeliz. Mergulhando suas angústias em um copo de cerveja barata. Não era justo fazer o que fez, jogar o charme que jogou, invadir sua vida como invadiu. Ela era suscetível e foi um prato cheio pra teu teste de galanteador. Esqueceu-se de uma regra, fundamental nesse jogo que, pelo visto, você não sabe jogar: é proibido apegar-se. E isso vale para os dois.

Não é lição de moral. Eu tava lá. Eu vi, com esses olhos que já viram muita coisa nesse mundo. Coisas que se eu contasse, com certeza preferiria nem acreditar. Ela tinha alguém e não era você. Alguém que também não era quem teria de ser. Um jogo de aparências, blindagens e flertes. Pronto, meu caro. Ponto pra essa sua beleza, esse seu charme, esse bem-me-quer, mal-me-quer, esse eterno teste de bom caratismo em que até eu cairia.

Mas foi bom. Quem pode negar isso? Dava pra ver em teu rosto, em tua falta de medo, em teu aparente sossego. Maldita somente a noite que já iria acabar. Tinha mais depois, mas eu preferi não acompanhar. Tinha uma certa esperança de que dessa vez você saberia como conduzir o barco. Saberia a hora de dizer não, de falar sim, de contar com o talvez. Pelo visto, não soube.

Como assim não quis o Martini? Como assim prendeu-se ao U2? A noite era só agora, sem pressa, do jeito que tem que ser. Ah, meu caro. Confundem-se as sensações com as desilusões. E você nem sabe ao certo se foi parte delas. Que história é essa de personagens de filme? É tudo vida real. Não existe certo ou errado, isso ou aquilo. Era vocês por vocês mesmos. Coisa de gente grande. Ou daquilo que pensavam ser.

O certo é que agora passou. Ambos com armaduras cruéis que já nem sequer lembram da batata frita que sumiu feito Stephen Fry. Aliás, por onde anda Stephen Fry? Por onde andam aqueles dois que eu conheci bêbados naquele bar? Ela em sua essência, ele em sua decepção. Motivos teriam pra fazer tudo de novo, mas é melhor assim. Quem sabe da próxima? Quem sabe na décima? Eu, na condição de Whisky, prefiro nem contar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O outro lado das fadas

Quem nunca se encantou com o mundo mágico dos contos de fada? Além de ser nosso primeiro contato com a Literatura, embarcar nessa viagem por entre castelos, bruxas e princesas desenvolve ricamente nossa imaginação e nos torna pessoas melhores, sedentas por um final feliz. Por outro lado, há quem diga que preparar-se para as adversidades da vida sem a leitura obrigatória desses clássicos é bem melhor. E aí, o que fazer? Predispor uma criança para a vida contando sempre a verdade ou instigá-la a ser um pouco mais otimista?

Hollywood parece que entendeu qual caminho seguir. Na última sexta-feira, teve início a temporada fantasiosa nos cinemas com a estreia de “A Garota da Capa Vermelha” (Red Riding Hood, EUA, 2011). O filme, baseado no clássico conto da Chapeuzinho Vermelho, leva adolescentes e adultos ao delírio com o misto de retorno à infância e realidade temporal. Cercada por uma trama que vai além dos “doces para a vovozinha”, a película, que tem direção de Catherine Hardwicke (de Crepúsculo e Aos Treze), nos envolve na consagração do lobisomem como novo queridinho universal. Afinal, já passava da hora de dar um descanso aos vampiros.

No filme, Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem moradora do vilarejo de Daggerhorn, atormentado pela iminência de invasões de lobisomens. A garota nada tem a ver com os ataques até sua irmã ser brutalmente assassinada pelo monstro. A partir daí, os moradores da aldeia juram vingança e partem para a perseguição contra o tal lobo. A coisa fica mais tensa quando o Padre Solomon (Gary Oldman), famoso por sua caça a esses “demônios”, chega à cidade e afirma ser um dos moradores o verdadeiro culpado pelos crimes.

Além disso, como não poderia faltar e em meio a tanto medo, Valerie se vê dividida entre ficar com seu verdadeiro amor ou casar-se com um rapaz rico, prometido pela família. Uma espécie de pano de fundo para mexer com o que realmente importa no filme: o mistério e os motivos, românticos ou não, que levam o lobo mau a atacar a comunidade. Para os carentes da vovozinha, uma triste constatação: ela não está tão viva e aumentativa como nas velhas histórias.

“A Garota da Capa Vermelha” inaugura um período de adaptações de contos de fada para o circuito. Nesta sexta, 29 de Abril, estreia “A Fera”, baseado no dilema de aparências de “A Bela e a Fera”. Do lado das animações, “Deu a Louca na Chapeuzinho 2” busca ganhar o público realmente alvo dessas histórias, com uma versão cheia de paródias e humor, revirando esses contos pelo avesso. Ainda em pré-produção, “Snow White and the huntsman” quer trazer o mundo da Branca de Neve e os sete anões para mais perto de nós. E acertou na escolha da protagonista. Kristen Stewart, a musa da saga Crepúsculo, promete fazer sucesso em mais essa sacada da terra de fantasias que é Hollywood.

Válido se encantar com essas histórias tão famosas desde o século XIV, na tentativa de trazer de volta a criança ingênua que já habitou em nós durante um tempo. Uma criança que acreditava em lobo mau, beijo que transforma sapo em príncipe e “viveram felizes para sempre”. Bem melhor que a realidade, você não acha?