quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O verdadeiro sentido do Natal

Sempre tive vontade de fazer algo diferente no Natal. Aos 8 anos, durante um passeio de carro na noite do dia 24, vi, pela primeira vez, que a vida não era fácil como parecia até então. Quem dirigia o veículo, ao passar por um viaduto próximo à minha casa, fez questão de me mostrar algumas pessoas cobertas por papelão, deixadas ao relento, provavelmente com frio e com fome. Naquele dia, por mais que minha cabeça não compreendesse o porquê de alguém estar sem casa e cama na noite de Natal, algo me perturbou. A cada dezembro, durante todos esses anos, o desejo de fazer alguma coisa por aquelas pessoas só crescia. E eis que me surgiu a oportunidade.

Tenho a felicidade de namorar uma pessoa incrível e com um coração enorme. Costumo dizer a ela que sua fé é uma das coisas que mais admiro nesse mundo. A fé que nos uniu na certeza de um amor verdadeiro também é a fé que a juntou com pessoas maravilhosas em um grupo de jovens católicos chamado Javé Nessi. O nome escolhido para o grupo foi sugestivo e significa “O Senhor é nossa bandeira”, em alusão ao que consta no livro do Êxodo, capítulo 17, versículo 15, do Antigo Testamento.

Atendi ao convite para visitar um hospital da cidade na noite do dia 25, a fim de distribuir cachorro-quente e suco para os acompanhantes de quem ali estivesse internado. Embora receoso em encarar a cruel realidade de um hospital público que sempre é manchete nos jornais por causa de sua superlotação e alta exposição de pacientes em macas espalhadas pelos corredores, prontamente me dispus a ir e ajudar. Penso que precisamos encarar o problema sem medo para buscar soluções, que também podem se mostrar em pequenos gestos e mínimas atitudes.

A fé que une o grupo é inigualável e isso ficou bem visível quando pudemos entrar no hospital para transmitir uma mensagem de solidariedade e desejar Feliz Natal aos que ali estavam. Como alguém fez questão de frisar durante a visita, não sabíamos nada sobre a história de nenhum dos pacientes, mas estávamos ali para levar um pouco de esperança aos corações sofridos através da palavra de Deus, munidos da oração que Seu filho nos ensinou. Após as orações por algumas enfermarias, uma vez que ainda havia comida, resolvemos visitar um hospital infantil e distribuir o que sobrasse para os sem-teto espalhados pela principal praça do Centro de São Luís.

Entre essas idas e vindas, pude refletir sobre muita coisa em minha vida, repensando atitudes e buscando novos ângulos para observar um mundo cruel que tentamos atropelar todo santo dia com nossa pressa, preguiça e egoísmo. Costumo dizer que se todos tivessem a oportunidade de visitar um hospital público e um presídio em condições degradantes, o mundo teria, no mínimo, gente melhor para povoá-lo. Desprezo a visita para simples comoção ou por meros interesses políticos, como vemos a cada ano de eleição. Precisamos agir diariamente para tentar mudar a situação, com os meios que estiverem ao nosso alcance, mesmo que eles sejam os mais simples possíveis.

Meus projetos de vida continuam os mesmos, mas o meu olhar para o mundo lá fora está totalmente diferente. Só tenho a agradecer a quem me proporcionou tamanha reflexão e a quem tem me tornado melhor a cada dia. Seja assim também, como essas pessoas que conseguem transformar em realidade o velho ditado que diz: “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”.

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Senhor dos 22

E, de repente, acordei com 22 anos de idade. Planos traçados, pessoas ao redor, gente completamente desconhecida aos 18 e que agora não imagino viver longe... É como se cada erro do passado pudesse convergir em um único ponto, fazendo você finalmente perceber que foi preciso passar por tudo aquilo para ser alguém melhor hoje um dia. Em síntese, uma boa pessoa, entre percalços do dia a dia e defeitos essencialmente humanos. Faço-me adepto do exercício do autorretrato, do procurar erros em mim que eu nem sabia que existiam, sempre precisando de uma ajudinha exterior. Vejamos.

Não sou alguém fácil. Por mais sociável que eu seja, quem me conhece de verdade sabe dos meus pontos fracos, das minhas inquietudes e dos meus medos. Extremamente recorrentes, esses medos são resultado de uma boa dose de passado glorioso e limitações pontuais. Sem queixas, longe de mim. Acho até que esses medos me ajudam em alguns momentos, pois, sem eles, eu não conseguiria que pessoas corajosas me fizessem enxergar tanta falta de coragem. Frouxo é aquele que não vai à batalha hora nenhuma. Minha coragem se resume em partir para a guerra no momento oportuno. Mas até a estratégia do mais sublime herói deve ser repensada de vez em quando.

Carrego preconceitos. Assim como uma boa parcela da população brasileira, tenho lá meus pré-julgamentos. Todos sabemos que somos resultado do nosso passado, da nossa experiência de vida, do nosso meio cultural. É “aceitável” que enxerguemos com outros olhos algo estranho ao nosso convívio. O que entendo como inaceitável é conformar-se com essa situação. Como já disse, sou do tipo que precisa de um “empurrãozinho” para enxergar certas coisas e, ultimamente, tenho visto que muitos preconceitos meus não têm sentido em permanecer aqui comigo depois de tanto tempo. Feliz daquele que tem a hombridade de reconhecer seus erros e ir em busca de uma solução precisamente eficaz.

O novo me assusta. Mudar sempre demanda tempo e desprendimento, é assim pra todo mundo. Mas acontece que a novidade sempre me assusta de uma maneira maluca. Acho que é esse prazer por controle nas mãos, por ser dono do seu próprio eu, que faz com que eu seja assim. Mas também estou propenso a mudar. Tenho trabalhado de forma a enxergar a novidade como uma extensão do que já existia, afinal, como ela o é. Entendo que nada é por acaso e tudo está concatenado de uma forma ou de outra. O nosso futuro, portanto, não é completamente desconhecido.

Romantizo demais a vida. Cada amanhecer é uma oportunidade para recomeçar e aprender coisas novas. Faz-se necessário estar disposto a aprender sempre. Ouvir novas histórias, descobrir horizontes e apaixonar-se pela vida a cada dia é uma forma saudável de viver bem consigo e com as pessoas de seu convívio. Claro que é preciso moderação. Romantizar demais no mundo cruel que vivemos hoje é ter a certeza de que iremos nos machucar. Essa lição eu já aprendi. Mas não me privo de acordar, fugir do meu mundinho e ir viver. Lá fora está a maior fonte de aprendizado que alguém pode ter: a vida. Tente. Eu tenho tentado e estou tentado a continuar tentando tentar.

No mais, apesar de querer moderar minha exposição ao escrever, sempre chego à conclusão de que tem gente precisando ler um ou dois parágrafos amigos, com o mínimo de experiência possível. O Senhor do Tempo agora tem 22 e está cheio de novos motivos para acreditar que isso é o certo a fazer. Mesmo que o paradoxo da falta de tempo insista a me abater, farei como tenho feito com todos os meus problemas: resolverei o mais rápido possível. De preferência, antes de dormir.

Por amor às causas perdidas...