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domingo, 10 de julho de 2011

A dois passos do paraíso

1983. Miracema do Norte, fim de tarde. Maria Augusta voltava da casa de seus pais quando fora surpreendida por um caminhão, desses de faróis baixos e para-choques duros. Pensou ser sequestro, tentativa de homicídio, estupro. Ficou com medo e danou-se a gritar. Arlindo Orlando, um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade, desceu do veículo e pôs-se a explicar sua parada. O caminhão tinha pouco combustível, já estava escurecendo e ele queria descansar. Não era de seu feitio assustar as pessoas, principalmente uma moça linda como aquela, disse o rapaz.

Maria Augusta procurou se acalmar. Entraram em um bar à beira da estrada, pediram alguns comes e bebes e passaram a noite conversando, ouvindo a Radio Atividade. Tinham milhares de coisas em comum, inclusive o fato de estarem solteiros. Uma pousada, ao lado do bar, era, agora, o refúgio dos dois. Tiveram uma noite inesquecível, coisa de novela, com direito a juras de amor e pedido de casamento. Augusta questionou o fato de ele estar sempre viajando, ao passo que Orlando dizia não haver problema. Ele largaria tudo para viver com ela.

Amanheceu e ambos tiveram que partir. Comunicavam-se constantemente. Ele a viajar e ela a sonhar com seu destino, preparando cada detalhe do casamento. A data marcada chegara e nada poderia dar errado. Igreja lotada, convidados esperando pacientemente, uma noiva em prantos. Arlindo Orlando fugiu, desapareceu, escafedeu-se. O burburinho era uníssono. Noivo maldito, coitada da noiva, mentiroso, ingênua. Aquele seria o dia do dia mais feliz de sua vida e agora era apenas maquiagem borrada.

O que havia acontecido? Por que Arlindo Orlando sumiu? Por que não atendia mais o telefone? Maria Augusta resolveu arriscar descobrir o porquê. Pegou papel e caneta e mesmo aos prantos pôs-se a escrever. Assinava com o singelo pseudônimo de “Mariposa Apaixonada de Guadalupe”, utilizando as iniciais de seu nome para compor as novas palavras. Lembrara  ter ouvido na Rádio Atividade uma série sentimental chamada “Dedique uma canção a quem você ama”. Escolhera ouvir qualquer música de uma tal banda Blitz que estourava na época.

Ao ler aquela carta, o locutor fez um pedido mais que especial: “Onde quer que você esteja, volte para o seio de sua amada”. Do outro lado, Arlindo Orlando, atravessando o estado de Goiás, pensava em voltar. Pensava em largar tudo e aparecer, no mesmo caminhão de para-choque duro, farol baixo, chamando por sua Mariposa. Mas tudo era só aventura. Coisa de caminhoneiro perdido, que pensava estar a dois passos do paraíso.

*Texto escrito a partir da música "A Dois Passos do Paraíso", da banda Blitz, que, inclusive, teve sua verdadeira história revelada no curta-metragem abaixo. Pra quem gosta de filmes e tem curiosidade acerca da origem da canção, uma ótima pedida.

3 comentários

Kell disse...

Que legal, adoorei seu texto! Vc escreve muito bem! *-*
Quanto a musica em que foi inspirado, eu adoro elaa tambémm, me trás boas lembranças... :D
Muito bom seu blog! Parabéns!
Raquel
http://jornalkell.blogspot.com

Francorebel disse...

Também gostei muito do texto, continue assim.

Abração. Seguindo.

F.

Thybério Bastos disse...

Ótima adaptação.
=)