sábado, 5 de maio de 2012

À espera da próxima estreia

Saudade de quando minha vida parecia uma comédia romântica, dessas gostosas de assistir acompanhado, comendo pipoca e dando beijinhos na bochecha da outra pessoa de meia em meia hora. Saudade da sensação maluca de ouvir uma trilha sonora ecoando pelas ruas e avenidas da cidade a cada vez que o casal protagonista se encontra. Saudade do clímax da história onde alguma bobagem ou armação separa o mundo aparentemente perfeito dos dois. Vai ver eu só esteja saudosista mesmo, olhando pra janela escancarada do passado e refletindo sobre meus erros e acertos.

Quem nunca errou? Quem nunca achou que estivesse fazendo a coisa certa e se deparou em um verdadeiro filme de terror? A tensão da ligação inesperada da madrugada dando lugar àquela marcada por um “precisamos conversar, te ligo mais tarde”. Inevitavelmente, a gente sabe que vai ser assim, mas deixa de acreditar a cada corte bonito de cena, porque o Oscar vale mais que qualquer crítica de gente especializada idiota. Um incrível teatro de ilusões perfeito pra gerar público, principalmente em eras de sociabilidade exagerada.

Sim, sinto falta das fotos bonitinhas, das poses bonitinhas, da bonitinha - o que não significa que eu queira a mesma direção de fotografia nos meus próximos filmes. Aprendi nesse ínterim que visualizar seu passado no futuro só serve pra te desestimular ainda mais e perder oportunidades de ouro. Grandes personagens deixam de fazer parte do seu kasting de histórias porque você simplesmente não os incluiu lá. Ponderar demais é perigoso, principalmente pra quem não sabe fazê-lo.

Se já era hora de terminar o filme, tirar o disco do player e colocá-lo na caixinha, ninguém nunca vai saber. Não seria melhor ver os extras antes de devolver o dvd pra locadora? Ninguém nunca vai ouvir os comentários dos atores ou do diretor sobre essa conversa pra boi dormir que é amar. Sou contrário ao “não deu certo”, posto que seja eterno, infinito e certo enquanto dure. A única certeza nesse show de incertezas das relações amorosas é que faz falta quando se esvai. E somente outra comédia romântica tira o título da última favorita.

Já me acusaram de tudo, inclusive de péssimo diretor/ator nessas obras de arte. O meu 3D é descobrir, degustar e me decepcionar. A culpa não é da produção, do cenário ou da protagonista, é minha mesmo. Poucas vezes eu soube enquadrar a cena e escolher o que o público vai ver. Meu próximo filme vem carregado de uma dose colossal de novas experiências e reflexões. Coisa pra inglês ver. Produção totalmente nacional, filmada em ônibus, livrarias, casas de show e universidade, assim espero. Sobre a estreia? Ainda preciso encontrar alguém que se encaixe ao papel que escrevi - personagem simples, porém complexa, do jeito que todas as anteriores foram. Em breve, no meu cinema, perto de mim e de você.


domingo, 29 de abril de 2012

Primeira esquina, à direita

I Won't Give Up by Jason Mraz on Grooveshark

Aliás, você sabe onde me encontrar. Sabe que estarei sempre sentado naquela nossa esquina favorita, lendo um livro qualquer, bebericando o resto de uma bebida comprada há alguns dias em um desses bares de subúrbio. Sabe muito bem que não conseguirei te esquecer de imediato e entende, como só os loucos entendem, o quanto eu penso em você a cada noite de chuva ou tarde ensolarada. Só esqueço você pela manhã, quando o que me importa é o sono dos justos e o sonho dos covardes.

Quem diria que iríamos nos separar assim, feito água e óleo, frio e calor. Grande amiga, mulher pela qual eu daria o céu se pudesse tocá-lo. Fugi de você porque despertei de um pesadelo terrível, doce criatura. Como continuar a te seguir se sequer podia tocá-la? Como permanecer do teu lado se não podia nem sentir teu gosto, molhado e suado beijo negado? Muito prazer, me chamam de otário, largado na sarjeta da estrada dos desesperados.

Sonhei, decerto, com a progressão de nossa relação. De forma silenciosa, me via ao teu lado discutindo ciências humanas, escolhendo filmes tailandeses em uma locadora suntuosa e reclamando do alto preço do jornal de domingo. Não esperei muita coisa quando descobri sua impaciência, encalacrada em um milharal de defeitos suportáveis e perfeitamente compreensíveis. Enganei a mim mesmo com gosto de mentira mergulhada em veneno, desses que dificilmente matam, apenas nos corroem, lentamente.

Fugi pela porta da frente te deixando nos fundos. Saí, apaguei as luzes e tranquei a porta, necessariamente nessa confusa ordem. Como sempre, sempre confusos, nós. Como dar o próximo passo se passo nenhum havia a dar? Como encarar e externar o próximo desejo se desejo nenhum havia a se apresentar? Adoro essa sua cara de sono e o timbre da sua voz, que fica me dizendo coisas tão malucas. Era maluquice te querer. Não daria certo nunca.

Quando sentei à esquina e te vi desolada tentando entender o que diabos havia acontecido, finalmente entendi o que diabos havia acontecido. Eu estava cansado. Cansado de tanta indecisão, de tanto devaneio bobo, de tanto prognóstico de invisibilidade. Tentei dar certeza por uma boa dezena de vezes, assim como reconheço suas tentativas, mas cabia a mim um basta, porque você não seria capaz de fazê-lo. Nós fizemos tudo errado desde o dia em que pensamos demais nos outros passados e nos esquecemos de nossos presentes. Voltamos à esquina onde nos conhecemos, onde um par se fez um só.

Não vou sumir de teu bairro até conseguir separar o que ainda sinto por ti daquilo que senti. Não te peço tempo nem paciência, apenas resguardo. Ame, não te impedirei de amar ninguém, apenas pondere e responda a si mesma se me amou o tanto quanto te amei. E se eu aparecer bêbado em uma dessas velhas e sujas esquinas que não seja a nossa, rapte-me, camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pas...


sábado, 14 de abril de 2012

Crimes - Ferdinand Von Schirach

Um prato cheio para quem gosta de Direito Penal. Assim poderíamos definir o livro “Crimes”, do advogado alemão Ferdinand Von Schirach (Ed. Record, 2011). Trata-se de uma narrativa exploradora da linha tênue entre realidade e ficção no mundo do crime, que vai muito além do acontecimento em si, levando o leitor a repensar seus conceitos de condenação prévia. Uma seleção de contos que beiram o bizarro, mas que, segundo o autor, não passam de verdade nua e crua.

Ao longo de 11 capítulos, cada um com uma história diferente, Von Schirach nos leva a um passeio pelos crimes e julgamentos mais interessantes da Alemanha nos últimos tempos, como o caso do clínico geral aposentado que matou a esposa com um machado de lenhador por não aguentar mais suas queixas e reclamações. Seria mais um crime cruel se o histórico de calmaria e quietude não estivesse sempre presente na vida do indivíduo. Houve um acesso momentâneo de fúria, depois de tanto tempo calado frente às humilhações da mulher. O que fazer? Puni-lo judicialmente é o certo ou a própria punição pela qual o aposentado passava por ter assassinado a esposa (e ainda amá-la) já é suficiente?

Von Schirach, que assumiu a posição de advogado de defesa em todos os casos relatados no livro, explora o lado jurídico-filosófico das causas, fazendo um relato do psicológico de seus clientes e expondo boas justificativas para os delitos. O homem que enterrou os pedaços cortados do cliente morto de sua amiga prostituta o fez por amor. O mais louco de tudo: o cliente havia morrido de causas naturais, sem ter ela nada a ver com a situação. Houve crime? Tentar proteger alguém que se ama é considerado crime?

Com uma intensidade chocante, “Crimes” nos dá um verdadeiro tapa na cara ao elencar situações que parecem sem motivo ou sem solução. Apesar de ser um livro fino (176 páginas), a leitura pausada acaba sendo mais recomendada, tanto por diminuir a angústia no que se refere às histórias quanto pela aceitação e reflexão acerca dos acontecimentos de cada uma. Uma sugestão e tanto para quem gosta de saber o que se passa em uma mente criminosa e para os advogados em busca de bons argumentos na hora de defender um caso.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Ainda existe privacidade?



Você ainda faz questão de ter privacidade? Afinal, ela acabou ou ainda perambula raquítica por aí? O fato é que assinamos um contrato sem sequer analisar seus riscos. Fazemos parte agora da parcela populacional que coloca a espionagem tácita em um verdadeiro pedestal. Casa, padaria, lanchonete, shopping center. Não basta ir, você tem que avisar que está lá e, além de disso, dizer quem está com você. Às vezes, mesmo quem é totalmente avesso a esse tipo de invasão, participa do check-in sem nem saber do que se trata. Uma atualização que pode servir para reunir amigos, mas que também é um prato cheio para os mal intencionados de plantão.

No último fim de semana, durante o show da Pouca Vogal aqui em São Luís, fui indagado por uma amiga sobre o que eu fazia mexendo no celular naquele momento (nada invasivo, uma vez que era hora de curtir a balada e deixar o celular de lado). Expliquei que estava fazendo check-in em um site chamado Foursquare e vendo por onde estavam meus seguidores. Para quem não conhece, o Foursquare é uma rede social com ares de jogo online em que você diz onde está naquela ocasião e compartilha com outros usuários. Basicamente, quanto mais você compartilha sua localização, mais pontos e medalhas ganha. Se for analisado a fundo e quanto à sua utilidade, acaba sendo bem idiota. Mas torna-se legal pra quem é apaixonado por essa falsa vida social que o século XXI nos obriga a ter.

Pois bem. Dado o check-in (e após o show, claro), passei a me questionar por que diabos eu havia feito aquilo, naquele local. A primeira resposta que me veio a mente foi: "eu queria compartilhar minha alegria em estar no show de uma banda legal e fazer uma inveja ~ branca ~ para quem não estava lá". Pecado nenhum, ué. Entretanto, uma outra dúvida surgiu: e o simples fato de avisar que estamos em casa ou no shopping? Fazer inveja? A quem? Ou simplesmente aparecer na internet?

A notoriedade da mídia se transformou na necessidade de compartilhar. Todos querem falar para os amigos o quão gostoso é o novo sushi da cidade. Todos querem dizer que estão no aeroporto rumo ao Rio de Janeiro. Todos queremos aparecer - nem que seja em um tweet ou publicação no Facebook. Coisa de gente solitária, esquizofrênica, blasé? Vai saber. E nossa privacidade? Ainda existe ou é puro termo dos livros de psicologia do século passado?

Sinceramente, não acredito no fim desse resguardo social. A privacidade ainda existe, apesar de toda a informação compartilhada. É bem difícil ver alguém dizendo que está em um motel ou no banheiro fazendo o número 2. Ainda temos o senso e a noção do ridículo, ainda bem. Ninguém quer saber disso. A gente, que mantém perfil social na internet, quer aprender mais com as publicações alheias, sorrir um pouco, saber como nossos velhos amigos estão, enfim, se divertir. Postar onde você está e o que está fazendo não é pecado nem exagero. Só não tem uma razão definida. Uns fazem porque gostam, outros porque querem e outros porque é moda.

Ninguém quer ser vigiado 24 horas por dia. Querer fama e notoriedade esbarra em problemas comuns como "eu fiz merda no passado, não posso me expor". Quem disse que gostamos que os outros saibam de tudo da nossa vida? O que caiu foi nossa máscara da privacidade, revelando a de falsos compartilhadores inveterados que somos. Postar não significa dizer que você aboliu a privacidade de sua vida, mas sim que apenas trouxe pra si o hábito de compartilhar. Por isso, continuemos fazendo check-ins e checando onde estamos. Dentro ou fora do limite do ridículo.

domingo, 25 de março de 2012

Contos de Whisky VII

Manhã de sexta. Juliana abre a janela do quarto e contempla a paisagem da ilha rebelde do alto de seu apartamento. Refém de uma malemolência digna dos malandros cariocas, a menina esfrega bem os olhos e sussurra para si mesma que aquele seria o dia. Morando sozinha há pouco mais de um mês após uma discussão com os pais, a garota de 20 anos finalmente percebe que agora sim a vida valeria a pena. Solitária, companheira apenas de seus livros e ressentimentos, estando exatamente onde queria estar, com planos fadados a erros insolúveis.

Estava solteira há quase 1 ano e os únicos relacionamentos que tivera nesse ínterim foram uma mistura de inexplicáveis e insaciáveis desilusões. Sexo displicente, vingança, beijos em desconhecidos, vida inexata. Durante esse tempo de contradições, conhecera Vinícius, um rapaz calmo, solícito e interessante, como ela mesma o descrevia para as amigas mais próximas. Mais novo, tinha tudo o que ela acreditava ser capaz de fazê-la feliz naquele momento. Adorava cinema, leitura noturna e achava sua voz engraçada. Ele seria diferente de seu último namorado, que a largara pra jogar futebol no sul do país.

Mas nunca Juliana sabia se Vinícius estava interessado nela. O rapaz sempre contava sobre seus antigos relacionamentos, falava com carinho das garotas com quem ficava e até jogava algumas indiretas, mas nenhum sinal fixo de que poderia rolar alguma coisa. Certo dia, ao se encontrarem na biblioteca da faculdade, Juliana sentiu que queria beijar Vinícius, mas o garoto não esboçou movimento nenhum para que isso acontecesse. Ela quis matá-lo. De amor, mais uma vez.

De alguma forma, Juliana pressentia que Vinícius estaria no mesmo lugar que ela naquela noite. Música alta, gente bêbada e a chance perfeita para ficar com ele. Um homem não resiste a um flerte na balada, pensou. Sua malandragem estava escancarada naquele vestido curto. O ímpeto representado pelo salto alto e a máscara que somente a maquiagem pode oferecer faziam de Juliana a  mulher mais decidida de toda a festa. Ao chegar, tratou logo de beber um ou dois drinks e criar coragem para qualquer coisa. Ouviu dezenas de cantadas, inclusive uma minha, mas manteve-se focada em seu objetivo.

Vinícius apareceu e sumiu rapidamente. Juliana não queria parecer vulgar, atirada ou mesmo bêbada para o rapaz, por isso toda vez que o via esperava que ele a chamasse pra dançar, o que não aconteceu. Cansada de tudo e de todos, pegou a única arma em punho naquele momento: seu celular. Com mais álcool no sangue, enviou uma mensagem desencontrada para seu intento, que logo apareceu em meio a luzes e batidas repetidas. Juliana disse tudo o que queria e sentia, como já planejara desde cedo. O problema é que as palavras dela soavam como “coisa de menina bêbada” e não como “coisa de menina apaixonada”. Vinícius permaneceu calmo e preocupado se ela chegaria bem em casa. Nenhuma reação, mesmo após ouvir Juliana dizer que não sabia exatamente o porquê, mas que queria beijá-lo ali, já, naquele instante.

Em casa, Juliana, ainda bêbada, resolveu encerrar o assunto através de outra mensagem dizendo que era só aquilo, não tinha mais jeito, acabara. Boa sorte. Vinícius não respondeu, não atendeu as chamadas da garota, sequer explicou porque tinha tanto prazer em desprezá-la. Outro dia, vi o garoto saindo de uma lanchonete abraçado a outro garoto. Os dois pareciam felizes, coisa de pele mesmo. Juliana continua cheia de coisas pra fazer, gente pra conhecer e novos Vinícius pra amar. Mas ela tem preguiça - inclusive de dizer que não era bem aquilo que queria expressar na derradeira mensagem. Vive um dia de cada vez, agarrada à esperança de daqui a um tempo entender por que aquele rapaz é assim. Tão distante e, ao mesmo tempo, tão eterno.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tribunal do ex-amor

Já pensou se todas se reunissem para falar de mim? Um salão circular preenchido por cadeiras confortáveis, um tribunal onde eu seria acusado pelo crime que vivo cometendo: ser eu mesmo. Todas as ex-namoradas, ficantes, paixonites e afins juntas, debatendo meus prós e contras, meus erros e acertos. A paixão da 2ª série sentada ao lado da atual dona dos meus pensamentos soturnos e noturnos. A esquisita frente a frente com a mais cheirosa. A inesquecível trocando telefone com a mais efêmera.

De fato, seria curioso. A primeira namorada se aproximaria do púlpito localizado no centro da sala e abriria o verbo contando como nos conhecemos e como nos desconhecemos. Falaria das noites, dos beijos e do meu descontentamento com suas alegrias. Pertinentemente, começaria a lembrar de que até poderíamos ter ido mais longe, mas voltaria a me odiar porque só tivemos 1 semana para terminar o que nem começamos direito. E eu sem direito de me defender.

Todas falariam das mensagens de texto no celular. Palavras carinhosas (parte I), carinhosas (parte II) e sumiço temporário que durava um bom tempo. Ou mais. Nesse intervalo, discutiriam por que sou assim. Diriam que é o cansaço, preguiça, displicência, impaciência e inúmeros motivos tortos. Diriam também que no começo é tudo maravilhoso, mas que no fim eu simplesmente deixava pra lá. Reclamariam que os apelidos fofos só apareciam depois das brigas e até que as próprias mensagens só surgiriam de novo após as brigas. Algumas mais radicais e recentes informariam sobre a mania cruel de mensagens de madrugada carregadas de teor alcoólico. Tendência unânime: todas elas adoravam receber as mensagens, mesmo as forçadas.

Algumas falariam pouco, outras elogiariam, mas sempre com uma queixa a fazer. Saídas que não aconteceram, beijos que não rolaram ou que ocorreram tarde demais, verdades inescapáveis, terríveis acessos de fúria em salas de cinema, coisas. Ninguém sairia satisfeito até dizer o que havia entalado na garganta para alguém que também tinha algo a dizer. No entanto, ao ouvirem o barulho e afirmações fortes que cada uma fazia, perceberiam uma coisa: eu tinha sido melhor para as sucessoras. A número 1 serviu de teste e aperfeiçoamento para a relação com a número 2 e assim por diante. Nenhuma tinha uma reclamação exatamente igual. “As pessoas mudam”, diria alguma das presentes que pensasse nisso.

Nenhuma foi tratada pelo mesmo adjetivo da outra, sempre houve reinvenção. Nenhuma conheceu os mesmos defeitos que a antecessora conheceu. Ou eles ficaram mais evidentes ou se perderam no tempo. Por fim, todas admirariam o cuidado que tive para não enxergar as mesmas pessoas em corpos diferentes. Algumas derramariam uma lágrima por ainda estarem procurando alguém como eu, outras simplesmente sairiam do local reconhecendo minha inocência e as mais orgulhosas e céticas ainda iriam querer mais debate e discussão.

Neste dia, iriam para a casa com a única certeza sobre os humanos que existe: ninguém é igual. Nem mesmo a mesma pessoa é exatamente igual aos 13 e aos 20 anos. Sofreriam por saber que eu segui em frente e seguiriam em frente ao saber que eu também sofri para chegar aqui. Um tribunal sem sentença, onde a única juíza é a vida e onde o único réu é você mesmo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Hora da indireta

Quem me acompanha no Twitter sabe o quanto eu alterno conteúdo em minhas postagens. Bem, isso é mais que comum no microblog, mas já vi muito perfil que só conta piada, só reposta o que os outros postaram ou, religiosamente, só publica notícias. Nada contra quem faz isso, cada um faz o que quer em suas redes sociais, mas esse é apenas um mote para eu vos apresentar este texto. Como me permito ir além e postar de artigos científicos a como foi meu dia, resolvi ceder ao poder das hashtags (espécie de hiperlink precedido pelo símbolo # onde você pode visualizar quem está falando sobre determinado tema naquele momento).

Na última sexta, antes de sair da internet, uma hashtag chamou minha atenção. #HoraDaIndireta era a primeira da lista e assim permaneceu por mais de 24 horas como sendo o assunto mais comentado do site no Brasil. O objetivo me pareceu bem simples: escrever uma indireta para alguém que estivesse online naquele momento e esperar a reação da pessoa. Ou meramente escrever e deixar lá. Confesso que aquilo me fez lembrar tantos episódios da minha vida envolvendo indiretas que quis testar o poder que elas têm sobre nós.

O meu “plano” era mais simples ainda: escrever uma falsa indireta e ver quantas pessoas iriam se afetar com aquilo. E lá fui eu perder tempo em uma noite de sexta-feira em casa.


Para quem não sabe, “Candy” é uma boate gay de São Luís. A intenção não era depreciar a opção sexual de ninguém, apenas mostrar de alguma maneira o quanto nos importamos com o que é publicado na internet, principalmente algo revelador como “uma menina que todos conhecem como exemplo a ser seguido beijando mulheres em uma boate”. Logo surgiu a pergunta: “quem é essa?”, expressa assim:


Não resisti. Acabei contando para quem fez a pergunta que aquilo era só um teste para ver o quanto as indiretas afetam as pessoas. Imediatamente, alguns outros seguidores curtiram a ideia e foram tweetando frases ácidas, cuja veracidade infelizmente não posso confirmar.


Teve até quem ficasse triste porque seus “alvos” não estavam no Twitter naquele momento:


No mais, o “tempo perdido” valeu a pena. Percebi o quanto a gente se torna infantil postando indiretas na web. O quanto eu era infantil em namoros passados postando frases ofensivas para quem só queria distância de mim. Hoje consigo controlar bastante isso, o que não significa dizer que eu não mais o faça. A indireta existe para que você coloque para fora o que tem medo de dizer. Bate um alívio, uma sensação (boba, efêmera, mas ainda assim especial) de estar por cima da carne seca, de saber que aquela pessoa vai ler e que aquilo vai afetá-la. Gostoso mesmo é quando a indireta é terna, meiga e engraçada. O alvo vai saber que aquilo é para ele – e, de quebra, ainda dará um sorrisinho.

Também há os casos em que as indiretas podem resolver um problema que você não quer ou tem medo de encarar. Pode ser a saudade de uma paixão antiga, o desejo de não ser perturbado à noite ou a tentativa de dizer para um amigo que ele faz falta.


No mais, indiretas são saudáveis, mas desde que seguidas algumas orientações. Não se deve viver só delas ou em função delas. Se alguém mandou ou disse uma dessas frases e você sabe que era para você, duas opções: responda e relaxe ou não responda e relaxe. Nada de criar grandes barracos em locais públicos ou nas redes sociais, no espaço destinado a compartilhamento de informações – além de correr o risco de perder amigos, você ainda vai gerar assunto para muito desocupado por aí. Evite ser visto(a) como o chato(a) dos lugares onde frequenta, sejam eles reais ou virtuais. Cresça! Etiqueta indireta, todo mundo deveria ter. Ou, pelo menos, fingir que tem.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Nostalgia carnavalesca

Bateu saudade da inocência do Carnaval. Aliás, dos meus olhos inocentes presenciando aquela festa móvel de todo início de ano. Muito além do feriado e do “ficar em casa por dias seguidos”, o Carnaval tinha um sentido mágico para mim. Sempre gostei da cadência das músicas, dos ritmos que embalavam o rádio, a televisão e a folia de rua. Lembro que cheguei a me arriscar poucas vezes a ir ao centro da cidade ver os blocos passarem. O medo dos fofões, a caminhada demorada, nada disso tirava minha alegria de criança ao ouvir canções que eu sabia de cor de tanto escutar em casa.

“É gostosa, é gostosa, parece um avião, meu coração vai explodir” sem nenhuma conotação sexual, pura brincadeira de Bicho. Quem gosta, conhece ou já esteve no Carnaval do Maranhão sabe que o ar aqui é outro. Sem menosprezar o samba, o axé ou o frevo dos outros estados, aqui a irreverência realmente toma conta dos bairros, ruas e avenidas e invade cada coração, por mais duro que ele seja. Mesmo quem não gosta da folia acaba afetado pela Bandida na orla pacata ou pelo Jegue que emana molecagem por onde passa. A Máquina descasca desejos e projeta felicidade nos becos da São Luís serpenteada.

Tudo é festa em fevereiro-março. A imponência do Centro Histórico dá lugar ao colorido da trama entre o pierrot, arlequim e colombina. E eu sinto falta do tempo em que me importava mais com isso. A gente cresce, fica bobo, fala besteira e se esquece de celebrar a verdadeira alegria infantil que existe em nós. Como era legal fazer a tabelinha de apuração das notas das escolas de samba cariocas. A tensão das incontáveis tardes de quarta-feira de cinzas torcendo pelo Salgueiro, odiando a Beija-Flor e querendo que a Mangueira perdesse só pra não massagear o ego da mãe. O axé da Band, que era a preferência da prima postiça, completava minha folga, mesmo que eu não admitisse isso.

Alguns carnavais têm sabor maior de lembrança. Aqueles em que meu padrinho já falecido vinha passar férias aqui em casa são os de que mais me lembro. Filmes de bang-bang, chuva, ronco barulhento na sala de madrugada, gibis a cada ida à praça, sua incisiva crítica à “bobagem” que passava na TV durante essa época. Hoje vejo que foi o mais perto que tive da figura de pai. Acho que soube dar valor. Acho que soube aproveitar, da maneira e no tempo certos. Talvez por isso hoje em dia eu prefira ficar em casa patrocinando maratonas de filmes e séries ou jogando conversa fora com os amigos. É mais cômodo e saudosista.

Longe disso, enrolo uns passos e pulos durante a folia. Ano passado, um baile de máscaras com marchinhas antigas. Esse ano, bloco de rua na praia. Tô melhorando. É bem diferente do radinho de pilha onde eu ouvia o Gaguinho, mas é mais animado. Ainda tá em pauta criar uma charanga e circular pelo bairro jogando maisena nas crianças ou saber o que o interior do Maranhão tem de tão espetacular durante esse período. Se for só pra beijar a boca de 30 desesperadas, dispenso. Prefiro a alegria do meu feriado ao desespero de uma quarta-feira de cinzas.
Porque todo carnaval tem seu início, meio e fim...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Mixtape - Melancolia

Ódio, tristeza, vontade de sumir. Quem nunca passou por um momento desses? Durante a adolescência, milhares de jovens se trancam em seus quartos, ligam o som e começam a pensar se esse não seria o melhor momento pra fugir de casa ou até mesmo cometer suicídio. Quais músicas embalariam essa fase? A seguir, 20 canções melancólicas, depressivas e igualmente marcantes pra fazer você chorar desesperadamente agarrado(a) ao travesseiro. Enjoy!


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Balanço do inexistente

Lembro-me de beijos que não existiram. Lembro exatamente o momento em que nossas bocas se encontraram lentamente depois de uma brincadeira sagaz e um olhar certeiro. Lembro a hora, o lugar e a razão. Percebi seu quase gesto de recusa, o medo em seu olhar de menina recém-aprovada no vestibular. Lembro-me de não estar lá. E da sua ausência também.

Não consigo esquecer aquele sonho, que permanece até hoje encalacrado em minha lista de oportunidades perdidas. Queria poder dormir eternamente, com você permanentemente envolvida em meus braços mesmo que em uma dimensão transcendental. Não faria mais nada a não ser te impedir de voltar à realidade e me deixar ali, plantado em meu sonho impossível. Queria te proibir de viver sozinha e só lutar pra tê-la ao meu lado pelo tempo necessário que o pra sempre implica. Perco-me em detalhes soturnos e acabo assombrado por mim mesmo. Dica fundamental sobre mim: eu sou exatamente desse jeito.

Sou surpreendente mesmo quando você insiste em dizer que sou o mais previsível dos homens. Sou bobo, fofo ou todas as denominações que você me impõe a cada conversa demorada de madrugada. Sou aquele que você não teve, mas que permanecerá ao seu lado todo santo dia, esperando até que mude de ideia. Sou a essência da completude quando pensei que seria da impossibilidade. Sou apaixonadamente tentado a esquecê-la, mas daí percebo que meus dias sem você serão como salas de cinema fechadas pra balanço. Limpas, porém sem vida qualquer perambulando lá dentro.

Não a culpo. Até queria fazer isso, mas olho pra minha mão e vejo que três dedos estão apontados pra mim quando tento tocá-la. E como eu tento tocá-la. Tento sucessivas vezes tatear seu corpo, dar-te o carinho que nunca recebeu, mas você me evita. Esquiva, finge que está com frio e recusa meu calor. Confundo minha linguagem, erro coisas bobas quando estou perto de você. Reinvento todas as vírgulas, mudo os pronomes, seleciono os adjetivos. O meu verbo é você, mesmo que intransitivo, sem ligação nenhuma.

E sabe da melhor? Você sabe de tudo isso. Sabe que é a primeira a vir em minha mente quando a palavra ‘paixão’ surge em letras garrafais em um outdoor qualquer. Sabe do quanto preciso de você em um sábado à tarde só pra ver o pôr do sol. Sabe, pura e simplesmente, a minha verdade em relação ao que sinto por você. Mas espera pelo tempo certo. É tão sensata e especial que não acredita em milagres e mudanças repentinas por trás de alguém que já errou tantas vezes. O medo guia nossas mentes tal qual pais despreparados conduzem filhos inocentes. E vamos vivendo em cartas rabiscadas na última página de um caderno velho, em documentos escondidos no computador, em fotos nunca reveladas, nem mesmo nas redes sociais.

Somos diferentes de qualquer casal. Somos únicos e por isso mesmo reincidentes nesse crime de gostar demais, sem poder ter uma gota de decisão sequer. É melhor seguir assim sabendo que vou tê-la ao meu lado depois de um tempo do que correndo o risco de perdê-la. Prefiro mil vezes ser teu de mentira a não ser teu de verdade. Fica, vai ter festa. Vamos comemorar nosso primeiro mês de não namoro com um não beijo e uma não declaração de amor. Passa aqui em casa. Tô te esperando...