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domingo, 28 de setembro de 2014

Do outro lado da ponte

Acordou para o desespero.

Tocou-se lentamente e sentiu algo diferente em seu corpo. Seios maiores, pernas torneadas, cabelo extremamente liso. A cama não era a mesma da noite passada. O quarto, antes maltratado pela ação do tempo, com suas paredes de tijolo exposto e telhas deslocadas por causa do vento, dava lugar a um espaço minimamente decorado, com quadros coloridos e prateleiras cheias de livros e dvd’s. Era um sonho. Sentiu-se uma princesa.

Levantou, abriu o closet (antes simplesmente guarda-roupa) e deparou-se com dezenas de perfumes, cremes, joias, roupas e sapatos. Pegou um daqueles pares que admirava na televisão e colocou em seus pés. Perfeição. Desequilibrou-se um pouco ao pisar no chão, mas logo se acostumou ao piso branco e à nova altura que ganhara graças aos 12 centímetros do salto. Caminhou em direção à janela e abriu aquele seu novo mundo. Nada de vizinhos barulhentos, nada de roupas estendidas no varal da esquina. Estava de frente para a praia. Ponta d’Areia. Apartamento 503.

O que teria acontecido? Por que acordou em um quarto estranho, em uma casa estranha e tão diferente? Decidiu investigar. Do alto de seus 18 anos, encontrou uma carteira de couro de cobra com uma identidade totalmente diferente daquela que tirara no Viva Cidadão anos atrás. Novo nome, novos pais, nova vida. Desesperou-se.

Abriu a porta e encontrou o nada às 6 da manhã. Nada do irmão pequeno berrando, nada da mãe lavando roupa, nada do pai desejando um bom dia e indo trabalhar na construção de um daqueles prédios do outro lado da cidade. Percebeu que estava do outro lado da ponte e sentiu falta de tudo o que reclamava. Ouviu um barulho na cozinha e resolveu ver o que era. A empregada preparava um café da manhã reforçado. Deu bom dia e perguntou por “seus pais”. “Foram trabalhar, ué”. Perguntou onde e recebeu como resposta um suave “na empresa”. A considerar os móveis, os tablets espalhados pela mesa de centro e a TV de LED 46 polegadas da sala, sua nova “família” era bem rica.

“Você vai se atrasar”, disse a empregada. “Pra onde?” “Você está tão estranha hoje, Amanda”. Amanda? Ah sim, Amanda. “Sério, pra onde? Me esqueci completamente”. “Faculdade, curso de Medicina, CEUMA, esqueceu?” Amanda não acreditou. Era estudante de um dos melhores e mais caros cursos da cidade. Tomou o melhor banho da vida, vestiu uma roupa que julgava ideal para a faculdade, tomou café e saiu. Namorado esperando à porta, beijo na boca, um leve tapinha na bunda, um puta susto. Elevador, uns amassos, prazer nunca antes sentido, carro de luxo, sala de aula.

Amanda passou toda a aula de Processos Metabólicos tentando entender como chegara àquela casa e por que tudo aquilo estava acontecendo. Merecimento, castigo, sonho? Desistiu, pensou nos antigos pais, foi ao banheiro e, egoisticamente, olhando para o espelho, esboçou um sorriso desses de comercial de creme dental e disse para si mesma:

- Eles iriam gostar de ter uma filha médica. Adeus, Coroadinho!

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mindfuck

Mesa de bar. 22:13. Em meio ao vozerio intenso dos frequentadores do lugar, me pego observando despretensiosamente cada corpo estranho ao meu redor. A loira da mesa ao lado esboça um sorriso extremamente sensual enquanto gesticula com as prováveis amigas de faculdade. A negra, de corpo escultural, amarra o cabelo encaracolado de forma cuidadosa, destacando ainda mais sua beleza nativa. A japonesa de traços delgados mexe no celular, comenta sobre o cabelo da amiga negra e sorri para a moça loira, ao mesmo tempo em que se delicia com o clichê do sushi.

O chopp é dobrado. E também é dobrada a vontade de me embriagar. Pouco importa se é segunda-feira, se amanhã cedo o trânsito é um inferno e se tenho faculdade às 7:30. Sempre fui intenso, ávido pelo presente e desconfiado do futuro, esse completo desconhecido que desespera e anestesia tanta gente todo santo dia. Na verdade, nunca enxerguei nada além do tempo que preciso para sobreviver. E ele nunca ultrapassou as 24 horas daquela série americana. Vivo, erro, aprendo, sofro, me alegro... presente.

Do outro lado do bar, uma guria começa a me encarar. Olhares perdidos e encontrados em um mesmo compasso, de maneira que a cadência de seus olhos azuis de cigana oblíqua, dissimulada e gostosa acaba por penetrar em meu olhar vazio e arredio. Nunca antes na história dessa minha vida... Em mais de 1 hora nessa troca de olhares, não me passa pela cabeça fazer absolutamente nada. Nenhum bilhete entregue a ela via garçom, nenhum comentário tipicamente masculino com os amigos da mesa e nenhuma esperança, uma vez que seu namorado é extremamente mais forte e mais simpático que esse que vos escreve.

Ele levanta. 1 minuto depois, ela vem em minha direção. Em uma conversa meio sem sentido, diz que sente minha falta, pergunta pelos meus pais e se Spike ainda está vivo. Quem é Spike? Aliás, Spike sempre foi o nome que eu daria a um cachorro. Se eu tivesse um. Depois de uns 678 chopps, dobro minha consciência e tento me lembrar de onde conheço aquela maluca extremamente bonita que agora desafia meu senso mental. Ela me dá um beijo, pergunta se ainda moro no mesmo lugar e promete uma visita "qualquer hora dessas". Bianca.

Bianca namorou comigo 2 anos e 7 meses depois disso. Jura não se lembrar de ter me visto em bar algum naquele dia. Jura de pés juntos não saber quem era o cara malhado que descrevo incansavelmente. Nunca mais vi a loira, a negra, muito menos a japonesa. Faço análise com um psicólogo maluco desde que Bianca começou a namorar com o cara do meu retrato falado. Parei de beber.

O futuro tem dessas coisas. A gente nunca sabe se ele já não está presente!


domingo, 20 de outubro de 2013

A menina do supermercado

“O passado fica na gente da mesma forma
 que o açúcar de confeiteiro fica nos dedos.
Algumas pessoas conseguem se livrar dele,
mas os fatos e as coisas que as empurraram
para onde estão agora continuam ali.”

(O Circo da Noite)

Martinho da Vila é enfático quando canta “já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores”. O músico descreve situações amorosas e faz um gostoso passeio romântico ao relatar diversos relacionamentos de um eu-lírico envolvido com mulheres extremamente diferentes. “Mulheres cabeça e desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz”. No meio de todas, em forma de poesia, o artista destaca aquela que era tudo o que um dia ele sonhou pra si. Na verdade, Martinho poderia muito bem estar me descrevendo nessa história. E como poderia...

De uns tempos pra cá, tenho me compreendido como um solitário acompanhado. Um típico Alfie, mas sem a sedução característica do Jude Law. Alguém que se baseia em encontros e sexo casual para medir seu nível de felicidade. Uma vida de mentiras, eu diria. Nada vergonhoso nem perigosamente doentio, uma vez que ando em dia com a compra de preservativo na farmácia do shopping próximo ao escritório. Não é que eu não me satisfaça, eu apenas não fico satisfeito.

Preocupo-me com cada mulher apaixonada que cai nas minhas garras e promessas de felicidade plena. A cada estranha conhecida que abre a porta do meu carro e adentra o meu mundo de barzinhos e apartamento na parte nobre da cidade, eu me sinto menos eu. Sinto como se minha essência tivesse se esvaído ou presa a um evento, oportunidade ou pessoa. Tive 3 relacionamentos que considero sérios, mas ainda me prendo ao segundo sempre que observo a lua na varanda desse 707.

Hoje tomada pelas curvas de mulher que o tempo a concedeu, a outrora ‘menina do supermercado’ era doce e angelical, sem perder a garra e firmeza de alguém que já havia sofrido bastante para apenas 18 anos. Minha ânsia por tentar demasiadamente prever o futuro destruiu uma das mais belas histórias que ousaram escrever. A filosofia de fé emanada por aquela garota consolidou bases fortíssimas em minha vida que nunca mais ousei mostrar pra ninguém. A liberdade invocada por suas atitudes me transformou em um ávido e verdadeiro sagitariano, aventureiro, com um pouco menos de medo. Seus beijos eram inspiração para alegrias que duravam horas e horas, que eu nunca pensei que fossem acabar. Mas acabaram.

Hoje sou um Machado mais realista do que romântico. Tentei amar de novo, mas nenhuma me sorriu feliz nos testes a que submeti cada uma delas pelos corredores de supermercado. Casada carente, solteira feliz, donzela, meretriz, nenhuma delas se assemelha àquela estranha loucura que me apareceu há 5 anos. Nossas vidas tomaram rumos diferentes, exatamente como planejávamos – mesmo querendo, os dois, que aquilo durasse pra sempre. A última vez que a vi foi em uma festa, regada a muito álcool e desilusões. A última notícia de uma rede social inconveniente relata que voltou com um antigo namorado. Nada mais justo: seguir em frente.

Infelizmente, eu não segui em frente. A cada álbum, banda, lugar, arquivo escondido nos confins do HD externo, etc, etc, etc, ela me aparece como em sonho, como em realidade palpável. Juro que tento fazer com que as coisas façam um pingo de sentido, mas elas insistem em não fazer. E vou vivendo a maneira de amor que escolhi pra mim, uma vez que aquela maneira de amar ainda me vale a pena, mesmo que eu diga e mostre que não. Já era, guria: a tua praga pegou.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cruzadas

Débora. 28 anos, advogada, viciada em sapatos e carente. Acostumada a um mundo de facilidades, teve tudo do bom e do melhor desde que se entendeu por gente. A boneca mais cara, o estojo multicolorido, a melhor escola, a melhor universidade privada do estado, etc, etc, etc. Frequentava baladas da elite ludovicense à procura de um cara que a fizesse trocar o trabalho no escritório por uma viagem de lua de mel na Argentina. Sonhava com um advogado másculo e competente, alguém pra dividir seus anseios e seus projetos jurídicos.

Ele. 25 anos, desempregado, viciado em crack e morador de rua. Acostumado à falta de oportunidades, teve todas as portas fechadas desde que aceitou fumar a droga oferecida por um vizinho. Viu a mãe desesperada, o pai atropelado, o irmão mais novo também viciado, a polícia truculenta, etc, etc, etc. Frequentava as ruas, avenidas e rotatórias à procura de comida e companhia, na intenção de esquecer o vício por alguns minutos. Sonhava com alguns trocados a mais naquela intensa tarefa de limpar para-brisas.

Não, eles não se apaixonaram. Débora abriu a porta do carro. Ele se espantou com a luz do sol. Débora deu a partida, ele guardou as caixas de papelão que lhe serviam de coberta. Débora, contente, ligava o rádio e ouvia Selena Gomez no programa da manhã. Ele queria um café da manhã. Débora parou no sinal vermelho, ele entrou na padaria. Débora fazia planos mentais para o dia, ele perguntava quanto custava o pão com manteiga. Débora infringia a lei atendendo o celular enquanto dirigia. Ele era humilhado dizendo que não poderia pagar aquela refeição. Débora distraída, ele rouba comida e sai correndo pela avenida. Débora o atropela e ele vai parar a uns 300 metros de distância. Débora, apavorada. Ele, morto!

Por um instante, aquelas vidas se encontraram. Poderiam ter vivido um grande amor, desses que vemos diariamente em todos os lugares. Débora se tornaria mais humana, ele passaria a ter perspectiva na vida, Débora sofreria um bocado tentando livrá-lo do vício, ele seria pai de uma criança linda e educada e você me diz que isso é utopia. Talvez. Amar é a mais bela utopia que existe. Acreditar no amor, mesmo quando ele tem todas as chances de dar errado, é igualmente louvável. Tentativa, meu caro. Nada de atropelar pessoas e sentimentos.

Débora quis saber o nome dele. Não havia nome. Desconhecido, conhecido e chamado de ‘Ele’. Cochichos diziam ‘menos um ladrão’. Bocas sussurravam ‘era vagabundo, vivia roubando pela redondeza’. Débora se sentiu aliviada. Não seria presa, não teria a vida profissional manchada e apenas prestaria depoimento na delegacia mais próxima. Vida besta que segue. Afinal, ‘menos um vagabundo’. Afinal, menos uma história de amor e mais uma de egoísmo. Onde nosso próprio umbigo vale mais do que massa encefálica espalhada pelo chão da avenida.

domingo, 28 de julho de 2013

Bem, Rainha!

Parabéns, você conseguiu! Onipresente, destruiu todos os planos que eu havia feito para um dia perfeito. Venceu uma partida do jogo de xadrez do sentimentalismo teletransportando-se mentalmente para o cérebro da Rainha. Xeque-mate! Com toda franqueza, não te desprezo. Com toda fraqueza, só peço que pare. Aliás, você já não faz mais nada. Você está e não está, magoando pessoas que estão magoando outras criaturas exatamente agora. Triste fim.

Mas você despertou a ira do amor. E isso eu não posso consentir. Tudo o que você plantou sem querer começa a querer devorar o querer bem. A atenção, o cuidado, as inúmeras tentativas de agradar, agora se tornaram ervas daninhas capazes de consumir até fogo, se eu assim deixar. Só que essas ervas daninhas carregam um bem precioso demais pra eu cortar o mal pela raiz. Minha cabeça anda confusa e o único jeito que eu tenho pra resolver isso é confiar no Bem magoado. Talvez ele tenha a saída. O Bem e o Tempo.

Eu tenho medo que a Rainha se perca. Confundida pelo Onipresente, acredite piamente que ele estará lá sempre que ela precisar. Eu estarei. Guiado pelo Bem, se assim Deus me permitir. Só que eu tenho medo que o Bem se canse e que perca as forças paulatinamente, me deixando desnorteado e sem ânimo para continuar. Venho de um confronto direto com o Onipresente, que me deixou cicatrizes profundas, todas curadas com muito suor e lágrima. Disseram-me que o Bem tinha as respostas. Acho que ele as tem.

Derrotado na primeira batalha, não me acomodarei. A guerra em busca da Vida está só começando e eu não abro mão dessa vitória de maneira alguma. Tenho minhas armas e vou usá-las com a maior parcimônia possível. A arte da guerra, já ouviu falar? Guerra de tronos. Pelo Bem da Rainha. Pela Rainha de Bem.

Bem, Rainha, a sorte está lançada!


sábado, 6 de julho de 2013

Contos de Whisky IX

- Tô aqui pensando. Quem faria um sobrado de cara pra parede? Olha lá, totalmente fora dos padrões de arquitetura. Coisa de gente louca. Um dia ainda vou embora dessa cidade!

Natasha não falou por maldade. Sentada no banco de uma praça próxima ao casarão aparentemente mal feito, a garota procurava maneiras de evitar uma iminente discussão com a namorada. Nicole havia trabalhado o dia inteiro numa dessas lojas de shopping e só queria ver o pôr do sol com a companheira. Natasha queria beber, fumar e, quem sabe, transar num desses motéis baratos do centro da cidade. Nicole queria ficar ali, abraçadinha com quem ela sentia ser o amor de sua vida.

Nicole carregava inúmeros complexos em sua cabeça de ex-adolescente. Namorados traumáticos, família superprotetora, faculdade interminável. Não reclamava porque gostava de tudo daquele jeito, feito o exercício do caos. Ultimamente, tinha pedido aos deuses uma paixão arrebatadora, apelando, inclusive, para o vestido vermelho e para a calcinha cor de rosa na noite de Réveillon.  Dito e feito. Natasha apareceu durante o maior porre da vida de Nicole, em uma boate gay, lugar onde a patricinha nunca havia pisado antes.

Natasha era totalmente o oposto de Nick, como gostava de tratá-la. Rockeira desde a adolescência, a garota de quase 22 anos era o que eu posso chamar de ‘a personificação da loucura’. Uma loucura boa, eu diria. Vodka, cachaça, uísque, cerveja, destilados diversos e álcool capaz de colocar uma frota inteira de carros bicombustível pra atravessar os 890 metros da Ponte do São Francisco. Como eu gostava dessa garota. Como eu gostei de observá-la bêbada jogada no banheiro da casa de uma das amigas lésbicas sem sequer saber onde estava. Como eu gostei de vê-la em sua casa, vomitando em plena segunda-feira depois de um porre de vinho barato. Minha ébria preferida!

Nicole beijou Natasha por causa da carência. Havia visto o perfil do ex-namorado sendo atualizado para ‘em um relacionamento sério com uma puta qualquer’ e foi beber. Bebeu até que fez amizade com Natasha, que se aproveitou do ‘nenhum homem presta, né amiga?’ e a fez descobrir que a cura para aquilo poderia estar em peitos e bundas. E em línguas. Entrelaçadas, descobriram que toda aquela volúpia poderia significar algo a mais. Foi quando a patricinha percebeu que Natasha era chave de cadeia, confusão para a família perfeita, a mulher da sua vida. Foi quando percebeu que estava amando outra mulher.

3 meses de relacionamento e as duas já pareciam almas gêmeas de comédia romântica. Amassos quase diários, ligações até 2 da manhã todos os dias, mentiras para a mãe, festas, sexo pelo Whatsapp. Nicole e Natasha se amavam e faziam questão de dizer isso uma a outra diariamente. Mas Natasha percebeu que ali não tinha clima como da primeira vez que transaram. Percebeu que Nicole só precisava de amor e descobriu de uma maneira bem frustrante que a namorada não pensava em fazer sexo. Nicole era do tipo que fazia amor, todo dia, toda hora, enquanto ajeitava o cabelo de Natasha, enquanto a abraçava, enquanto a beijava. Natasha se lembrou dos tarados com quem ficou, das meninas drogadas com quem transou, da única pessoa que amou antes de Nick.

Foram embora, sem beber, sem fumar, sem transar. A seguir, a mensagem de texto que a de quase 22 mandou para a de 18 logo depois de pôr os pés em casa naquela noite:

- Te quero na parada de ônibus, no sofá da minha casa, no terraço da sua. Te quero fazendo sol ou chuva, dia ou noite. Te quero sorrindo ou chorando, triste ou feliz. Te quero com ou sem roupa. Apenas te quero. Tu é meu sonho, o meu amor. Meu verdadeiro e eterno amor!

domingo, 25 de novembro de 2012

Carta de arrependimento

Não se preocupe comigo, guria. Eu sei me cuidar! Pelo menos é o que eu acho e o que venho repetindo todos os dias em frente ao espelho. A cada despertar desengonçado às 9 da manhã desses dias insuportavelmente ensolarados, eu tento enxergar meu reflexo de uma forma melhor, sem o esfregar de olhos característico de quem ainda não acordou direito. Todo dia tem sido miseravelmente chato aceitar o fato de que você não está aqui para me dar um beijo de bom dia ou me servir uma fatia de bolo da padaria. Até o padeiro já sabe que você foi embora. Só eu que ainda não aceitei sua decisão.

Aceitar e acreditar são coisas diametralmente diferentes, mas que eu faço questão de unir em um só corpo e um só espírito. Saudade de nossos domingos na Igreja de manhã cedinho. Você me fazia ter fé na vida, em Deus e na gente. Pegávamos nosso ônibus e passeávamos pelo centro da cidade, todo esburacado, fazendo daquela a nossa cena romântica da semana. Eu tinha pena da felicidade infeliz dos casais que por nós passavam. Aquela mesmice, chatice, coisa mais sem graça. Nós não. Nós éramos Romeu e Julieta sem a inimizade das famílias. E eu não era nada sem você.

Você sempre fazia questão de aumentar a voz quando a Cássia Eller cantava “que o pra sempre, sempre acaba”. Era um recado explícito a um jovem apaixonado feito eu. Hoje não tem mais graça ouvir nossas músicas, assistir a nossos filmes, degustar nossas comidas. Já não tem mais graça ser engraçado. Como você gostava das minhas piadas sem graça, dos meus hematomas após esbarrar em todos os móveis da casa, como você cuidava bem de mim. Eu fui um ingrato quando te traí. Eu deixei escapar a única certeza que eu tinha na vida: a de que eu só seria feliz com você.

Agora estou aqui, em casa em um sábado à noite, digitando essas palavras bobas de arrependimento. Bobas porque não acredito que elas serão suficientes para trazer você de volta. Se eu quisesse você de volta, eu levantava agora dessa cadeira, pegava meu carro e iria a sua casa fazer serenata, aproveitando para acordar seus pais e vizinhos. Mas eu não sei dirigir. Eu não sei dirigir minha vida sem você. E você, sabe? Sabe ser feliz sozinha ou com outra pessoa? Não me diga que aprende porque eu não vou conseguir aceitar. Aceita casar, ter filhos, um cachorro e uma casa na praia quando formos ricos?

Eu sei me cuidar, meu amor. Se esse sol todo for embora amanhã, eu levo meu guarda-chuva na mochila e te deixo despreocupada, ok? Agora deita, dorme e descansa. Preciso ir ao bar encontrar a galera. Preciso chegar antes de todo mundo, olhar para o lado e prestar atenção naquela morena maravilhosa que está acompanhada na outra mesa. Preciso disfarçar, olhar para os lados, conferir o relógio e esperar que ela finja que vai ao banheiro só para poder encontrar comigo. Preciso levantar, atender aos meus instintos masculinos, segui-la, mirar aqueles seios fartos e desistir, mesmo após constatar toda a volúpia e lascívia em seu olhar, dizendo:

- Tem rímel aí, colega? Fico péssima sem maquiagem!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Aquela antiga felicidade

Chega de tanto choro. Eu te trouxe pro samba, minha velha, esqueceu? Esqueceu como éramos felizes no batuque do sagrado swing do coração? Esqueceu a velha nota dó que eu tocava pra você só pra chamar atenção? 1970, você grávida do nosso mais velho. Como eu estava feliz. Seria pai em plena ditadura militar, em meio a protestos, gritos e ecos de gente inocente. São Luís ainda não era nada. Tinha uma ponte recém-inaugurada e algumas dúzias de pessoas se permitindo a passar pro outro lado. Eu não queria estar entre essas dúzias. Por mim, continuava no bairro de Fátima, ao lado da minha Fátima. Mas você insistiu. Insistiu em vida nova, em começar de novo pras bandas do São Francisco. Nossa vida sempre rodeada por santos, anjos e Deus, não é mesmo?

Era tão bom poder caminhar sobre o Anil. Atravessar a ponte disposto a pensar em tudo e nada ao mesmo tempo. Sentir a brisa gelada do mês de Agosto enquanto alguns carros modelo 80 passavam por mim com seus escapamentos soltando fumaça. Meu destino era a feira da Praia Grande na tentativa de alimentar melhor nossos dois filhos. Augusto queria camarão fresco e Carlos Alberto só pensava em um carro pra levar as namoradinhas pra Gonçalves Dias. A Vale começava a operar pras bandas do Bacanga e tentar garantir um emprego por lá não seria um mau negócio. Consegui, veio o Chevette 88 e a democracia. A promessa era de um novo tempo. Caixas d’água espalhadas pela cidade, viadutos e o nosso lazer em uma avenida litorânea. Novamente, foi você quem sugeriu a Ponta D’Areia. E minha virada de século só foi completa porque estávamos unidos e felizes feito família de comercial de loja de material de construção.

Eu te trouxe pro samba, mulher. Aqui, nesse sábado ensolarado, de calor nunca visto por nós nem por ninguém nessa ilha de encantos e azulejos. Já pode sorrir ouvindo “Conselho” ou “Deixa a Vida Me Levar”. Deixa de desconfiança. Eu não vou te trocar pelos shoppings e vias expressas. Não vou me contentar com veículos leves e sobre trilhos nem com relógios gigantes fazendo contagem regressiva pra não sei o quê. Eu só quero você por perto, admitindo ter 62 e eu 65. A gente já viu tanta coisa juntos, lembra? Lembra a alegria de Carlos Alberto quando passou na prova da Ordem? E de Augusto insistindo pra namorada paulista que camarão fresco era a melhor comida da cidade, você lembra? Chega de chorinhos e chorões. Vamos pra casa. Que bom que você aceitou voltarmos pros lados da Kennedy e terminarmos essa história bonita onde tudo começou. Te amo, Fátima. E só vou deixar de te amar se você votar de novo no atual prefeito!

São Luís (1978)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Contos de Whisky VIII

O cansaço tomava conta de seu corpo. Havia bebido demais durante a noite inteira e tudo o que queria era uma cama pra relaxar, de preferência em um quarto onde o ar-condicionado marcasse 17ºC. Paulo Roberto era um sortudo. Filho de um dos advogados mais respeitados de São Luís, poderia ter tudo o que quisesse na palma de sua mão, a qualquer momento. Quando criança, era aluno exemplar do Reino Infantil. Adolescente, deixou as boas notas no passado e resolveu o conhecer o mundo dos boletins vermelhos, das suspensões, das brigas e da bebida alcoólica em festinhas comumente chamadas de resenhas. Tinha um bom papo com as meninas e não se permitia sair dessas bebedeiras sem beijar pelo menos umas cinco. E transar com uma ou duas, sei lá.

Morava na Ponta D’areia com os pais e tinha uma casa de praia em seu nome em Panaquatira, do outro lado da faixa litorânea. De vez em quando, chamava os amigos mais chegados para farras regadas a muito uísque e forró na mansão praiana. Já havia experimentado crack, loló, maconha e outras dessas drogas que ninguém sabe o nome. Repudiava a ideia de namorar, principalmente depois de uma experiência frustrada com Karla, que o fez de trouxa ao trocá-lo por Gabriela, a menina mais bonita, pra não dizer gostosa, do Ensino Médio da época. Paulo era “estilo namorador”, “gostosão daqui” e mais “raparigueiro” do que ele, só seu papai. Dirigia pela cidade amparado pela falta de fiscalização contra essa gente sem carteira que insiste em dizer que sabe dirigir. Uma vez fora parado na Avenida dos Holandeses, bêbado e desabilitado. Pagou 20 reais do troco da entrada cara da Second Floor ao policial gordo e barbudo e foi embora, desenhando a letra S pela pista.

Paulo Roberto não sabia o que iria acontecer, só sabia que não poderia dormir ao volante. Maldita hora em que resolveu sair do Chez Moi bêbado só pra levar aquela guria de vestido curto pra um motel na Areinha. Poderia ir pra casa, atravessar a ponte e refazer o caminho já tão conhecido em suas noites de menino ébrio. 21 anos e nada de aprender com a vida. Sábado era dia de esquenta com os amigos e depois Candy “só pra ouvir a boa música eletrônica que toca por lá”. Domingo, após acordar ao meio-dia, sua maior indecisão seria escolher entre Trapiche ou Chama Maré. Segunda, novamente acordar tarde, ver suas notificações do Facebook e ir pra aula de Direito no CEUMA, agora Universidade. Paulo era o típico estudante de Direito que fazia tudo errado. Mas as meninas gostavam, então era isso que importava.

Com Isabella era bem diferente. 18 anos, moradora da Cidade Operária, filha de um pedreiro e uma costureira. Bem clichê, eu sei. Mas o que não é clichê nessa vida? Prestes a terminar o Ensino Médio, mesmo depois de uma greve que estragou seu 2º ano, Isabella só pensava em fazer o ENEM  e conseguir passar para o curso de Letras na UFMA. Estudava no Liceu Maranhense e enfrentava horas de congestionamento em um ônibus velho e apertado que nada tinha de Tropical e que nem São Francisco dava jeito. Apesar de tudo, ia cedo para a parada a fim de encontrar um lugar para sentar e ler seus romances de adolescente. Tinha lido todos os livros da saga Crepúsculo e os lia rápido com a intenção de devolvê-los para seus donos. Lembro a alegria da menina Isabella ao entrar pela primeira vez em um cinema e ver aquele Edward materializado em um ser humano. Era parecidíssimo com o galã que havia imaginado – e que a Stephenie Meyer fez tanta questão de descrever.

Namorados? Isabella teve uns dois. O primeiro, seu vizinho, era um bom rapaz, mas Isa sempre desconfiou de sua fofura e gosto por coisas de meninas. Vivia elogiando suas roupas e esmaltes, além de adorar filmes como Meninas Malvadas e Legalmente Loira. Tempos depois, se assumiu homossexual e hoje namora um desses bombadões do Renascença. O segundo namorado foi a paixão arrebatadora de uma menina, desses príncipes encantados que elas sempre falam. Namoraram por 2 anos e o ciúme excessivo prejudicou todo o resto. Davam-se bem, apesar de ele não querer saber de estudar e ela viver grudada aos livros. Vaidosa toda, economizava o que podia para comprar as roupas mais bonitas na feira do bairro. Me esqueci de falar: Isabella adorava a Rua Grande.

Frequentemente, entrava em um ônibus sem destino específico. Encostava a cabeça na janela e  começava a imaginar uma vida diferente. Passava pela Jerônimo de Albuquerque e selecionava os lugares que um dia pretendia conhecer, principalmente as pizzarias do Vinhais. Pensava que tudo mudaria quando começasse a faculdade. Logo arranjaria um emprego e ganharia independência, eximindo seus pais da necessidade de bancá-la. Adorava as vidraças da UNDB e sonhava em um dia ter grana suficiente pra fazer um segundo curso por lá - quem sabe Direito, sua segunda paixão. De vez em quando, descia no Tropical/Monumental Shopping e perdia horas, ou sentada na praça principal admirando os transeuntes ou na Nobel lendo os primeiros capítulos de livros que ela não podia comprar – ainda.

Isabella nunca havia bebido e a primeira vez seria hoje, agora, nesse exato momento. Noite de sexta-feira. Paulo Roberto acabara de tomar seu primeiro drink na boate do Reviver e Isabella ouvia o primeiro reggae no Porto da Gabi.  Como aquela morena gostava de um reggae. Nascida na Jamaica Brasileira, deixava suas tranças e seu rebolado dominarem todo aquele corpo, delgado, cor do pecado... Não era difícil um homem se aproximar. Isa, meio tímida, não sabia como lidar com a situação. Esquivou-se, protestou, mas acabou dando um beijo no rapaz já meio bêbado. Mais cerveja de um lado, mais “bombeiro” do outro. Paulo e Isa beijavam e espantavam os mesmos fantasmas, mesmo com vidas diferentes e sem ao menos se conhecerem. Trágico destino, responsável pelas maiores desgraças do mundo, até daquela que se chama amor.

Paulo Roberto começou a encarar a loira de vestido sedutor. Ela retribuía seus olhares e em menos de 1 minuto, os dois estavam entrelaçados por línguas e mãos. A menina tinha sede por sexo. Deixou que os dedos de Paulo percorressem seu corpo de academia por espaços nunca antes desbravados por qualquer homem – nem mesmo por aqueles da sexta e do sexo passados. Isabella misturava sensações e bebidas como se misturam letras ao escrever um texto. Eu observava os dois, como se fosse possível estar em vários lugares ao mesmo tempo. Paulo queria mais e Isabella começava a achar que já era demais. Maldita hora em que sua prima resolveu comemorar o aniversário naquele bar do Aterro do Bacanga.

O cansaço tomava conta de seu corpo. Isabella havia bebido demais durante a noite inteira e tudo o que queria era uma cama pra relaxar, de preferência em um quarto onde o ar-condicionado marcasse 17ºC. Chamou a prima, que a essa altura já estava apaixonada por um cara do Coroadinho, e ordenou, cambaleando, que fossem embora. Paulo Roberto e Renata giraram a roleta e saíram da casa noturna à 1h16. Paulo prometeu levá-la a um lugar inesquecível e ela já sabia o quanto motéis eram inesquecíveis. Andou pelas ruas de pedra e chegou ao estacionamento da Praia Grande onde seu carro estava. Já tinha carteira, mas não tinha juízo. A moça se alegrou quando viu aquela Hilux e ficou um pouco mais excitada. O que o dinheiro não faz, né?

1h16. A prima de Isabella pediu uma água e um tempo para se despedir do rapaz. Trocaram telefones e se beijaram por mais alguns minutos. 1h28. Paulo Roberto ligou o carro e saiu em disparada sentido Areinha. Isabella e a prima atravessaram o Aterro na intenção de pegar um táxi em uma fila de carros do outro lado da avenida. Maldita escolha. Poderiam ter pedido outra água, ouvido mais uma música, a prima da garota poderia ter dado mais um beijo, Isabella descansar sentada em uma mesa, mas não. 1h30. Paulo Roberto piscou e forçou os olhos sucessivamente a fim de se manter acordado e sequer percebeu a aproximação de duas pessoas quando passava em frente ao Aterro do Bacanga.

Atropelamento com vítimas, carro amassado, curiosos e um rapaz atormentado. Sangue sobre a avenida e álcool no sangue. Dos dois, dos três, dos quatro. Quatro infelizes que estavam apenas se divertindo. A prima de Isabella já não respirava quando a primeira ambulância chegou. Morreu comemorando o aniversário. Cumpriu sua sentença. Paulo Roberto, atordoado que estava, não quis envolver Renata na história. Pagou um táxi para a garota, o mesmo que Isabella pegaria, e a fez sumir. Era como se todo o sono acumulado tivesse ido embora ao ver aquela bela morena quase desfalecida no chão. Ligou para os pais, ouviu esporros e esperou que viessem madrugada adentro.

Isabella estava mal. Com os olhos abertos, olhava a lua, clara e cheia como deveria estar. Sentia as piores dores e só pensava nos pais, pobres miseráveis que, provavelmente, só saberiam de toda a desgraça na manhã seguinte. Foi quando o olhar bucólico de alguém a acertou. Paulo Roberto, em um misto de tristeza e pena, admirava a garota e repetia insistentemente a palavra “desculpa”. Isa queria dizer alguma coisa, mas se limitou a gemer de dor. Polícia, ambulância, a prima morta. Tudo tão rápido feito a cadência de seus sonhos. Não sabia do futuro. Não sabia se iria pra UPA do Itaqui-Bacanga, pro Hospital Geral ou pro Socorrão. Estava entregue ao acaso.

Os pais de Paulo Roberto chegaram e pediram que a ambulância seguisse para o hospital particular mais próximo do local do acidente. Arcariam com as despesas e consequências. Paulo, preso, seguiu para a delegacia. Prestou depoimento, pagou fiança e foi imediatamente ver a moça acidentada. A morena havia quebrado a perna e fraturado uns dos braços. Naquele momento, Paulo pensou em mudar. Pensou em ser mais responsável, mais estudioso, menos displicente. Era como se tivesse tomado um choque de realidade ao ver aquela moça, inocente e desconhecida, sofrendo.

Isabella sofria por ele sem ao menos saber disso. Seria sua redenção, de todas as formas possíveis. Ao acordar e ver os pais chorando no quarto daquele hospital, só pensava em seus sonhos. A família de Paulo pediu desculpas à família de Isabella e prometeu dar uma ajuda para cobrir os custos com remédios além do pagamento da conta do hospital. A mãe da garota disse que não aceitaria, que dinheiro nenhum traria a vida da sobrinha de volta e praguejou contra o irresponsável do Paulo Roberto. Isabella pedia calma e uma conversa com o rapaz.

De cabeça baixa, Paulo Roberto entrou no quarto branco e pediu as mesmas desculpas de horas antes. Isabella perguntou o que havia acontecido e ele tentou explicar, omitindo a intenção de ir ao motel com a loira, é claro. A garota contou que tinha ido comemorar o aniversário da prima, bebeu demais e o resto vocês já sabem. Ambos tinham bebido demais. Ambos tinham anseios demais. No final das contas, somos iguais quando estamos unidos por sonhos iguais. Paulo Roberto entendeu que responsabilidade não tem nada a ver com ficar trancado em casa em uma sexta à noite assistindo ao Globo Repórter. Isabella, por sua vez, a cada nova conversa com o amigo atropelador, descobria partes de São Luís que ela jamais pensara existir. A única cabana do sol que conhecia era o guarda-sol de praia que seu pai tinha ganhado de uns patrões antigos para cobrir uma parte do telhado quando ainda chovia demais.

Paulo Roberto e Isabella são a síntese de coisas que acontecem todo dia nessa cidade quatrocentona. Gente diferente que se esbarra nos coletivos, nas festas, no trabalho ou na rua mesmo. Amanhã, quando você sair de casa, pense nos outros como pessoas capazes de acrescentar conteúdo em sua vida. Não espere que algo ruim aconteça para dar a devida importância em quem está ao seu redor. Não moramos em uma porção de terra cercada por água de todos os lados. Moramos em uma porção de terra cercada por gente de todos os lados. Não naufrague no Rio Anil como Paulo Roberto provavelmente faria se continuasse com seus velhos hábitos. A história dos dois fica em aberto, como a minha, como a sua. Final feliz? Me atrevo a dizer que bebem vez ou outra. Doses de amor.

domingo, 25 de março de 2012

Contos de Whisky VII

Manhã de sexta. Juliana abre a janela do quarto e contempla a paisagem da ilha rebelde do alto de seu apartamento. Refém de uma malemolência digna dos malandros cariocas, a menina esfrega bem os olhos e sussurra para si mesma que aquele seria o dia. Morando sozinha há pouco mais de um mês após uma discussão com os pais, a garota de 20 anos finalmente percebe que agora sim a vida valeria a pena. Solitária, companheira apenas de seus livros e ressentimentos, estando exatamente onde queria estar, com planos fadados a erros insolúveis.

Estava solteira há quase 1 ano e os únicos relacionamentos que tivera nesse ínterim foram uma mistura de inexplicáveis e insaciáveis desilusões. Sexo displicente, vingança, beijos em desconhecidos, vida inexata. Durante esse tempo de contradições, conhecera Vinícius, um rapaz calmo, solícito e interessante, como ela mesma o descrevia para as amigas mais próximas. Mais novo, tinha tudo o que ela acreditava ser capaz de fazê-la feliz naquele momento. Adorava cinema, leitura noturna e achava sua voz engraçada. Ele seria diferente de seu último namorado, que a largara pra jogar futebol no sul do país.

Mas nunca Juliana sabia se Vinícius estava interessado nela. O rapaz sempre contava sobre seus antigos relacionamentos, falava com carinho das garotas com quem ficava e até jogava algumas indiretas, mas nenhum sinal fixo de que poderia rolar alguma coisa. Certo dia, ao se encontrarem na biblioteca da faculdade, Juliana sentiu que queria beijar Vinícius, mas o garoto não esboçou movimento nenhum para que isso acontecesse. Ela quis matá-lo. De amor, mais uma vez.

De alguma forma, Juliana pressentia que Vinícius estaria no mesmo lugar que ela naquela noite. Música alta, gente bêbada e a chance perfeita para ficar com ele. Um homem não resiste a um flerte na balada, pensou. Sua malandragem estava escancarada naquele vestido curto. O ímpeto representado pelo salto alto e a máscara que somente a maquiagem pode oferecer faziam de Juliana a  mulher mais decidida de toda a festa. Ao chegar, tratou logo de beber um ou dois drinks e criar coragem para qualquer coisa. Ouviu dezenas de cantadas, inclusive uma minha, mas manteve-se focada em seu objetivo.

Vinícius apareceu e sumiu rapidamente. Juliana não queria parecer vulgar, atirada ou mesmo bêbada para o rapaz, por isso toda vez que o via esperava que ele a chamasse pra dançar, o que não aconteceu. Cansada de tudo e de todos, pegou a única arma em punho naquele momento: seu celular. Com mais álcool no sangue, enviou uma mensagem desencontrada para seu intento, que logo apareceu em meio a luzes e batidas repetidas. Juliana disse tudo o que queria e sentia, como já planejara desde cedo. O problema é que as palavras dela soavam como “coisa de menina bêbada” e não como “coisa de menina apaixonada”. Vinícius permaneceu calmo e preocupado se ela chegaria bem em casa. Nenhuma reação, mesmo após ouvir Juliana dizer que não sabia exatamente o porquê, mas que queria beijá-lo ali, já, naquele instante.

Em casa, Juliana, ainda bêbada, resolveu encerrar o assunto através de outra mensagem dizendo que era só aquilo, não tinha mais jeito, acabara. Boa sorte. Vinícius não respondeu, não atendeu as chamadas da garota, sequer explicou porque tinha tanto prazer em desprezá-la. Outro dia, vi o garoto saindo de uma lanchonete abraçado a outro garoto. Os dois pareciam felizes, coisa de pele mesmo. Juliana continua cheia de coisas pra fazer, gente pra conhecer e novos Vinícius pra amar. Mas ela tem preguiça - inclusive de dizer que não era bem aquilo que queria expressar na derradeira mensagem. Vive um dia de cada vez, agarrada à esperança de daqui a um tempo entender por que aquele rapaz é assim. Tão distante e, ao mesmo tempo, tão eterno.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tribunal do ex-amor

Já pensou se todas se reunissem para falar de mim? Um salão circular preenchido por cadeiras confortáveis, um tribunal onde eu seria acusado pelo crime que vivo cometendo: ser eu mesmo. Todas as ex-namoradas, ficantes, paixonites e afins juntas, debatendo meus prós e contras, meus erros e acertos. A paixão da 2ª série sentada ao lado da atual dona dos meus pensamentos soturnos e noturnos. A esquisita frente a frente com a mais cheirosa. A inesquecível trocando telefone com a mais efêmera.

De fato, seria curioso. A primeira namorada se aproximaria do púlpito localizado no centro da sala e abriria o verbo contando como nos conhecemos e como nos desconhecemos. Falaria das noites, dos beijos e do meu descontentamento com suas alegrias. Pertinentemente, começaria a lembrar de que até poderíamos ter ido mais longe, mas voltaria a me odiar porque só tivemos 1 semana para terminar o que nem começamos direito. E eu sem direito de me defender.

Todas falariam das mensagens de texto no celular. Palavras carinhosas (parte I), carinhosas (parte II) e sumiço temporário que durava um bom tempo. Ou mais. Nesse intervalo, discutiriam por que sou assim. Diriam que é o cansaço, preguiça, displicência, impaciência e inúmeros motivos tortos. Diriam também que no começo é tudo maravilhoso, mas que no fim eu simplesmente deixava pra lá. Reclamariam que os apelidos fofos só apareciam depois das brigas e até que as próprias mensagens só surgiriam de novo após as brigas. Algumas mais radicais e recentes informariam sobre a mania cruel de mensagens de madrugada carregadas de teor alcoólico. Tendência unânime: todas elas adoravam receber as mensagens, mesmo as forçadas.

Algumas falariam pouco, outras elogiariam, mas sempre com uma queixa a fazer. Saídas que não aconteceram, beijos que não rolaram ou que ocorreram tarde demais, verdades inescapáveis, terríveis acessos de fúria em salas de cinema, coisas. Ninguém sairia satisfeito até dizer o que havia entalado na garganta para alguém que também tinha algo a dizer. No entanto, ao ouvirem o barulho e afirmações fortes que cada uma fazia, perceberiam uma coisa: eu tinha sido melhor para as sucessoras. A número 1 serviu de teste e aperfeiçoamento para a relação com a número 2 e assim por diante. Nenhuma tinha uma reclamação exatamente igual. “As pessoas mudam”, diria alguma das presentes que pensasse nisso.

Nenhuma foi tratada pelo mesmo adjetivo da outra, sempre houve reinvenção. Nenhuma conheceu os mesmos defeitos que a antecessora conheceu. Ou eles ficaram mais evidentes ou se perderam no tempo. Por fim, todas admirariam o cuidado que tive para não enxergar as mesmas pessoas em corpos diferentes. Algumas derramariam uma lágrima por ainda estarem procurando alguém como eu, outras simplesmente sairiam do local reconhecendo minha inocência e as mais orgulhosas e céticas ainda iriam querer mais debate e discussão.

Neste dia, iriam para a casa com a única certeza sobre os humanos que existe: ninguém é igual. Nem mesmo a mesma pessoa é exatamente igual aos 13 e aos 20 anos. Sofreriam por saber que eu segui em frente e seguiriam em frente ao saber que eu também sofri para chegar aqui. Um tribunal sem sentença, onde a única juíza é a vida e onde o único réu é você mesmo.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Boas festas...

Viviam às turras. O Marido, cansado, chega em casa, desabotoa o palitó, deixa o sapato pela sala e pega rapidamente o controle remoto a fim de não perder os minutos finais do jogo de quarta. A Esposa, que a essa altura já brigou com o Filho adolescente por causa do barulho da guitarra, ensaia mais uma discussão, agora com aquele que outrora fora o destinatário de seu ‘felizes para sempre’. O Marido retruca dizendo que está cansado, o que se comprova pela sexta palavra deste conto infeliz. A queixa faz lembrar a casa ao lado, onde a mesma cena se repetiu noite passada. Agora são as opções de comida que desagradam os ex-noivos. O Filho continua tocando Nirvana com notas erradas. Isso acontece, religiosamente, todo santo dia.

24 de Dezembro. O Marido beija a Esposa e exala o perfume novo que ganhou da prometida como se não houvesse amanhã. O Filho de 16 anos veste uma roupa nova que ganhou da mãe protetora e passeia pela casa com a 18ª Namorada. Comida não é problema. Na mesa posta, várias opções para um jantar que só pode ser servido à meia-noite, preparado especialmente pela mulher que mais gosta de cozinhar nesse mundo: a Esposa. Os Tios chegam trazendo os Avós, meio desconsertados pela idade avançada, mas cheios de histórias. A Prima começa a flertar com o Filho e a Namorada do Filho imagina uma cena de ciúme explícito, mas se contém, afinal é noite de Natal. A felicidade reina e a falsidade também.

Intervalo entre 25 e 30 de Dezembro: favor ler o primeiro parágrafo (com exceção do futebol, que, nessa época, é substituído por comédias duvidosas).

31 de Dezembro. O Marido traz uma caixa de fogos de artifício e promete “passar a virada” tocando foguetes, o que não faz desde os 12 anos de idade porque queimou a mão acidentalmente. A Esposa liga para as amigas e procura uma festa animada, de preferência com comida pronta e boa música, para fazer o Marido desistir da ideia boba. O Filho passeia pela casa com a 19ª Namorada (leia-se: a Prima). Todo mundo resolve, em uma conversa pacífica, passar o “Ano Novo” na praia. O Marido põe a bermuda branca que ganhou no amigo invisível da empresa, a Esposa coloca o vestido que mandou fazer na costureira e o Filho continua beijando a Prima, pouco se importando com o que usar.

1º de Janeiro. Um trânsito infernal na hora de voltar da praia. A Esposa passa mal graças a um marisco que comeu horas antes por lá. O Marido, depois de umas 5 cervejas, começa a dizer que avisou para ela não comer “porcaria” e que deveriam ter ficado em casa iluminando o céu do bairro com os tais fogos. Os dois brigam. O Filho e a Prima encontram uns amigos e se drogam na areia. Já é quase de manhã. Aparentemente, tudo voltou ao normal. Com gosto de Ano Novo, com jeito de vida velha...

Tenho me perguntado isso todos os dias...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Jogo de estranhos

Se apaixonou pela garota do prédio ao lado, mesmo sem grandes atribuições. Não era bonita o suficiente pra estampar as páginas centrais de uma grande revista de moda nem preenchia outdoors de escolas particulares da cidade. Tinha cabelo curto, piercing no nariz, tatuagem no pulso e no pescoço e falava apressadamente. Deveria citar 1003 palavras em apenas 1 minuto. Seu sorriso completava todos os comerciais de creme dental já vistos na televisão. Era culta. Lia Bukowski, Franz Kafka e Machado de Assis só pra nacionalizar a coisa. Era oculta. Pouco se sabia sobre como viera parar ali ou para onde iria.

Não aguentou e decidiu segui-la, aproveitando que precisava sair. Girou as chaves e procurou velocidade em seu sonho de romance. Ela seguia devagar, discreta, sem pressa, totalmente diferente de quando falava ao telefone, provavelmente com as amigas, pois sempre dizia nomes e cores de esmaltes indecifráveis e inteligíveis para qualquer mente masculina. Ia pela estrada sempre seguindo a mesma faixa, que parecia contínua tal qual sua vontade de afastar-se dele. Já passava das 5. Da tarde. Ele dirigia apressadamente. Deveria atingir 1003 quilômetros em apenas 1 minuto. Pareciam estar indo para o mesmo lugar. Voltemos à realidade.

Descia do carro com seu vestido floral, sapatilha cor de pele, bolsa preta, maquiagem leve e toda a alegria de quase adulta. Mexia no cabelo repetidas vezes e tinha uma mistura compassada de pinturas em seus fios delineados. Só bebia água em seu próprio copo. Queria namorar um homem mais velho, mas já sonhara em ser paixão de um padre. Não aturava mentiras nem ficante metido a rei da balada. Era estudiosa. Apresentava teses e antíteses completadas em uma síntese de vermelhidão tranquila em seu rosto de princesa. Aliás, de deusa. Quando exagerava no álcool, falava inglês, francês, russo. Só queria ser feliz.

Foi quando viu aquele jovem, perdido no primeiro andar da universidade, prestes a adentrar na mesma sala em que passariam os próximos 5 anos juntos. Não fez planos, não dizimou oportunidades, apenas perguntou seu nome. E descobriu que eram vizinhos e que poderiam apostar corrida todas as noites até que um cansasse da disputa e aceitasse parar, respirar e seguir em frente. No prédio ao lado. Eram vizinhos. Contadores de histórias. Sonhador e sonhadora de algo bom. Disso que se chama vida...


domingo, 10 de julho de 2011

A dois passos do paraíso

1983. Miracema do Norte, fim de tarde. Maria Augusta voltava da casa de seus pais quando fora surpreendida por um caminhão, desses de faróis baixos e para-choques duros. Pensou ser sequestro, tentativa de homicídio, estupro. Ficou com medo e danou-se a gritar. Arlindo Orlando, um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade, desceu do veículo e pôs-se a explicar sua parada. O caminhão tinha pouco combustível, já estava escurecendo e ele queria descansar. Não era de seu feitio assustar as pessoas, principalmente uma moça linda como aquela, disse o rapaz.

Maria Augusta procurou se acalmar. Entraram em um bar à beira da estrada, pediram alguns comes e bebes e passaram a noite conversando, ouvindo a Radio Atividade. Tinham milhares de coisas em comum, inclusive o fato de estarem solteiros. Uma pousada, ao lado do bar, era, agora, o refúgio dos dois. Tiveram uma noite inesquecível, coisa de novela, com direito a juras de amor e pedido de casamento. Augusta questionou o fato de ele estar sempre viajando, ao passo que Orlando dizia não haver problema. Ele largaria tudo para viver com ela.

Amanheceu e ambos tiveram que partir. Comunicavam-se constantemente. Ele a viajar e ela a sonhar com seu destino, preparando cada detalhe do casamento. A data marcada chegara e nada poderia dar errado. Igreja lotada, convidados esperando pacientemente, uma noiva em prantos. Arlindo Orlando fugiu, desapareceu, escafedeu-se. O burburinho era uníssono. Noivo maldito, coitada da noiva, mentiroso, ingênua. Aquele seria o dia do dia mais feliz de sua vida e agora era apenas maquiagem borrada.

O que havia acontecido? Por que Arlindo Orlando sumiu? Por que não atendia mais o telefone? Maria Augusta resolveu arriscar descobrir o porquê. Pegou papel e caneta e mesmo aos prantos pôs-se a escrever. Assinava com o singelo pseudônimo de “Mariposa Apaixonada de Guadalupe”, utilizando as iniciais de seu nome para compor as novas palavras. Lembrara  ter ouvido na Rádio Atividade uma série sentimental chamada “Dedique uma canção a quem você ama”. Escolhera ouvir qualquer música de uma tal banda Blitz que estourava na época.

Ao ler aquela carta, o locutor fez um pedido mais que especial: “Onde quer que você esteja, volte para o seio de sua amada”. Do outro lado, Arlindo Orlando, atravessando o estado de Goiás, pensava em voltar. Pensava em largar tudo e aparecer, no mesmo caminhão de para-choque duro, farol baixo, chamando por sua Mariposa. Mas tudo era só aventura. Coisa de caminhoneiro perdido, que pensava estar a dois passos do paraíso.

*Texto escrito a partir da música "A Dois Passos do Paraíso", da banda Blitz, que, inclusive, teve sua verdadeira história revelada no curta-metragem abaixo. Pra quem gosta de filmes e tem curiosidade acerca da origem da canção, uma ótima pedida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sabedoria de um escritor

Eu sei que você me lê. Eu sei que ainda compra meus livros escondida e diz por aí que são só uma fonte boba para sua pesquisa de mestrado. Eu sei de tanta coisa e não sei de quase nada. Não sei se me ver no ônibus carregando uma pasta preta te dá agonia ou pena. São somente edições de uma história que eu não queria contar, mas que acabei sendo obrigado pela vida a fazer. Sei também que eu poderia ter sido mais. Mais humano, mais digno, mais interessado, mais eu mesmo. Poderia ter sido menos também. Menos mandão, mal-humorado, menos afastado ou ciumento. Só não entendo por que ainda se esconde. Por que vira a cara toda vez que me vê, por que aparece em meus visitantes recentes no mundo virtual, por que resolveu ser assim. Machuca não ter você como fã. Machuca não saber se minhas vírgulas estão bem posicionadas, se meus adjetivos estão bem expressivos ou se meus pontos estão realmente pontuando alguma coisa. Machuca não ter você, sabe?! Não, não sabe. Não sabes de nada o que passa por aqui, pobre cristã. Não sabe se estou gordo, magro, calvo, velho, bonito ou feio. Só sabes que virei escritor. Um escritor bobo, desses que vira cada esquina procurando inspiração. Desses que ainda guarda um amor antigo na palma de sua mão. E que só pede uma coisa: que saibas - e entenda - que não te esqueci.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Não se morre de amor

Ando melhorzinho, mas ainda não livrei-me do dia do suicídio. Foi demais pra mim. Ver-te caída na sala de estar, olhos estáticos, sorriso forçado, dor. Não dava pra fazer mais nada. Só lembrava-me da carta. Maldita carta. Por que ele haveria de escrever-te dias antes uma carta? Poderia ser um e-mail, uma mensagem de texto. Tempos modernos, sacana. Morreu de amor ou do que dizia ser amor por ti, triste donzela. E você, boba, ingênua e infeliz, acreditou. Um homem não morre de amores assim. A morte é por dentro, tal qual a vida de uma árvore, que deixa a seiva acabar-se antes de cair suas folhas. Se morre aos poucos, de leve, primeiro às 4, depois às 10 da manhã. Ao meio-dia a dor é grande, mas pode-se resistir. Quando a tarde chega, já é hora de recomeçar. Deixar o sossego invadir e o pranto calar. À noite, tudo volta ao normal e fica-se esperando mais uma morte na madrugada seguinte. Morrer de amor é ressuscitar para amar, não suicidar-se da vida. Mais uma vez te enganou. Tal qual fez quando te levou pra cama, tirou tua roupa e rompeu tua inocência. Ah, Inocência. Morreu cedo demais. Antes mesmo que eu confessasse te amar. Morre aqui um sentimento, coisa que nem mesmo o tempo será capaz de matar.

domingo, 10 de abril de 2011

Corra, vida. Corra!

Corra, querido. Eu sinto muito, mas não posso alcançá-lo. Não posso alcançar seu desejo, tampouco negar o que sinto. Corra, querido, antes que seja tarde demais. Saia de perto do fogo. Lembre-se: eu não prometi queimar você. Respeite a minha linha amarela, o meu sinal vermelho. Escolha o seu caminho, longe de mim, longe da sua melhor ambrosia, do melhor mel daquela abelha que picou você em nosso primeiro encontro. Corra em direção ao vento, saia debaixo da chuva. Entenda que tempestades vêm e vão. Elas vêm e vão. E eu também sou assim. Feito também, mas com uma diferença: eu não aviso que estou pra cair. Eu venho caindo há muito tempo. Cada pingo, cada gota de chuva é como se fosse um aviso. Um aviso pra você correr. O mais rápido que puder. Pra perto de mim.

*Postado originalmente no blog Baladas de Calçada, um projeto paralelo que, ainda, não deu muito certo.

sábado, 12 de março de 2011

Fim do mundo

Acordava, religiosamente, às 5 da manhã. Nem um minuto a mais ou a menos. Deixava terminar a música que ecoava do rádio, levantava da cama e escovava os dentes. Olhava para o céu, como se planejasse o que iria fazer no dia e suspirava 3 vezes, como se fosse cansaço, desejo e realização. Não tinha família. Morava só, em uma casa apertada, onde tudo era bagunçado. O único lugar do recinto em que não existia sujeira era o escritório, apelidado carinhosamente por ele de Bishop, um super-herói mutante dos X-Men.

Em Bishop tudo poderia acontecer. Histórias surgiam feito passe de mágica. Tempestades, navios de guerra, terremotos, tsunamis, paixões devastadores, glórias... Tudo era escrito, passado para o papel, carimbado e enviado. Japão, Grécia, Indonésia, Filipinas, Austrália, Costa Rica... Cada país do mundo recebia, pelo menos, 2 avisos de premonições por ano. Algumas muito estranhas, quase impossíveis de acontecer, outras muito prováveis. A margem de erro era a mínima possível.

Quase tudo o que o dono do Bishop previu tornou-se realidade. Furacão Katrina, eleição de Barack Obama nos EUA, Saddam Hussein escondido em um buraco, mineiros presos no Chile, terremoto no Haiti, tsunami no Japão. Escrevia cartas premonitórias como se não houvesse amanhã. Até o dia em que descobriu que não haveria amanhã. Era o fim do mundo, o fim de um ciclo.

Enviou cartas a todos os países, inclusive aos que iriam nascer até a chegada do fim. Enumerou medidas preventivas, sugeriu construções de emergência, delegou funções aos cidadãos. Tornou-se mundialmente conhecido. Documentários, reportagens e filmes usaram e abusaram de seu dom, provando cada vez mais sua credibilidade. Não demorou muito para que seus pais aparecessem e protagonizassem uma das cenas mais bonitas que o mundo já houvera televisionado.

Os dias se passavam. A preocupação era iminente e as pessoas apavoradas desfaziam planos, despediam-se de seus parentes e corriam para abrigos do governo, onde a proteção era, diziam, de 100%. Perguntado se iria proteger-se, o dono do Bishop disse que não. Se tivesse que acontecer, se essa fosse a vontade de um ser supremo e se ele tivesse que morrer, morreria em paz.

A hora marcada chegou. Meios de comunicação do mundo inteiro estavam apreensivos, pessoas recorriam ao suicídio na tentativa de evitar o sofrimento, outros morreram de medo. Nada aconteceu. Em casa, morreu ao receber uma carta. A primeira carta que havia escrito, há muito tempo, tanto que nem lembrava mais. Nela, algumas palavras que representavam muito bem aquele momento: “Cuidado com o fim. Nem sempre o que esperamos é o que realmente acontece.”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vivendo ciclos

E saiu dali com os olhos cheios d’água.

Era agora desprezada pela única pessoa que confiava, o único afeto que tinha no mundo, a única boa lembrança de tempos difíceis. Quem seria agora aquela garota além de nada? Quem a levaria pra casa nas noites de terça-feira, quando o que mais queria era uma cama depois de um longo e cansativo dia de trabalho? Quem era aquela garota? Quem era aquele garoto?

Aquele garoto sensível, bonito e inteligente. Aquele cara digno de orgulho e compreensão. Por que fizera isso com ela? O que passou na cabeça dele ao fazer aquilo? Quem seriam os dois, além de nada?

Ela sabe que ciclos existem, mas nunca quis acreditar que esse chegaria ao fim. Ele entendeu tudo errado quando ela disse “I Want To Break Free” imitando os passos do clipe do Queen. Talvez já não gostasse dela como deveria. Ou talvez não.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Inimizade colorida

Nunca foram amigas. Sempre falavam mal uma da outra, fosse por causa do novo namorado, da calça extremamente colada em pleno ambiente escolar ou da popularidade que uma tinha e a outra não. Nunca confessaram segredos, nunca espalharam boatos, nunca saíram juntas à noite. Nunca brincaram de amarelinha, rouba-bandeira ou pique-esconde. Jamais se ligaram pra saber se uma iria à festa, se sairia da escola ou se sentiria sua falta durante as férias. De jeito nenhum se falavam. Até o fatídico dia em que uma resolveu terminar o namoro com o carinha mais cobiçado do colégio, viajar pra Londres e ir morar com a outra - aquela mesma, que dizia que nunca se apaixonaria por uma menina.