terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vou de táxi

Vida de taxista deve ser dureza. Conhecer centenas de pessoas e não manter vínculo com nenhuma delas mais parece coisa de rede social em decadência. Pois bem, vida de taxista é um grande Orkut ambulante. Você xereta a vida de todo mundo, sabe dos problemas, das angústias, observa os mais diversos comentários sobre a última festa e quase nunca dá pitaco. Só o faz com os mais chegados: aqueles que têm seu cartãozinho.

Sempre fui amigão dos taxistas. Confesso que gosto de puxar papo de vez em quando com essa turma, falando do trânsito cada vez mais caótico ou da chuva torrencial que caiu na noite passada. A minha última foi adicionar um deles aos meus profiles de relacionamento. Faço parte da parcela de gente que não vê nenhum problema em dividir opiniões com desconhecidos e que pensa que aprendizado de verdade advém mesmo é das experiências alheias.

Mas não me peça indicação de profissionais desse ramo. Eu sempre fico com o cartão daquele cara legal, mas nunca ligo quando preciso. Tem muita gente que tem seu taxista camarada, que sempre o leva pra casa depois da bebedeira de sábado ou depois daquela bolinha no domingo. Eu, infelizmente, ainda não arranjei um. Quem sabe depois dessa reflexão eu não possa pegar o contato de alguém que realmente vá me levar pra casa sempre que eu precisar? Só que antes eu preciso dividir com vocês minha angústia. Afinal, onde é que vende um dicionário com as expressões mais usadas pelos taxistas? O que diabos significa QSL, QAP, QRS?

Pra começar, não tem nada a ver com os táxis em si. Essas expressões são usadas por radioamadores, ou seja, controladores de uma estação de comunicação que estabelecem contato usando expressões de fácil entendimento para seus receptores. Além de ser um hobby – era muito usado antigamente como bate-papo –, o radioamadorismo deu origem a um dos meios de comunicação mais eficientes que temos hoje, a internet, e foi fundamental na criação de redes de telefonia móvel e do sistema de radares.

Mas e seus códigos? Chamadas de gírias dos radioamadores, essas expressões ficaram conhecidas em competições automobilísticas e em sistemas de comunicação da polícia e corpo de bombeiros por todo o mundo, além de servirem para estabelecer contato entre taxistas e suas respectivas centrais de comando. QRA, por exemplo, quer dizer “nome da estação”; QRL significa “estou ocupado, não interfira”; QRP: “diminuir sua potência”; QRT: “vou parar de transmitir”; QAP: “permaneça na escuta”; QSL: “entendido, confirmado” e QRS: “manipule mais devagar”. Para mais expressões, clique aqui.

Agora já dá pra entrar em um desses veículos e entender o que o taxista está dizendo pra mulher que atendeu nossa ligação minutos antes. Ela só quer saber se ele está ocupado, se entendeu o que ela disse ou se pode, encarecidamente, diminuir sua potência. O fato é que a classe taxista deve ser bem valorizada, porque além de trazer enormes benefícios a uma população onde cerca de 45% de seus habitantes andam de ônibus, também corre sérios riscos no que diz respeito a sua segurança. Aliás, não custa nada sair do táxi e dizer KS para o motorista. Ela vai entender que aquilo significa “obrigado” e não uma referência a um modelo de moto japonesa.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Inimizade colorida

Nunca foram amigas. Sempre falavam mal uma da outra, fosse por causa do novo namorado, da calça extremamente colada em pleno ambiente escolar ou da popularidade que uma tinha e a outra não. Nunca confessaram segredos, nunca espalharam boatos, nunca saíram juntas à noite. Nunca brincaram de amarelinha, rouba-bandeira ou pique-esconde. Jamais se ligaram pra saber se uma iria à festa, se sairia da escola ou se sentiria sua falta durante as férias. De jeito nenhum se falavam. Até o fatídico dia em que uma resolveu terminar o namoro com o carinha mais cobiçado do colégio, viajar pra Londres e ir morar com a outra - aquela mesma, que dizia que nunca se apaixonaria por uma menina.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Métodos Marckosianos (5)

Eu fui tanta coisa em 2010. Filho, namorado, amigo, “tio”, escritor, leitor, ouvinte, estudante, viajante, apaixonado, atento, observador, paciente, impaciente, ansioso, sonhador, apaziguador, criador, cidadão, trabalhador, pensador, criança, adulto, adolescente, benevolente, esperto, carinhoso, zangado, firme, otimista, pessimista, realista, questionador, orgulhoso, fã, ídolo, medroso, corajoso. Eu fui além de mim.

Conheci pessoas maravilhosas e cultivei as amizades certas, na hora certa. Algumas deixei pra trás, por entender que não poderiam somar mais nada pra mim. Outras adaptei ao meu novo estilo de vida, dando a devida atenção que sempre mereceram. Surpreendi-me com a maneira como novos amigos surgiram e como mesmo eles, tão novos em minha vida, foram tão fundamentais nos momentos difíceis. Guardei segredos, fiz confissões, desabafos, ouvi zilhões de conselhos. Cresci.

Dei amor a todos. Namorada, mãe, amigos, conhecidos, desconhecidos, do mais simples morador de rua a mais sofisticada empresária do ramo de roupas. Soube reconhecer meus erros, livrar-me de alguns defeitos, amadurecer enquanto pessoa... Eu sorri. Fiz muita gente sorrir, dei abraços, beijos, condolências, pêsames, felicitações, parabéns. Fui apenas eu mesmo, mesmo que isso despertasse algum incômodo em alguém.

Livrei-me de muitos fantasmas. Errei bastante, mas soube consertar a maioria desses erros a tempo. Trabalhei, namorei, comprei algumas muitas coisas, passei dos meus limites. Ganhei apelidos, fiz planos, concretizei a maioria desses planos, fiz mais planos. Assisti dezenas de filmes, ouvi uma porção de músicas, li um bocado de coisas, aprendi outro bocado de coisas. Conheci lugares maravilhosos. Vesti terno e gravata. Saí de minha terra natal. Andei de trem, tirei fotos, escrevi poemas, tive ideias mirabolantes, vivi momentos inesquecíveis.

Mas confesso que ainda preciso mudar muito, retirar doses gigantes de defeitos em mim. Controlar alguns hábitos, refazer algumas rotinas, perder alguns vários medos. Ir além do que posso ser capaz. Colher frutos de uma mudança necessária e que essa colheita seja percebida, antes de tudo, por mim mesmo. Eu preciso crescer! Como pessoa, amigo, filho, namorado, estudante...

Desejo que em 2011 eu possa olhar pra trás e poder repetir cada gesto, cada atitude, cada momento e transformar esse novo ano em outro 2010, com mais responsabilidades, sonhos, virtudes e realizações. Conhecer mais gente, dividir minhas aspirações com eles e poder realizá-las, nas horas e momentos ideais. E dizer, mais uma vez, que eu fui tanta coisa nesse novo ano, mas principalmente, que eu fui feliz!


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Top 10 - Músicas Animadas

Fim de ano chegando e sempre aquelas mesmas músicas ecoando pelos supermercados, lojas de departamento e centros comerciais do país. Pra você que já está cansado de tanto ouvir harpas, Simone e Ivan Lins cantando por todo lugar, o Senhor do Tempo preparou uma lista de músicas animadinhas pra essa época festiva. Prontos para o play?

1. Magic – B.o.B feat. Rivers Cuomo
O tipo de música perfeita pra ouvir no carro enquanto você se desloca às compras. Animadinha, dá pra tirar o stress dos congestionamentos das grandes cidades, sem falar que é a cara daqueles momentos felizes de filmes americanos. Boa pedida pra quem curte as já conhecidas “Airplanes” e “Nothin’ On You” do rapper e produtor musical B.o.B.

2. Sink or Swink – Bad Lieutenant
Pra quem gosta de rock alternativo e quer um som novo pra animar suas festas de fim de ano, nada melhor do que conhecer essa banda herdeira da extinta New Order. Com um som envolvente e que muito lembra os anos 80, ela promete arrancar bons comentários de seus convidados. Vai por mim!

3. Was It Something I Said? – Brandon Flowers
Gosta do The Killers? Então que tal conhecer a carreira solo de Brandon Flowers, vocalista da banda? Em seu mais novo cd, Flamingo (Mercury Music, 2010), um som bem parecido com o da já conhecida banda de rock pode ser ouvido em todas as faixas. A mais animadinha acaba sendo a citada acima, mas vale a pena ouvir todo o cd na noite de Natal ou Réveillon.

4. Who Says You Can't Go Home – Bon Jovi
Bon Jovi é o tipo de banda que sempre deve tocar em uma boa festa. Seja no momento mais romântico, no mais ‘porra loca’ ou na parte divertida em que todo mundo já está mais pra lá do que pra cá. “Who Says You Can’t Go Home” e seu ‘it’s alright’ consegue transmitir essa alegria e fazer todo mundo cantar, a qualquer hora e em qualquer lugar.

5. Girls Just Want to Have Fun – Cyndi Lauper
Quantas vezes eu não fui dormir na noite de Natal ouvindo Cyndi Lauper e sua “Girls Just Want to Have Fun” ecoando na casa da vizinha. Uma música que consegue expressar bem a alegria que era viver durante os anos 80, refletindo esse espírito de diversão até os dias de hoje. Boa pedida pra qualquer festa, seja de fim de ano ou não.

6. Learn To Fly – Foo Fighters
Que tal em suas resoluções de ano novo você incluir “aprender a voar”? O Foo Fighters e uma de suas músicas mais animadas prometem fazer você viajar ouvindo um som que todo bom fã da banda conhece e que todo mundo que ouve quer ouvir de novo. Dica esperta: o clipe, como boa parte dos da banda, é uma comédia!

7. Quando Um Homem Tem Uma Mangueira no Quintal – Vanessa da Mata
Quem disse que a música brasileira também não entra em nosso Top 10? “Quando Um Homem Tem Uma Mangueira no Quintal”, samba cantado por uma das mulheres mais talentosas da MPB, promete animar sua noite de final de ano, fazendo até sua avó de 80 anos remexer os quadris. Vale a pena ouvir mais da Vanessa da Mata. Muito mais!

8. Fireflies – Owl City
Alegre por sua simplicidade, sem falar nas batidinhas eletrônicas que tornam a música muito mais agradável. Assim pode-se definir “Fireflies” do Owl City, uma música que com certeza você já deve ter ouvido por aí. Perfeita pra ser tocada antes do fim da festa – nem que seja no outro dia de manhã.

9. Hey Ya – Outkast
Uma das músicas mais animadas que eu conheço. A dupla, formada por Andre 3000 e Antwan Patton e que anda sumida da mídia, fez sucesso em 2004 com esse hit que até hoje é considerado dançante e vibrante. Perfeita pra embalar qualquer festa, “Hey Ya” esbanja alegria e é, com certeza, a música ideal pra fazer qualquer pessoa dançar.

10. I Gotta Feeling – The Black Eyed Peas
Em 2009, minhas noites de sexta sempre eram embaladas por essa música. E aproveitando que as noites de Natal e Ano Novo desse ano também cairão em uma sexta-feira, que tal deixar “I Gotta Feeling” no player, chamar a galera e curtir esse som até o feriado raiar? Com certeza, além de boas músicas, sua festa vai ser inesquecível.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Mulheres e sapatos

Calçados ortopédicos eram a sensação aos 2 anos de idade. Ajeitar aqueles pezinhos tortos, fofos e desengonçados. A mãe andava feito louca pelas lojas infantis da cidade em busca do melhor modelo para sua pequena bebê. Chegava satisfeita, colocava na criança um vestidinho branco, uma meia rosa, o sapato recém-comprado e saía. Era seu troféu, sua preciosidade, frágil e linda.

Aos 10, só queria saber de botas. Não botas quaisquer; botas da moda. Calçados de sua personagem favorita da televisão. Uma bota cano longo, preta, com desenhos em relevo branco da boneca japonesa que invadia as casas de milhões de crianças todos os dias de manhã. Não era do gosto da mãe, mas fazia o gosto da filha. Satisfeita, a pré-adolescente ia ao cinema com as amigas mostrar a nova bota e tomar sorvete sem a mãe.

A debutante queria um salto que combinasse com aquele vestido rosa. Não podia ser um salto rosa – brega demais. Um prateado, algo de festa, que nenhuma amiga invejosa tivesse igual. A mãe saiu feito louca pelas lojas da cidade. Gostava de muitos, mas a filha de nenhum. O salto perfeito estava na loja mais cara do shopping e à mãe coube pagar. Para a garota, o cartão de crédito era um troféu, uma preciosidade, frágil e lindo.

Egressa de Direito, precisava de scarpins. Sapatos chiques, que demonstrassem seu poder perante a sociedade e naquela sala da faculdade particular. Jogou fora muitos saltos de festa, alguns deu pra mãe, outros doou pra filha da empregada. Conheceu seu futuro marido, que a presenteou com um lindo sapato chique. O papel de compradora de sapatos da mãe havia sido substituído.

Ficou grávida. A mãe viraria avó. A filha viraria mãe de uma linda menina. Em seu enxoval, a nova filha ganharia dezenas de coisas – vestidos, meias e, com certeza, sapatos. Sapatinhos fofos, ortopédicos, brancos... A nova mãe, vaidosa, não queria saber de andar por aí grávida e sem seus sapatos. O marido, dono de uma loja de sapatos, logo resolveu o problema. Deu um par de chinelos à esposa e disse:

- Ande, vá ser humilde. Pare de cobrir seus lindos pés com esse horror de sapatos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Vida de inseto

Escrevo coagido por essas tais formigas. Não, amigos; não são formigas quaisquer. São formigas mutantes. Isso mesmo: mutantes. Digo isso porque não sei de onde elas vieram, pra onde vão e por que têm asas. E pensar que até anteontem eu nem imaginava que estaria escrevendo um texto sobre esses insetos estranhos. E pior: rodeado por um bocado deles.

Mas deixe-me explicar. Tudo começou no domingo. Um dia normal se não fosse o fato de finalmente São Pedro ter percebido que São Luís precisava de chuva. Acordei às 11, almocei e fui ler. Um conto de Ítalo Calvino datado de 1952 que falava sobre o massacre que uma jovem família sofrera ao ter convivido com formigas-argentinas durante algum tempo. Sim, elas, as formigas, que mais tarde tanto me atormentariam e até renderiam tal crônica. Lá fora, o céu ia escurecendo e logo tratei de largar o livro e ir admirar aquele tempo nublado, já tão raro por aqui.

A chuva logo veio. E com ela alguns transtornos típicos da vida moderna, como goteiras em casa e alagamentos pela cidade. O temporal diminuiu, e então percebi que havia algo de errado com a televisão. Não, não era o sinal que havia ficado ruim graças ao dilúvio. Eram as formigas. Dominavam a tela como se fossem artistas de reality show, quase um Big Brother com anteninhas - e asas. Fiquei indignado. Precisava eliminá-las. Elas perturbavam. Peguei o jornal e tratei de espantá-las.

Muito esforço pra nada. A luz da sala estava apagada e o único sinal de iluminação vinha da TV. Pronto, havia descoberto qual o alimento desses seres. Criei até uma teoria para tentar adivinhar de onde vinham as tais bichinhas: de dentro da televisão, sempre quentinha. É lógico; agora, com o inverno, elas saem em busca de algo quente e a luz, com sua energia térmica, bem que poderia ajudar. Até hoje acredito em minha singela explicação. Biólogos, me ajudem, por gentileza.

Mais tarde, fui expulso do computador porque a cada formiga morta, devido a sua insistência em grudar na tela, vinha outra se vingar da companheira. E por mais que eu a matasse, mais forte ela ficava, levantando voo logo em seguida - mutante! Só me restou apagar todas as luzes e ir dormir, na tentativa esperançosa de que aquelas indivíduas me deixassem em paz e não entrassem em meu ouvido - como fizeram as formigas-argentinas com um personagem do conto de Calvino.

Infelizmente, elas voltaram. Agora estão por toda parte. Em menor número, mas por toda parte. Ficam nos encarando, paradas, como se quisessem nos atacar ou simplesmente conversar. Contar o quanto é bom lá nos circuitos da televisão e o quanto é perigoso aqui, do lado de fora. São seres vivos, que se arriscam ao sair do quentinho de seus lares em busca de aventura. E eu me sinto como o carrasco, como a vida, sempre pronta pra cortar nossas asas e dizer pra seguirmos em frente, sem nosso conforto original. Mas a gente volta. Felizmente, a gente volta. E vamos pra toda parte. Em maior número e por toda parte.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sonhos de 22

São Paulo, noite de sexta-feira. Milhares de pessoas saem em busca de diversão. Bares, baladas, noitadas. Do lado esquerdo, um jovem de 15 anos curte sua primeira tragada olhando as jovens de roupa curta dançarem freneticamente. Do outro lado, um casal descobre os prazeres de suas línguas, enquanto seus corpos se entrelaçam ao som de uma batida desconcertante. No meio, bem no meio, está ela. Perdida, no alto de seus quase 30 anos.

Está fora toda noite. Conhece centenas de pessoas e nenhuma faz questão de conhecê-la. Ela se pergunta como chegou a esse ponto e quer saber por que. Sonhava, aos 22, ser bem-sucedida, arranjar um príncipe encantado e estar casada aos 27. Já se passou muito tempo e nada mudou. Tem um bom emprego, mas não é uma carreira. Não é algo que a habilite a falar em futuro estável. E toda vez que pensa nisso, começa a chorar.

É triste, mas é verdade: sua vida já acabou. O que vier depois de agora não é lucro, é consequência. Não há nada a fazer e nem nada a dizer. Até que o homem dos seus sonhos apareça e a carregue nos ombros, muito tempo já vai ter passado. Sem falar que isso parece tão impossível nos dias de hoje.

Dá pra notar aquela feição triste de longe. Todos os seus sonhos se esvaindo como a areia de uma ampulheta a cada rotação. E em seus olhos, aquele olhar. Tudo o que ela quer é um namorado, mas só consegue casos de apenas uma noite. Homens que não ligam de volta, rapazes interessados em mais de uma ao mesmo tempo, jovens. E ela pensa: “Como vim parar aqui? Estou fazendo tudo o que posso!”.

É triste, mas é a pura verdade: a sociedade já a condenou. Não há nada a dizer e nem nada a fazer. Até que o homem dos seus sonhos apareça e a carregue nos ombros, já pode ter sido tarde demais. Se bem que, pensando bem, isso não é tão impossível de acontecer nos dias de hoje!

(Texto escrito à partir da letra traduzida de “22”, da cantora inglesa Lily Allen)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ao deus fone de ouvido

Cena típica. Manhã de segunda-feira. Ônibus lotado. Pessoas atrasadas, na iminência de ouvir um reclame estrondoso do chefe abastado. Muitos entram, alguns poucos saem. O espaço onde deveria caber 40 já cabe 65. A senhora gorda reclama do calor. O homem barbudo lê o jornal que estampa a morte de mais um pobre coitado. Ninguém critica. Todos precisam. E eis que entra o único indivíduo capaz de unificar todos os pensamentos ali presentes: o carinha com seu celular tocando música alta.

Geralmente são homens. Ajudantes de pedreiro. Não é desqualificando a classe que, a meu ver, muito colabora para o desenvolvimento desse país, mas é que incomoda. Se você não vai para a escola, curso, faculdade ou trabalho de ônibus, não faz a mínima ideia do que estou falando. Mas tentarei explicar didaticamente. Imagine você com uma baita dor de cabeça, sua irmã mais nova no banco de trás ou sua esposa, se assim for o caso, balbuciando incessantemente um som estridente e irritante, capaz de fazê-lo ligar o carro e preferir Restart àquele barulho.

É mais ou menos assim. Sem falar no gosto musical, que quase sempre é péssimo, daí o motivo pra tanta gente reclamar. Mas não é reclamar imediatamente, dizendo ao rapaz: “Ei, seu moço, desliga isso aí!”. É reclamar na internet, em comunidades e fóruns escusos, ou ao chegar ao trabalho. O fato é que todo frequentador de transporte coletivo já passou por isso, principalmente nos últimos tempos, com a disseminação do celular com MP3.

Nesse momento, entra o salvador da pátria, o objeto que deveria ser mais valioso que a liderança do Big Brother em reta final. Entra em cena o garboso fone de ouvido. Caramba, como seria legal se essas pessoas ouvissem Racionais Mc’s, Claudinho e Buchecha, Aviões do Forró e outras “belezuras” do cancioneiro nacional no conforto de sua particularidade, sem importunar ninguém. Entretanto, parece que o acessório, que SEMPRE vem junto com o aparelho, se perde do dono, que nem liga e continua a perturbar seu semelhante.

Cabe a nós, pobres mortais, sairmos de casa munidos desse objeto redentor. Quando o barulho estiver alto demais, coloquemos o volume do celular no máximo e passemos a molestar nossos tímpanos, de uma maneira gostosa. Não incessantemente, com aquele som estridente e irritante, mas com moderação. Pode ser Leoni, Kings Of Leon, Paramore, Coldplay, Beatles, The Middle East, pode ser o que você quiser.

Lutemos contra esses chatos, mesmo que munidos com a nossa música chata e impopularmente desconhecida pela massa!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Divino sorriso

Regina Spektor tem razão. “Ninguém ri de Deus em um hospital / Ninguém ri de Deus em uma guerra / Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre.” Até o indivíduo mais autossuficiente em assuntos religiosos sente a necessidade, mais cedo ou mais tarde, de acreditar em uma força superior a si. Não significa necessariamente ter fé, pois fé está mais ligada ao rotineiro, ao cotidiano, ao ‘acreditar no impossível’. Nesse caso, é puro desespero mesmo.

Quantas vezes não nos vimos pedindo a Deus por uma melhora de vida, uma cura ou um desejo egoísta? E quantas vezes não blasfemamos dizendo que Ele não está nem aí para o que pensamos, sentimos ou queremos? Paciência nessas horas é a última virtude que sonhamos ter. Mas já pensou se Deus nos desse tudo? Não ficaríamos insatisfeitos mesmo assim? Pois é.

“Mas Deus pode ser engraçado”. Naquela coincidência que o fez encontrar a mulher de sua vida, naquele dia em que tudo o que você mais queria era ficar em casa – e não conhecer o dono daquela multinacional, que lhe daria um dos empregos mais cobiçados do mundo -, ou no dia em que seu animal de estimação mexeu tanto no quintal que acabou achando ouro. É o Senhor das coincidências atuando e você rindo da situação.

O fato é que não existe deus bom ou mau. A qualidade de um deus vai de acordo com nossas conveniências. Se ele nos faz algo de bom, ele é bom. Se ele nos faz algo de mau, ele é mau. Simples. E a mais perfeita das injustiças. Reparou como até nossas relações com os deuses estão pautadas pelo egoísmo? Soa como ‘cada um que tem o deus que merece’.

Acredite em um pedaço de madeira, em uma bola furada ou em um semáforo. Pra você, eles podem ser os deuses perfeitos. Não o cobram muito, você pode vê-los, senti-los, falar diretamente com eles. Mas lembre-se de que o pedaço de madeira pode conter farpas e machucá-lo. Perceba que a bola furada está furada e que não serve pra nada. E que o semáforo, apesar de estar lá em cima, ainda o faz parar, refletir e seguir em frente, só que de acordo com um temporizador ou com o fluxo de veículos.

"No one´s laughing at God / We´re all laughing with God."


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Contos de Whisky V

- O último a sair, apague a luz do aeroporto!

Que lugar era aquele? Centenas de pessoas desoladas, ansiosas por mudança, temerosas pelo futuro. O que fazer depois desse fatídico dia? Como prosseguir se a incerteza era a única certeza a partir de agora? Júlio César não sabia direito. Seu candidato acabara de perder a chance de mudar a história daquela cidade, marcada pela fome, desigualdade e pelo mesmo grupo político no poder. Anos e anos tentando mudar a situação e nada de novo acontecia. Democracia burra, essa.

Que lugar era aquele? Milhares de pessoas reunidas em uma praça, sorriso nos rostos, pulos e gritos desvairados, bandeiras multicoloridas. A noite seria pequena pra tanta comemoração. Eis a vontade do povo. Confesso que não consegui entender dois opostos tão opostos assim. Esse jogo do ganhar ou perder, onde tudo, invariavelmente, termina em festa. Isso mesmo: festa. A oposição entre a festa da vitória e a festa da decepção, comemorada de outra forma, bem mais fúnebre, mas ainda festa. E o que dizer de toda aquela bebida, em todos os lugares? Era bem ali que eu deveria passar a noite.

Júlio César afogou seu voto em um vinho barato que guardava desde o Natal de 2000. Augusto, Aurélio e Otávio beberam champanhe, uísque, cerveja importada e todo o álcool que o dinheiro da vitória poderia pagar. Enquanto isso, os outros dormiam. A Segunda já iria começar e, aparentemente, nada estaria diferente. A não ser pela sujeira deixada nas ruas da democracia. Ou seria oligarquia?

A queixa parecia antiga, e o que vi por lá parecia ambíguo. Uma cidade gloriosa na televisão e cinza na vida real. Bela, mas apagada, cheia de problemas, com poucas soluções. Pessoas admiráveis, sofridas, bonitas e esperançosas. Sobre os políticos, era difícil admitir, mas já estavam cansados. Cansados de tanto dinheiro, de tantos ataques e de tantas promessas não cumpridas por eles mesmos. Era comum ouvir o nome do fundador do tal grupo político em rodas de conversa. Defesa sem embasamento, ataque com fundamentos e um ódio colossal no coração. Um ciclo cansativo e que não adiantava de nada pelo visto.

Arrumei minhas malas, recusei algumas doses da eleição e segui em busca de novas histórias. Menos traumatizantes, mas que mostrassem o melhor e o pior de um mesmo mundo, seja lá qual ele for.