sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sobre escrever o futuro...

Parece que a gente perde o tino e escrever se torna a mais difícil das tarefas. A vida adulta bate à porta e, às vezes, é só você contra você mesmo, sem papel, caneta ou teclado pra registrar o dissabor causado pelo tal dos 20 e poucos anos. Faculdade, amizades estremecidas, namoro, trabalho. A infância nunca fez tanta falta e a vontade de voltar para o útero da mãe só aumenta em meio a tanta confusão. Ser adulto é difícil, mas ser ninguém é pior!

Na verdade, tudo isso é uma fase. Tão clichê quanto espalhar por aí o “vai passar”, dizer que toda essa perturbação mental é uma fase ajuda na caminhada. É justamente agora que a semente do futuro começa a ser plantada. Para aqueles que, assim como eu, acreditam que a educação é a chave para uma transformação de vida, investir em uma formação técnica ou superior, capaz de preparar você para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, onde só os melhores garantem seu lugar ao sol, é de fundamental importância. A luta é hercúlea e os benefícios, muitas vezes, só chegam a longo prazo. E então bate o desânimo.

“Nada dá certo na minha vida” e “onde é que aperta pra eu estar formado e ganhando bem?” têm sido os mantras da minha geração, cada vez mais imediatista – e onde eu me incluo, certamente. Mas não nos afobemos não, que nada é pra já, como diria o poeta. Com o peso da pouca idade, vamos aprendendo a viver um dia de cada vez, tentando absorver o máximo de informação possível, aliada a uma boa dose de noção de vida, o que, na melhor das hipóteses, nos garante uma boa qualificação profissional e um livro mental de autoajuda, bem útil naqueles momentos de problemas e solidão.

E, assim, escrever sobre as vicissitudes da adolescência, como os amores perdidos ou os não correspondidos, simplesmente deixa de fazer sentido. É hora de reinventar-se.

Tenho tentado me reinventar a cada dia, em uma batalha carregada de aprendizados, erros, defeitos e virtudes. E voltar a escrever é só uma das maneiras de encarar a vida. Um escape saudável, eu diria. Já que tenho esse espaço para despejar o meu ponto de vista, ouvir o de outras pessoas e até, quem sabe, mudar de opinião, por que não usá-lo? Crescer também é dar um novo colorido àquela parede cinza esquecida no fundo da mente. É olhar o outro lado daquilo que você, por birra, só quis enxergar de um modo. É ser você mesmo, entendendo de uma vez por todas que precisa das pessoas ao seu redor. Ninguém é uma ilha. Somos um arquipélago em desenvolvimento!

Portanto, acho que está mais do que na hora de voltar a aparecer regularmente por aqui. Não prometo textos espetaculares nem postagens diárias, mas apenas algumas doses daquilo que sempre me fez bem e que a vida adulta estava querendo me roubar: o prazer de escrever.

Já resgatei o bloco de anotações, fiz uma porção de planos, pensei em várias maneiras de colocá-los em prática e só me vem uma coisa na cabeça: viver é absolutamente incrível, apesar de incrivelmente complicado. E só nos resta seguir em frente, com a cabeça erguida, vivendo feito adulto, mas com a alma de criança!


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O verdadeiro sentido do Natal

Sempre tive vontade de fazer algo diferente no Natal. Aos 8 anos, durante um passeio de carro na noite do dia 24, vi, pela primeira vez, que a vida não era fácil como parecia até então. Quem dirigia o veículo, ao passar por um viaduto próximo à minha casa, fez questão de me mostrar algumas pessoas cobertas por papelão, deixadas ao relento, provavelmente com frio e com fome. Naquele dia, por mais que minha cabeça não compreendesse o porquê de alguém estar sem casa e cama na noite de Natal, algo me perturbou. A cada dezembro, durante todos esses anos, o desejo de fazer alguma coisa por aquelas pessoas só crescia. E eis que me surgiu a oportunidade.

Tenho a felicidade de namorar uma pessoa incrível e com um coração enorme. Costumo dizer a ela que sua fé é uma das coisas que mais admiro nesse mundo. A fé que nos uniu na certeza de um amor verdadeiro também é a fé que a juntou com pessoas maravilhosas em um grupo de jovens católicos chamado Javé Nessi. O nome escolhido para o grupo foi sugestivo e significa “O Senhor é nossa bandeira”, em alusão ao que consta no livro do Êxodo, capítulo 17, versículo 15, do Antigo Testamento.

Atendi ao convite para visitar um hospital da cidade na noite do dia 25, a fim de distribuir cachorro-quente e suco para os acompanhantes de quem ali estivesse internado. Embora receoso em encarar a cruel realidade de um hospital público que sempre é manchete nos jornais por causa de sua superlotação e alta exposição de pacientes em macas espalhadas pelos corredores, prontamente me dispus a ir e ajudar. Penso que precisamos encarar o problema sem medo para buscar soluções, que também podem se mostrar em pequenos gestos e mínimas atitudes.

A fé que une o grupo é inigualável e isso ficou bem visível quando pudemos entrar no hospital para transmitir uma mensagem de solidariedade e desejar Feliz Natal aos que ali estavam. Como alguém fez questão de frisar durante a visita, não sabíamos nada sobre a história de nenhum dos pacientes, mas estávamos ali para levar um pouco de esperança aos corações sofridos através da palavra de Deus, munidos da oração que Seu filho nos ensinou. Após as orações por algumas enfermarias, uma vez que ainda havia comida, resolvemos visitar um hospital infantil e distribuir o que sobrasse para os sem-teto espalhados pela principal praça do Centro de São Luís.

Entre essas idas e vindas, pude refletir sobre muita coisa em minha vida, repensando atitudes e buscando novos ângulos para observar um mundo cruel que tentamos atropelar todo santo dia com nossa pressa, preguiça e egoísmo. Costumo dizer que se todos tivessem a oportunidade de visitar um hospital público e um presídio em condições degradantes, o mundo teria, no mínimo, gente melhor para povoá-lo. Desprezo a visita para simples comoção ou por meros interesses políticos, como vemos a cada ano de eleição. Precisamos agir diariamente para tentar mudar a situação, com os meios que estiverem ao nosso alcance, mesmo que eles sejam os mais simples possíveis.

Meus projetos de vida continuam os mesmos, mas o meu olhar para o mundo lá fora está totalmente diferente. Só tenho a agradecer a quem me proporcionou tamanha reflexão e a quem tem me tornado melhor a cada dia. Seja assim também, como essas pessoas que conseguem transformar em realidade o velho ditado que diz: “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Senhor dos 22

E, de repente, acordei com 22 anos de idade. Planos traçados, pessoas ao redor, gente completamente desconhecida aos 18 e que agora não imagino viver longe... É como se cada erro do passado pudesse convergir em um único ponto, fazendo você finalmente perceber que foi preciso passar por tudo aquilo para ser alguém melhor hoje um dia. Em síntese, uma boa pessoa, entre percalços do dia a dia e defeitos essencialmente humanos. Faço-me adepto do exercício do autorretrato, do procurar erros em mim que eu nem sabia que existiam, sempre precisando de uma ajudinha exterior. Vejamos.

Não sou alguém fácil. Por mais sociável que eu seja, quem me conhece de verdade sabe dos meus pontos fracos, das minhas inquietudes e dos meus medos. Extremamente recorrentes, esses medos são resultado de uma boa dose de passado glorioso e limitações pontuais. Sem queixas, longe de mim. Acho até que esses medos me ajudam em alguns momentos, pois, sem eles, eu não conseguiria que pessoas corajosas me fizessem enxergar tanta falta de coragem. Frouxo é aquele que não vai à batalha hora nenhuma. Minha coragem se resume em partir para a guerra no momento oportuno. Mas até a estratégia do mais sublime herói deve ser repensada de vez em quando.

Carrego preconceitos. Assim como uma boa parcela da população brasileira, tenho lá meus pré-julgamentos. Todos sabemos que somos resultado do nosso passado, da nossa experiência de vida, do nosso meio cultural. É “aceitável” que enxerguemos com outros olhos algo estranho ao nosso convívio. O que entendo como inaceitável é conformar-se com essa situação. Como já disse, sou do tipo que precisa de um “empurrãozinho” para enxergar certas coisas e, ultimamente, tenho visto que muitos preconceitos meus não têm sentido em permanecer aqui comigo depois de tanto tempo. Feliz daquele que tem a hombridade de reconhecer seus erros e ir em busca de uma solução precisamente eficaz.

O novo me assusta. Mudar sempre demanda tempo e desprendimento, é assim pra todo mundo. Mas acontece que a novidade sempre me assusta de uma maneira maluca. Acho que é esse prazer por controle nas mãos, por ser dono do seu próprio eu, que faz com que eu seja assim. Mas também estou propenso a mudar. Tenho trabalhado de forma a enxergar a novidade como uma extensão do que já existia, afinal, como ela o é. Entendo que nada é por acaso e tudo está concatenado de uma forma ou de outra. O nosso futuro, portanto, não é completamente desconhecido.

Romantizo demais a vida. Cada amanhecer é uma oportunidade para recomeçar e aprender coisas novas. Faz-se necessário estar disposto a aprender sempre. Ouvir novas histórias, descobrir horizontes e apaixonar-se pela vida a cada dia é uma forma saudável de viver bem consigo e com as pessoas de seu convívio. Claro que é preciso moderação. Romantizar demais no mundo cruel que vivemos hoje é ter a certeza de que iremos nos machucar. Essa lição eu já aprendi. Mas não me privo de acordar, fugir do meu mundinho e ir viver. Lá fora está a maior fonte de aprendizado que alguém pode ter: a vida. Tente. Eu tenho tentado e estou tentado a continuar tentando tentar.

No mais, apesar de querer moderar minha exposição ao escrever, sempre chego à conclusão de que tem gente precisando ler um ou dois parágrafos amigos, com o mínimo de experiência possível. O Senhor do Tempo agora tem 22 e está cheio de novos motivos para acreditar que isso é o certo a fazer. Mesmo que o paradoxo da falta de tempo insista a me abater, farei como tenho feito com todos os meus problemas: resolverei o mais rápido possível. De preferência, antes de dormir.

Por amor às causas perdidas...

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mindfuck

Mesa de bar. 22:13. Em meio ao vozerio intenso dos frequentadores do lugar, me pego observando despretensiosamente cada corpo estranho ao meu redor. A loira da mesa ao lado esboça um sorriso extremamente sensual enquanto gesticula com as prováveis amigas de faculdade. A negra, de corpo escultural, amarra o cabelo encaracolado de forma cuidadosa, destacando ainda mais sua beleza nativa. A japonesa de traços delgados mexe no celular, comenta sobre o cabelo da amiga negra e sorri para a moça loira, ao mesmo tempo em que se delicia com o clichê do sushi.

O chopp é dobrado. E também é dobrada a vontade de me embriagar. Pouco importa se é segunda-feira, se amanhã cedo o trânsito é um inferno e se tenho faculdade às 7:30. Sempre fui intenso, ávido pelo presente e desconfiado do futuro, esse completo desconhecido que desespera e anestesia tanta gente todo santo dia. Na verdade, nunca enxerguei nada além do tempo que preciso para sobreviver. E ele nunca ultrapassou as 24 horas daquela série americana. Vivo, erro, aprendo, sofro, me alegro... presente.

Do outro lado do bar, uma guria começa a me encarar. Olhares perdidos e encontrados em um mesmo compasso, de maneira que a cadência de seus olhos azuis de cigana oblíqua, dissimulada e gostosa acaba por penetrar em meu olhar vazio e arredio. Nunca antes na história dessa minha vida... Em mais de 1 hora nessa troca de olhares, não me passa pela cabeça fazer absolutamente nada. Nenhum bilhete entregue a ela via garçom, nenhum comentário tipicamente masculino com os amigos da mesa e nenhuma esperança, uma vez que seu namorado é extremamente mais forte e mais simpático que esse que vos escreve.

Ele levanta. 1 minuto depois, ela vem em minha direção. Em uma conversa meio sem sentido, diz que sente minha falta, pergunta pelos meus pais e se Spike ainda está vivo. Quem é Spike? Aliás, Spike sempre foi o nome que eu daria a um cachorro. Se eu tivesse um. Depois de uns 678 chopps, dobro minha consciência e tento me lembrar de onde conheço aquela maluca extremamente bonita que agora desafia meu senso mental. Ela me dá um beijo, pergunta se ainda moro no mesmo lugar e promete uma visita "qualquer hora dessas". Bianca.

Bianca namorou comigo 2 anos e 7 meses depois disso. Jura não se lembrar de ter me visto em bar algum naquele dia. Jura de pés juntos não saber quem era o cara malhado que descrevo incansavelmente. Nunca mais vi a loira, a negra, muito menos a japonesa. Faço análise com um psicólogo maluco desde que Bianca começou a namorar com o cara do meu retrato falado. Parei de beber.

O futuro tem dessas coisas. A gente nunca sabe se ele já não está presente!


domingo, 20 de outubro de 2013

A menina do supermercado

“O passado fica na gente da mesma forma
 que o açúcar de confeiteiro fica nos dedos.
Algumas pessoas conseguem se livrar dele,
mas os fatos e as coisas que as empurraram
para onde estão agora continuam ali.”

(O Circo da Noite)

Martinho da Vila é enfático quando canta “já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores”. O músico descreve situações amorosas e faz um gostoso passeio romântico ao relatar diversos relacionamentos de um eu-lírico envolvido com mulheres extremamente diferentes. “Mulheres cabeça e desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz”. No meio de todas, em forma de poesia, o artista destaca aquela que era tudo o que um dia ele sonhou pra si. Na verdade, Martinho poderia muito bem estar me descrevendo nessa história. E como poderia...

De uns tempos pra cá, tenho me compreendido como um solitário acompanhado. Um típico Alfie, mas sem a sedução característica do Jude Law. Alguém que se baseia em encontros e sexo casual para medir seu nível de felicidade. Uma vida de mentiras, eu diria. Nada vergonhoso nem perigosamente doentio, uma vez que ando em dia com a compra de preservativo na farmácia do shopping próximo ao escritório. Não é que eu não me satisfaça, eu apenas não fico satisfeito.

Preocupo-me com cada mulher apaixonada que cai nas minhas garras e promessas de felicidade plena. A cada estranha conhecida que abre a porta do meu carro e adentra o meu mundo de barzinhos e apartamento na parte nobre da cidade, eu me sinto menos eu. Sinto como se minha essência tivesse se esvaído ou presa a um evento, oportunidade ou pessoa. Tive 3 relacionamentos que considero sérios, mas ainda me prendo ao segundo sempre que observo a lua na varanda desse 707.

Hoje tomada pelas curvas de mulher que o tempo a concedeu, a outrora ‘menina do supermercado’ era doce e angelical, sem perder a garra e firmeza de alguém que já havia sofrido bastante para apenas 18 anos. Minha ânsia por tentar demasiadamente prever o futuro destruiu uma das mais belas histórias que ousaram escrever. A filosofia de fé emanada por aquela garota consolidou bases fortíssimas em minha vida que nunca mais ousei mostrar pra ninguém. A liberdade invocada por suas atitudes me transformou em um ávido e verdadeiro sagitariano, aventureiro, com um pouco menos de medo. Seus beijos eram inspiração para alegrias que duravam horas e horas, que eu nunca pensei que fossem acabar. Mas acabaram.

Hoje sou um Machado mais realista do que romântico. Tentei amar de novo, mas nenhuma me sorriu feliz nos testes a que submeti cada uma delas pelos corredores de supermercado. Casada carente, solteira feliz, donzela, meretriz, nenhuma delas se assemelha àquela estranha loucura que me apareceu há 5 anos. Nossas vidas tomaram rumos diferentes, exatamente como planejávamos – mesmo querendo, os dois, que aquilo durasse pra sempre. A última vez que a vi foi em uma festa, regada a muito álcool e desilusões. A última notícia de uma rede social inconveniente relata que voltou com um antigo namorado. Nada mais justo: seguir em frente.

Infelizmente, eu não segui em frente. A cada álbum, banda, lugar, arquivo escondido nos confins do HD externo, etc, etc, etc, ela me aparece como em sonho, como em realidade palpável. Juro que tento fazer com que as coisas façam um pingo de sentido, mas elas insistem em não fazer. E vou vivendo a maneira de amor que escolhi pra mim, uma vez que aquela maneira de amar ainda me vale a pena, mesmo que eu diga e mostre que não. Já era, guria: a tua praga pegou.



domingo, 22 de setembro de 2013

Futuro do pretérito

Eu te ligaria 12 vezes de madrugada só pra te desejar boa noite, mesmo que já fosse de manhã. Eu esqueceria meus medos, afastaria meus complexos e controlaria minhas manias só pra te ter do meu lado. Me perderia no tempo, não me importaria com o relógio, deixaria os dias passarem numa cadência extremamente lenta só pra eu curtir teu sorriso noturno me pedindo pra ficar depois de um desentendimento fruto da minha criancice. Eu teria 11 anos de novo, mas precisaria de você com 8 pra brincar na rua, mesmo eu não sabendo sequer empinar pipa.

Eu repetiria todos os nossos momentos. O primeiro beijo, a primeira troca de olhares apaixonados, a primeira discussão, o primeiro ciúme, a primeira música-tema do nosso romance, a primeira festa, a primeira foto, os primeiros passos. Congelaria todas as tuas expressões faciais e colocaria em um quadro imenso, guardado na eternidade de nossas memórias. Ficaria grudado feito chiclete mesmo sabendo que você odeia que grudem feito chiclete. Aliás, eu também odiaria que grudassem feito chiclete, mas você eu grudaria. Eu até te esqueceria, se desse pra esquecer que eu existo. Não dá.

Eu não mediria esforços pra te ter de volta. Eu não ousaria te desrespeitar, mesmo quando minhas palavras erradas te fizessem acreditar nisso. Eu não te deixaria dormir sabendo que tínhamos problemas a resolver. Eu não acreditaria quando tua boca dissesse pra eu ir embora e teus olhos suplicassem pra que eu ficasse. Eu não esqueceria teu perfume natural, teus sonhos, tua vontade de ir além. Eu não pararia de te ajudar, mesmo que eu não pudesse ajudar mais nem a mim mesmo. Eu não deixaria de te amar, até mesmo se o amor tivesse deixado de existir. Eu não faria nada que pudesse te levar embora.

Eu pararia de ser exagerado, chato, dramático, viciado em tecnologia e extremamente metódico se isso te fizesse ficar. Eu roubaria a lua, em um plano mirabolante, só pra te trazer ela cheia todas as noites. Eu perderia noites de sono só pra te fazer parar de chorar e ter a certeza de que está tudo bem, de que tudo vai ficar bem. Eu amanheceria ao teu lado se o mundo conspirasse a favor disso. Eu enalteceria tua beleza em teu ouvido, dizendo as mais lindas palavras de amor que meu dicionário apaixonado já catalogou. Eu te faria acreditar no nosso futuro, inventaria certezas incertas e transformaria cada uma delas em verdade universal.

Eu trocaria a eternidade por essa noite. Noite do teu lado, feito anjo, querubim apaixonado, nada além de nós. Nós que nem sabemos quanto nos queremos, queremos a eternidade e a única coisa que temos somos nós. Nós fomos feitos um pro outro, pode crer. Acreditar na verdade que se pode tocar e torcer, com uma fé inabalável, que vai dar tudo certo, que Deus está do nosso lado e que Ele existe. Crer na geografia dos nossos corpos, na história do nosso romance, na gramática de nossas conversas, na filosofia de nossas indagações, na química de nossa relação, na escola da vida. Por você, eu dançaria reggae no teto. De cabeça pra baixo. Só pra poder te ver tonta e tropeçando na laje. Agiria como se te entendesse, como se me entendesse.

Retiro tudo o que disse. Eu apenas te amaria. Isso basta!


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cruzadas

Débora. 28 anos, advogada, viciada em sapatos e carente. Acostumada a um mundo de facilidades, teve tudo do bom e do melhor desde que se entendeu por gente. A boneca mais cara, o estojo multicolorido, a melhor escola, a melhor universidade privada do estado, etc, etc, etc. Frequentava baladas da elite ludovicense à procura de um cara que a fizesse trocar o trabalho no escritório por uma viagem de lua de mel na Argentina. Sonhava com um advogado másculo e competente, alguém pra dividir seus anseios e seus projetos jurídicos.

Ele. 25 anos, desempregado, viciado em crack e morador de rua. Acostumado à falta de oportunidades, teve todas as portas fechadas desde que aceitou fumar a droga oferecida por um vizinho. Viu a mãe desesperada, o pai atropelado, o irmão mais novo também viciado, a polícia truculenta, etc, etc, etc. Frequentava as ruas, avenidas e rotatórias à procura de comida e companhia, na intenção de esquecer o vício por alguns minutos. Sonhava com alguns trocados a mais naquela intensa tarefa de limpar para-brisas.

Não, eles não se apaixonaram. Débora abriu a porta do carro. Ele se espantou com a luz do sol. Débora deu a partida, ele guardou as caixas de papelão que lhe serviam de coberta. Débora, contente, ligava o rádio e ouvia Selena Gomez no programa da manhã. Ele queria um café da manhã. Débora parou no sinal vermelho, ele entrou na padaria. Débora fazia planos mentais para o dia, ele perguntava quanto custava o pão com manteiga. Débora infringia a lei atendendo o celular enquanto dirigia. Ele era humilhado dizendo que não poderia pagar aquela refeição. Débora distraída, ele rouba comida e sai correndo pela avenida. Débora o atropela e ele vai parar a uns 300 metros de distância. Débora, apavorada. Ele, morto!

Por um instante, aquelas vidas se encontraram. Poderiam ter vivido um grande amor, desses que vemos diariamente em todos os lugares. Débora se tornaria mais humana, ele passaria a ter perspectiva na vida, Débora sofreria um bocado tentando livrá-lo do vício, ele seria pai de uma criança linda e educada e você me diz que isso é utopia. Talvez. Amar é a mais bela utopia que existe. Acreditar no amor, mesmo quando ele tem todas as chances de dar errado, é igualmente louvável. Tentativa, meu caro. Nada de atropelar pessoas e sentimentos.

Débora quis saber o nome dele. Não havia nome. Desconhecido, conhecido e chamado de ‘Ele’. Cochichos diziam ‘menos um ladrão’. Bocas sussurravam ‘era vagabundo, vivia roubando pela redondeza’. Débora se sentiu aliviada. Não seria presa, não teria a vida profissional manchada e apenas prestaria depoimento na delegacia mais próxima. Vida besta que segue. Afinal, ‘menos um vagabundo’. Afinal, menos uma história de amor e mais uma de egoísmo. Onde nosso próprio umbigo vale mais do que massa encefálica espalhada pelo chão da avenida.

domingo, 28 de julho de 2013

Bem, Rainha!

Parabéns, você conseguiu! Onipresente, destruiu todos os planos que eu havia feito para um dia perfeito. Venceu uma partida do jogo de xadrez do sentimentalismo teletransportando-se mentalmente para o cérebro da Rainha. Xeque-mate! Com toda franqueza, não te desprezo. Com toda fraqueza, só peço que pare. Aliás, você já não faz mais nada. Você está e não está, magoando pessoas que estão magoando outras criaturas exatamente agora. Triste fim.

Mas você despertou a ira do amor. E isso eu não posso consentir. Tudo o que você plantou sem querer começa a querer devorar o querer bem. A atenção, o cuidado, as inúmeras tentativas de agradar, agora se tornaram ervas daninhas capazes de consumir até fogo, se eu assim deixar. Só que essas ervas daninhas carregam um bem precioso demais pra eu cortar o mal pela raiz. Minha cabeça anda confusa e o único jeito que eu tenho pra resolver isso é confiar no Bem magoado. Talvez ele tenha a saída. O Bem e o Tempo.

Eu tenho medo que a Rainha se perca. Confundida pelo Onipresente, acredite piamente que ele estará lá sempre que ela precisar. Eu estarei. Guiado pelo Bem, se assim Deus me permitir. Só que eu tenho medo que o Bem se canse e que perca as forças paulatinamente, me deixando desnorteado e sem ânimo para continuar. Venho de um confronto direto com o Onipresente, que me deixou cicatrizes profundas, todas curadas com muito suor e lágrima. Disseram-me que o Bem tinha as respostas. Acho que ele as tem.

Derrotado na primeira batalha, não me acomodarei. A guerra em busca da Vida está só começando e eu não abro mão dessa vitória de maneira alguma. Tenho minhas armas e vou usá-las com a maior parcimônia possível. A arte da guerra, já ouviu falar? Guerra de tronos. Pelo Bem da Rainha. Pela Rainha de Bem.

Bem, Rainha, a sorte está lançada!


sábado, 6 de julho de 2013

Contos de Whisky IX

- Tô aqui pensando. Quem faria um sobrado de cara pra parede? Olha lá, totalmente fora dos padrões de arquitetura. Coisa de gente louca. Um dia ainda vou embora dessa cidade!

Natasha não falou por maldade. Sentada no banco de uma praça próxima ao casarão aparentemente mal feito, a garota procurava maneiras de evitar uma iminente discussão com a namorada. Nicole havia trabalhado o dia inteiro numa dessas lojas de shopping e só queria ver o pôr do sol com a companheira. Natasha queria beber, fumar e, quem sabe, transar num desses motéis baratos do centro da cidade. Nicole queria ficar ali, abraçadinha com quem ela sentia ser o amor de sua vida.

Nicole carregava inúmeros complexos em sua cabeça de ex-adolescente. Namorados traumáticos, família superprotetora, faculdade interminável. Não reclamava porque gostava de tudo daquele jeito, feito o exercício do caos. Ultimamente, tinha pedido aos deuses uma paixão arrebatadora, apelando, inclusive, para o vestido vermelho e para a calcinha cor de rosa na noite de Réveillon.  Dito e feito. Natasha apareceu durante o maior porre da vida de Nicole, em uma boate gay, lugar onde a patricinha nunca havia pisado antes.

Natasha era totalmente o oposto de Nick, como gostava de tratá-la. Rockeira desde a adolescência, a garota de quase 22 anos era o que eu posso chamar de ‘a personificação da loucura’. Uma loucura boa, eu diria. Vodka, cachaça, uísque, cerveja, destilados diversos e álcool capaz de colocar uma frota inteira de carros bicombustível pra atravessar os 890 metros da Ponte do São Francisco. Como eu gostava dessa garota. Como eu gostei de observá-la bêbada jogada no banheiro da casa de uma das amigas lésbicas sem sequer saber onde estava. Como eu gostei de vê-la em sua casa, vomitando em plena segunda-feira depois de um porre de vinho barato. Minha ébria preferida!

Nicole beijou Natasha por causa da carência. Havia visto o perfil do ex-namorado sendo atualizado para ‘em um relacionamento sério com uma puta qualquer’ e foi beber. Bebeu até que fez amizade com Natasha, que se aproveitou do ‘nenhum homem presta, né amiga?’ e a fez descobrir que a cura para aquilo poderia estar em peitos e bundas. E em línguas. Entrelaçadas, descobriram que toda aquela volúpia poderia significar algo a mais. Foi quando a patricinha percebeu que Natasha era chave de cadeia, confusão para a família perfeita, a mulher da sua vida. Foi quando percebeu que estava amando outra mulher.

3 meses de relacionamento e as duas já pareciam almas gêmeas de comédia romântica. Amassos quase diários, ligações até 2 da manhã todos os dias, mentiras para a mãe, festas, sexo pelo Whatsapp. Nicole e Natasha se amavam e faziam questão de dizer isso uma a outra diariamente. Mas Natasha percebeu que ali não tinha clima como da primeira vez que transaram. Percebeu que Nicole só precisava de amor e descobriu de uma maneira bem frustrante que a namorada não pensava em fazer sexo. Nicole era do tipo que fazia amor, todo dia, toda hora, enquanto ajeitava o cabelo de Natasha, enquanto a abraçava, enquanto a beijava. Natasha se lembrou dos tarados com quem ficou, das meninas drogadas com quem transou, da única pessoa que amou antes de Nick.

Foram embora, sem beber, sem fumar, sem transar. A seguir, a mensagem de texto que a de quase 22 mandou para a de 18 logo depois de pôr os pés em casa naquela noite:

- Te quero na parada de ônibus, no sofá da minha casa, no terraço da sua. Te quero fazendo sol ou chuva, dia ou noite. Te quero sorrindo ou chorando, triste ou feliz. Te quero com ou sem roupa. Apenas te quero. Tu é meu sonho, o meu amor. Meu verdadeiro e eterno amor!

domingo, 9 de junho de 2013

Batendo retratos

É que as fotos ficam. Na falta de máquina do tempo, inventaram a fotografia. Não dá pra voltar àquela festa do seu primeiro porre, mas dá pra sorrir bastante olhando aquela imagem registrada pelo V3 cor-de-rosa da sua melhor amiga. O namoro acabou, vocês nem se falam mais, mas provavelmente alguma foto do casal ainda está perdida no Fotolog conjugado, cuja senha nenhum dos dois lembra. Para os mais saudosistas, guardar um antigo álbum de família traz muito mais felicidade do que um almoço de domingo na casa da mãe.

Dia desses, minha madrinha de 92 anos jogou fora um álbum antigo sem nenhum motivo. Confesso que tentei entender o porquê daquela atitude, mas desisti quando vi que ela não se sentia mais à vontade vendo aquelas fotos. Compreendi que um dia a gente simplesmente se cansa de manter as velhas recordações. Os amigos se vão, os amores também e só resta você e aquelas folhas de papel 10x15 desbotadas pelo impiedoso tempo. Por enquanto, ainda não cansei. Espero que não me canse até o meu 100º aniversário.

As fotos têm um efeito analgésico. Elas não foram feitas para absorver lágrimas desmedidas após o fim de um ciclo. Esses retratos têm a finalidade de manter a memória viva, ligada ao 220 do sentimentalismo. À exceção das fotos tremidas, qualquer imagem registrada é válida. O sorriso do seu primeiro filho, a emoção da formatura na universidade, a viagem com os melhores amigos da escola. Quem se vai, perde a chance da próxima foto. Quem fica, tem a oportunidade de escolher o melhor ângulo e congelar o tempo, contrariando todas as leis da física e da saudade.

Geração nenhuma foi tão apegada à fotografia quanto a atual. Instagram, Tumblr, Flickr, Mobli, We Heart It... Negócios que se popularizaram por causa do nosso saudosismo e da vontade extrema de expor a todos o que nossos pais só mostravam aos amigos mais chegados. Ainda encontramos alguns amantes do mundo analógico, mas confesso que não dispenso a praticidade do digital ao meu alcance em um descompromissado clique. Coracionar virou moda. Fotografar virou estilo de vida.

Morar em uma cidade histórica tem suas vantagens. Final de tarde posando em frente a casarões, ruínas servindo de cenário para eternizar histórias de amor, o tempo como pano de fundo para a posteridade. Qualquer um é fotógrafo. E isso não é bom ou ruim. Como é incrível comparar o antes e o depois de um determinado local. Quantas histórias não foram desenhadas naquele lugar? Quantas pessoas passaram por ali? Envelhecer é possível quando estamos diante de uma fotografia?

Guardo muita coisa antiga em meus arquivos (digitais e físicos). De vez em quando, sinto saudade e vou lá fazer uma pequena viagem, sem custos, aborrecimentos ou overbooking. E me pergunto: o que seria de mim sem tudo isso? O passado importa a partir do momento em que te ajuda a ser alguém melhor. E o meu, com certeza, me ajudou a ser quem eu sou hoje. Triste daquele que não fotografa. Triste daquele que não eterniza um abraço, um sorriso, um beijo apaixonado. A mente uma hora cansa. A lembrança uma hora descansa. Repouse nas fotos e descubra o quanto você era feliz e não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Fotografe!