sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cruzadas

Débora. 28 anos, advogada, viciada em sapatos e carente. Acostumada a um mundo de facilidades, teve tudo do bom e do melhor desde que se entendeu por gente. A boneca mais cara, o estojo multicolorido, a melhor escola, a melhor universidade privada do estado, etc, etc, etc. Frequentava baladas da elite ludovicense à procura de um cara que a fizesse trocar o trabalho no escritório por uma viagem de lua de mel na Argentina. Sonhava com um advogado másculo e competente, alguém pra dividir seus anseios e seus projetos jurídicos.

Ele. 25 anos, desempregado, viciado em crack e morador de rua. Acostumado à falta de oportunidades, teve todas as portas fechadas desde que aceitou fumar a droga oferecida por um vizinho. Viu a mãe desesperada, o pai atropelado, o irmão mais novo também viciado, a polícia truculenta, etc, etc, etc. Frequentava as ruas, avenidas e rotatórias à procura de comida e companhia, na intenção de esquecer o vício por alguns minutos. Sonhava com alguns trocados a mais naquela intensa tarefa de limpar para-brisas.

Não, eles não se apaixonaram. Débora abriu a porta do carro. Ele se espantou com a luz do sol. Débora deu a partida, ele guardou as caixas de papelão que lhe serviam de coberta. Débora, contente, ligava o rádio e ouvia Selena Gomez no programa da manhã. Ele queria um café da manhã. Débora parou no sinal vermelho, ele entrou na padaria. Débora fazia planos mentais para o dia, ele perguntava quanto custava o pão com manteiga. Débora infringia a lei atendendo o celular enquanto dirigia. Ele era humilhado dizendo que não poderia pagar aquela refeição. Débora distraída, ele rouba comida e sai correndo pela avenida. Débora o atropela e ele vai parar a uns 300 metros de distância. Débora, apavorada. Ele, morto!

Por um instante, aquelas vidas se encontraram. Poderiam ter vivido um grande amor, desses que vemos diariamente em todos os lugares. Débora se tornaria mais humana, ele passaria a ter perspectiva na vida, Débora sofreria um bocado tentando livrá-lo do vício, ele seria pai de uma criança linda e educada e você me diz que isso é utopia. Talvez. Amar é a mais bela utopia que existe. Acreditar no amor, mesmo quando ele tem todas as chances de dar errado, é igualmente louvável. Tentativa, meu caro. Nada de atropelar pessoas e sentimentos.

Débora quis saber o nome dele. Não havia nome. Desconhecido, conhecido e chamado de ‘Ele’. Cochichos diziam ‘menos um ladrão’. Bocas sussurravam ‘era vagabundo, vivia roubando pela redondeza’. Débora se sentiu aliviada. Não seria presa, não teria a vida profissional manchada e apenas prestaria depoimento na delegacia mais próxima. Vida besta que segue. Afinal, ‘menos um vagabundo’. Afinal, menos uma história de amor e mais uma de egoísmo. Onde nosso próprio umbigo vale mais do que massa encefálica espalhada pelo chão da avenida.

domingo, 28 de julho de 2013

Bem, Rainha!

Parabéns, você conseguiu! Onipresente, destruiu todos os planos que eu havia feito para um dia perfeito. Venceu uma partida do jogo de xadrez do sentimentalismo teletransportando-se mentalmente para o cérebro da Rainha. Xeque-mate! Com toda franqueza, não te desprezo. Com toda fraqueza, só peço que pare. Aliás, você já não faz mais nada. Você está e não está, magoando pessoas que estão magoando outras criaturas exatamente agora. Triste fim.

Mas você despertou a ira do amor. E isso eu não posso consentir. Tudo o que você plantou sem querer começa a querer devorar o querer bem. A atenção, o cuidado, as inúmeras tentativas de agradar, agora se tornaram ervas daninhas capazes de consumir até fogo, se eu assim deixar. Só que essas ervas daninhas carregam um bem precioso demais pra eu cortar o mal pela raiz. Minha cabeça anda confusa e o único jeito que eu tenho pra resolver isso é confiar no Bem magoado. Talvez ele tenha a saída. O Bem e o Tempo.

Eu tenho medo que a Rainha se perca. Confundida pelo Onipresente, acredite piamente que ele estará lá sempre que ela precisar. Eu estarei. Guiado pelo Bem, se assim Deus me permitir. Só que eu tenho medo que o Bem se canse e que perca as forças paulatinamente, me deixando desnorteado e sem ânimo para continuar. Venho de um confronto direto com o Onipresente, que me deixou cicatrizes profundas, todas curadas com muito suor e lágrima. Disseram-me que o Bem tinha as respostas. Acho que ele as tem.

Derrotado na primeira batalha, não me acomodarei. A guerra em busca da Vida está só começando e eu não abro mão dessa vitória de maneira alguma. Tenho minhas armas e vou usá-las com a maior parcimônia possível. A arte da guerra, já ouviu falar? Guerra de tronos. Pelo Bem da Rainha. Pela Rainha de Bem.

Bem, Rainha, a sorte está lançada!


sábado, 6 de julho de 2013

Contos de Whisky IX

- Tô aqui pensando. Quem faria um sobrado de cara pra parede? Olha lá, totalmente fora dos padrões de arquitetura. Coisa de gente louca. Um dia ainda vou embora dessa cidade!

Natasha não falou por maldade. Sentada no banco de uma praça próxima ao casarão aparentemente mal feito, a garota procurava maneiras de evitar uma iminente discussão com a namorada. Nicole havia trabalhado o dia inteiro numa dessas lojas de shopping e só queria ver o pôr do sol com a companheira. Natasha queria beber, fumar e, quem sabe, transar num desses motéis baratos do centro da cidade. Nicole queria ficar ali, abraçadinha com quem ela sentia ser o amor de sua vida.

Nicole carregava inúmeros complexos em sua cabeça de ex-adolescente. Namorados traumáticos, família superprotetora, faculdade interminável. Não reclamava porque gostava de tudo daquele jeito, feito o exercício do caos. Ultimamente, tinha pedido aos deuses uma paixão arrebatadora, apelando, inclusive, para o vestido vermelho e para a calcinha cor de rosa na noite de Réveillon.  Dito e feito. Natasha apareceu durante o maior porre da vida de Nicole, em uma boate gay, lugar onde a patricinha nunca havia pisado antes.

Natasha era totalmente o oposto de Nick, como gostava de tratá-la. Rockeira desde a adolescência, a garota de quase 22 anos era o que eu posso chamar de ‘a personificação da loucura’. Uma loucura boa, eu diria. Vodka, cachaça, uísque, cerveja, destilados diversos e álcool capaz de colocar uma frota inteira de carros bicombustível pra atravessar os 890 metros da Ponte do São Francisco. Como eu gostava dessa garota. Como eu gostei de observá-la bêbada jogada no banheiro da casa de uma das amigas lésbicas sem sequer saber onde estava. Como eu gostei de vê-la em sua casa, vomitando em plena segunda-feira depois de um porre de vinho barato. Minha ébria preferida!

Nicole beijou Natasha por causa da carência. Havia visto o perfil do ex-namorado sendo atualizado para ‘em um relacionamento sério com uma puta qualquer’ e foi beber. Bebeu até que fez amizade com Natasha, que se aproveitou do ‘nenhum homem presta, né amiga?’ e a fez descobrir que a cura para aquilo poderia estar em peitos e bundas. E em línguas. Entrelaçadas, descobriram que toda aquela volúpia poderia significar algo a mais. Foi quando a patricinha percebeu que Natasha era chave de cadeia, confusão para a família perfeita, a mulher da sua vida. Foi quando percebeu que estava amando outra mulher.

3 meses de relacionamento e as duas já pareciam almas gêmeas de comédia romântica. Amassos quase diários, ligações até 2 da manhã todos os dias, mentiras para a mãe, festas, sexo pelo Whatsapp. Nicole e Natasha se amavam e faziam questão de dizer isso uma a outra diariamente. Mas Natasha percebeu que ali não tinha clima como da primeira vez que transaram. Percebeu que Nicole só precisava de amor e descobriu de uma maneira bem frustrante que a namorada não pensava em fazer sexo. Nicole era do tipo que fazia amor, todo dia, toda hora, enquanto ajeitava o cabelo de Natasha, enquanto a abraçava, enquanto a beijava. Natasha se lembrou dos tarados com quem ficou, das meninas drogadas com quem transou, da única pessoa que amou antes de Nick.

Foram embora, sem beber, sem fumar, sem transar. A seguir, a mensagem de texto que a de quase 22 mandou para a de 18 logo depois de pôr os pés em casa naquela noite:

- Te quero na parada de ônibus, no sofá da minha casa, no terraço da sua. Te quero fazendo sol ou chuva, dia ou noite. Te quero sorrindo ou chorando, triste ou feliz. Te quero com ou sem roupa. Apenas te quero. Tu é meu sonho, o meu amor. Meu verdadeiro e eterno amor!

domingo, 9 de junho de 2013

Batendo retratos

É que as fotos ficam. Na falta de máquina do tempo, inventaram a fotografia. Não dá pra voltar àquela festa do seu primeiro porre, mas dá pra sorrir bastante olhando aquela imagem registrada pelo V3 cor-de-rosa da sua melhor amiga. O namoro acabou, vocês nem se falam mais, mas provavelmente alguma foto do casal ainda está perdida no Fotolog conjugado, cuja senha nenhum dos dois lembra. Para os mais saudosistas, guardar um antigo álbum de família traz muito mais felicidade do que um almoço de domingo na casa da mãe.

Dia desses, minha madrinha de 92 anos jogou fora um álbum antigo sem nenhum motivo. Confesso que tentei entender o porquê daquela atitude, mas desisti quando vi que ela não se sentia mais à vontade vendo aquelas fotos. Compreendi que um dia a gente simplesmente se cansa de manter as velhas recordações. Os amigos se vão, os amores também e só resta você e aquelas folhas de papel 10x15 desbotadas pelo impiedoso tempo. Por enquanto, ainda não cansei. Espero que não me canse até o meu 100º aniversário.

As fotos têm um efeito analgésico. Elas não foram feitas para absorver lágrimas desmedidas após o fim de um ciclo. Esses retratos têm a finalidade de manter a memória viva, ligada ao 220 do sentimentalismo. À exceção das fotos tremidas, qualquer imagem registrada é válida. O sorriso do seu primeiro filho, a emoção da formatura na universidade, a viagem com os melhores amigos da escola. Quem se vai, perde a chance da próxima foto. Quem fica, tem a oportunidade de escolher o melhor ângulo e congelar o tempo, contrariando todas as leis da física e da saudade.

Geração nenhuma foi tão apegada à fotografia quanto a atual. Instagram, Tumblr, Flickr, Mobli, We Heart It... Negócios que se popularizaram por causa do nosso saudosismo e da vontade extrema de expor a todos o que nossos pais só mostravam aos amigos mais chegados. Ainda encontramos alguns amantes do mundo analógico, mas confesso que não dispenso a praticidade do digital ao meu alcance em um descompromissado clique. Coracionar virou moda. Fotografar virou estilo de vida.

Morar em uma cidade histórica tem suas vantagens. Final de tarde posando em frente a casarões, ruínas servindo de cenário para eternizar histórias de amor, o tempo como pano de fundo para a posteridade. Qualquer um é fotógrafo. E isso não é bom ou ruim. Como é incrível comparar o antes e o depois de um determinado local. Quantas histórias não foram desenhadas naquele lugar? Quantas pessoas passaram por ali? Envelhecer é possível quando estamos diante de uma fotografia?

Guardo muita coisa antiga em meus arquivos (digitais e físicos). De vez em quando, sinto saudade e vou lá fazer uma pequena viagem, sem custos, aborrecimentos ou overbooking. E me pergunto: o que seria de mim sem tudo isso? O passado importa a partir do momento em que te ajuda a ser alguém melhor. E o meu, com certeza, me ajudou a ser quem eu sou hoje. Triste daquele que não fotografa. Triste daquele que não eterniza um abraço, um sorriso, um beijo apaixonado. A mente uma hora cansa. A lembrança uma hora descansa. Repouse nas fotos e descubra o quanto você era feliz e não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Fotografe!


domingo, 2 de junho de 2013

Quero!

Quero ser o teu escritor. Quero acordar às 3 da manhã de uma madrugada fria só pra rabiscar segredos na tua agenda velha. Quero espantar o mal que é não te ter por perto inventando a personagem mais onipresente que já existiu na história. Quero povoar teu mundo com vírgulas, exclamações, orações subordinadas e tudo mais que couber na nossa folha em branco. Te quero completa, sem jamais sonhar com um ponto final. Qualquer um me entenderia.

Quero ser o teu escritor porque eu simplesmente não saberia ser mais nada além de apenas isso. Médico, advogado, jornalista, apaixonado. Quero te acordar às 3 da manhã de uma noite quente só pra rabiscar minha língua no teu corpo. Quero renovar o bem que é te chamar de “meu bem” a cada ligação diária. Quero te chamar de "minha" mesmo que nossa aventura não dure mais que os atuais 500 anos. Quero ser o teu Pessoa, Drummond, Machado. Você me entenderia.

Quero escrever um livro. Te colocar como capa, dedicatória, nota de rodapé. Escrever teu nome a cada 637 palavras. Está ali, tá? Povoar as páginas ímpares com meus defeitos e as pares com tuas qualidades. Marcar uma sessão de autógrafos no teu lugar preferido dessa cidade idosa. Talhar nossos nomes na árvore mais antiga e deixar que a seiva da paixão escorra em direção ao chão, ora dominado por nossos pés, ora habitado por nossos corpos em movimento apaixonado. Quero descobrir nossa própria rotação. Translação. Os geógrafos me entenderiam.

Mas sabe o que eu quero de verdade? Teu sorriso a cada afago nesse cabelo cuidadosamente rebelde. Teu olhar de felicidade a cada sussurro musicado nesse ouvido de princesa. Teu abraço demorado a cada medo de me perder. Teu corpo curvilíneo, desenhado pra atender tuas necessidades e completar as minhas. Tua voz ecoando pela minha cabeça enquanto faço a primeira prova da disciplina mais empolgante da universidade. Só quero te ter por perto, entende? Sentir saudade imediatamente depois de te ter por um dia inteiro. Olhar tuas fotos nas redes sociais e perder toda minha concentração no trabalho. Responder uma mensagem de texto te chamando de amorzinho, de um jeito que só a gente e o pessoal do Porta dos Fundos entende. Alguém me entenderia?

Quero estar nos teus livros, teus discos, na tua roupa. Quero escrever a mais bela história de amor que já inventaram por aí. Quero estar na tua mente daqui a 50 anos. Quero ver o teu sucesso, acompanhar tua carreira, mimar teus filhos. Ou os nossos, quem sabe! Quero acordar desse sonho e te preparar um café da manhã especial feito com o ingrediente mais especial que possa existir: o amor. Quero ser o teu clichê, teu amante mais brega, teu eterno namorado. Eu te quero, guria. Como nunca quis ninguém nessa vida!


*'Quero' também é o título de uma das minhas poesias favoritas de Carlos Drummond de Andrade. Clique aqui para ouvi-la na voz do ator, já falecido, Paulo Autran.

domingo, 21 de abril de 2013

Excitantemente apaixonante

De repente a gente se sente diferente. Acorda com mais disposição pra enfrentar um dia corrido, trata melhor quem está ao nosso redor, admira as mesmas paisagens com um novo olhar... E tudo isso por causa de uma só pessoa, que, geralmente, entra na sua vida sem pedir licença e colore de laranja o que antes era cinza escuro. Não dá pra prever quando irá acontecer, muito menos dizer quando é que começa. É excitantemente surreal.

O que aconteceu com todos aqueles problemas do mês passado? Eles estão resolvidos, pendentes ou acomodados debaixo de um manto de felicidade? E quanto aos traumas e motivos para nunca mais querer se apaixonar? Ainda existem? Não sei ao certo. O que eu sei é que apaixonar-se é tão bom quanto apaixonar-se. Assim, desse jeito. Querer ficar junto, abraçar, beijar, falar 25 horas ao telefone jurando que o dia tem 26. É gostoso, e é excitantemente assustador.

Paixão não é amor – e nem poderia ser. São duas faces da mesma moeda. Moeda que também sofre com altas e baixas, inflação e delírios de consumo. Ninguém, nem mesmo o mais comunista dos homens, deixa de sofrer com o capitalismo sentimental que nos pega às 5 da tarde de uma segunda-feira nublada. Mas como pode, hein? Você conhece alguém na fila do cinema e, despretensiosamente, se apaixona. Entra numa sala de bate-papo da internet e, como que por milagre, fica caidinho por quem está do outro lado. E quanto ao ‘amor à primeira vista’? Loucura demais ou uma confusãozinha necessária pra bagunçar a rotina? Perfeitamente normal e excitantemente formidável.

Peço que aproveitem cada momento desse gostar desenfreado, dessa vontade absurda de preencher o vazio amoroso que existe em nós. Apaixonar-se é ver no outro o que falta em você. É ter a certeza de que o homem não é uma ilha. É colocar um sorriso no rosto do tamanho do maior prédio da Terra e fingir pra Deus e o mundo que você está rindo da manjada piada que te contaram hoje de manhã. Apaixonar-se é se doar por inteiro, pagando meia pra uma sessão de um filme de terror no cinema. É fechar os olhos e conseguir descrever cada detalhe da pessoa amada. Apaixonar-se é odiar a ideia de ter que lavar a roupa que ficou com o cheiro do amado. É ter história pra contar. É contar com a sorte. E é, principalmente, excitantemente apaixonante.


sábado, 26 de janeiro de 2013

Faltou coragem?

Fui acostumado pela vida a gostar das coisas impossíveis. A primeira guria por quem fui timidamente apaixonado fazia a quarta série do ensino fundamental enquanto eu estava na segunda. Via aquele corpo de menina mais velha todos os dias da semana, às 7 e meia da manhã, chegando em um carro dirigido, provavelmente, por seu pai. Nunca tive coragem de contar a ela como era engraçado a vertigem que me dava quando a via. Nunca deixei transparecer o quanto eu gostava de escutá-la cantando ‘Devolva-me’ da Adriana Calcanhoto para minha professora da época. Seu nome? Gabriela, feito a musa de Jorge Amado. Nome completo? Uma visita escondida, quase uma aventura, por sua sala de aula em busca da lista de frequência. Era um prelúdio do que estaria por vir.

Meus amores platônicos dos últimos 10 anos me tornaram alguém mais forte. Eu nunca tive coragem de dizer a nenhuma delas o que sentia. No máximo, alguém descobria, contava e eu ficava com cara de bobo quando tinha de encará-las. Uma delas se aproveitou desse gostar, me pediu 70 centavos, prometeu pagar no dia seguinte e até hoje me deve. Ainda penso em ajuizar uma ação pedindo o pagamento, com juros e correção monetária.

Ainda sobre coisas impossíveis, eu me apaixonei por uma garota que tinha namorado. Não um desses namoros modernos, que acabam logo depois que começam. 3 anos, famílias, segredos, histórias, fotografias. Não era inveja, era vontade de ser feliz com alguém – e era ela a escolhida. Seus cabelos negros e sua pele branca denunciavam que eu seria especialista em me apaixonar por princesas, como seu pai gostava de chamá-la. De um jeito maluco, como se os deuses do Olimpo finalmente resolvessem me presentear com algo bom, ela também se apaixonou. E a gente foi feliz, até onde deu.

O mais legal disso tudo é que eu não tive coragem de dizer a ela que estava apaixonado enquanto ela namorava o outro cara. Deixei assim ficar subentendido. Não era, não é e nem nunca será meu objetivo de vida ver quem eu amo infeliz. Se o namoro estiver fazendo bem, jamais direi, mesmo que eu esteja perdidamente enamorado, que o lugar da criatura é ao meu lado. Talvez falta de coragem, talvez respeito. Eu não tenho o direito de me intrometer na vida de ninguém. Eu não quero ser feliz deixando o meu semelhante infeliz. É estilo de vida.

Escrevo estas malfadadas linhas pra tentar entender onde estou errando. O mais óbvio é que me falta coragem, mas não me falta razão. Se eu não tive atitude em certos momentos da vida é porque isso era o certo a fazer. Não cobre e nem passe na minha cara o quanto eu vacilei. Eu, mais do que qualquer um, sei onde estão meus erros e o que fazer para corrigi-los. Desperdicei um projeto maior em minha vida por respeito ao meu semelhante, que, com certeza, ficaria infeliz ao saber da história. E repito: não gosto e nem quero ver quem eu amo infeliz. Nem mesmo você.

Por isso, é hora de arrumar as gavetas (resgatando uma velha metáfora minha) e recomeçar de maneira mais sensata e prudente, com uma pitada de coragem e aventura a gosto do freguês.  Creio que certas histórias ainda se repetirão, mas seguirei firme em meus ideais. Maturidade é aprender a conjugar a vida. E isso, minha cara, eu sei de sobra... Adeus e até mais!


sábado, 12 de janeiro de 2013

Amores são terríveis, sabia?

Amores não são terríveis. Amores são amores, feitos de alegria, compreensão e beijo na boca. Amores são diários, cotidianamente escritos com caneta esferográfica de tinta preta. Amores são pores do sol no Terminal de Integração da Praia Grande, perto do VLT. Amores são duas almas em perfeita sintonia, alinhadas feito eclipse total da lua. Alinha-se a vontade de ter um amor com a vontade de ser amado. Amor é pecado. Amar é ter com quem pecar.

Amores são terrivelmente belos. Beleza que não se admira em exposição de arte ou desfile de moda. Amores são uns bobos, rolando na grama depois da primeira chuva do ano. Amores se encontram na fila do cinema, em uma sessão esgotada para o futuro ganhador do Oscar. Amores, muitas vezes, nem sabem que são amores. Xingamentos, beliscões, risos amarelos e amores. Afinal, quem está preparado pra amar? Amar não é despreparo, surpresa, estar desengonçado frente ao amor? Amar não é simplesmente amar?

Amores são terríveis. Acabam com o juízo, proporcionam a insônia, afetam o metabolismo. Pra desregular, basta amar! Amores se desencontram tentando se encontrar e acabam perdidos no meio do nada. Amores são decadentes com elegância. Amores são elegantes em decadência. Só não me peça pra parar de amar. Não me peça pra parar de perder o juízo, ficar sem dormir ou manter-me desregulado. Só não me peça pra parar de ser terrivelmente amor.

Amores são amores. E só. Dois, três, quatro amores. Dores. Pores do sol na Praia do Calhau falando sobre ex-amores. E se tu fores pra nunca mais voltar? Fico aqui ou procuro um novo amor? Vou-me embora pra Pasárgada pra ser amigo de quem? Nem o Rei me quer mais em suas terras. Alega que não tenho um amor, desses de contos de fada, desses de poema do Drummond. Minha vida é uma quadrilha, onde sequer J. Pinto Fernandes aparece na história. Cadê você, amor? Vou me precipitar no caos com essa coleção de objetos de não amor. Amores tecem dores. Amortecedores. Freio em mim mesmo. Freio a mim mesmo. Amores são terríveis? Sim, da pior espécie que possa existir!


sábado, 5 de janeiro de 2013

A expectativa é a última que morre

Dia desses, falei pra um grande amigo meu que o maior mal do ser humano é criar expectativas demais. Nós conversávamos sobre vida, futuro, defeitos, mulheres, carreira, a palavra mais bonita do dicionário, a mais feia, intimidades, solidão, sentimentos... Dentre as dezenas de assuntos que surgiram no sofá daqui de casa, ‘criar expectativas’ martelou minha cabeça por muito tempo. Tanto a ponto de eu achar que merece algumas considerações em forma de texto.

Ontem, por exemplo, saí de casa carregado de expectativas. E o pior: negando a mim mesmo que eu estivesse esperando por algo. A gente sempre enxerga nas novidades a saída para nosso desespero. E a novidade era o máximo, o paradoxo estendido na areia, como diz Gil. Não é que não tenha sido bom. Só não foi bom o suficiente. Um coito interrompido, sem roupas jogadas no chão. Acho que faz parte de um plano maior, algo a ser aproveitado melhor daqui pra frente. Como sou otimista...

Otimista porque ontem eu pensei que não fosse ter outra discussão de não relacionamento. A pessoa surge como quem não quer nada, expõe todas as suas mágoas, você se sente a pior pessoa do mundo, promete mudar e, no final, seus corpos estão coladinhos feito casadinho de festa de aniversário. Eu não sei se quero resolver todos os meus problemas desse jeito. É bom, é digno, mas é o certo? Quando, afinal, você vai entender que não somos nada além de nós dois - separados?

Outra expectativa insana é achar que cuidar de alguém vai fazer com que ela enxergue você com outros olhos. Eu adoro distribuir atenção, carinho, cuidar das outras pessoas, mas sempre espero que isso seja recíproco. E quando não é, machuca! Todo mundo me diz pra parar de esperar das outras pessoas atitudes que se encaixem perfeitamente àquilo que eu quero, afinal, o mundo não gira ao redor do meu umbigo. E eles estão certos. Mas eu continuo acreditando que dá pra criar um “umbigocentrismo” de vez em quando...

Já virou rotina: aquilo que deveria ser só diversão sempre acaba em diversão e algo mais, carregado de expectativas futuras. Minha ex-namorada dizia – e quem acompanhou meus textos antigos sabe disso – que é melhor planejar ser pego de surpresa. É muito mais cômodo deixar que seus sentimentos sejam controlados pelo acaso, mas apimentá-los com doses de expectativa dá muito mais emoção. Ela, ao contrário de mim, sempre esperava pelo pior, mas tinha uma explicação racional para esse pessimismo: dizia que, esperando pelo pior, a gente não se frustra tanto como se estivesse aguardando o oposto. Vai ver é isso mesmo: esperar pelo pior, mantendo a fé de que tudo vai dar certo. Com uma pontinha de esperança, escondida no recôncavo mais íntimo de seu nobre ser. Ou não ser, eis a questão!


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Métodos Marckosianos (7)

Hora da retrospectiva. Hora de abrir as gavetas, retirar o lixo acumulado, arrumar todo o volume amontoado e procurar aproveitar apenas aquilo que vale a pena de verdade. Selecionamos pessoas, histórias e fotografias e as colocamos no baú do recomeço, esperando que a fagulha do novo seja capaz de preservar emoções inesquecíveis. Prolongamos sentimentos, analisamos condutas e acabamos culpados pelo simples ato de tentar novamente. Mais uma chance pra tentar ser feliz. Mais um ano pra chamar de seu.

Não sei ao certo se 2012 foi um ano bom pra mim. O fato de encerrá-lo com saúde, bons amigos e paz em família já é suficiente pra afastar todos os prognósticos de que os últimos 366 dias foram ruins. Mas acontece que o ser humano é insatisfeito. Nada está 100% perfeito e sempre vai faltar a peça do quebra-cabeça capaz de finalizar a brincadeira. E que peça é essa capaz de deixar o trem seguir em linha reta? Que peça é essa capaz de acabar com a diversão? Terminar o jogo é a melhor saída? Não sei não...

Decidi contar um pouco sobre meu ano selecionando 12 palavras que sintetizam, mais ou menos, tudo aquilo pelo que passei. Não posso jamais abrir minha boca e dizer que fui infeliz nos últimos meses. Seria uma ofensa contra mim e contra as muitas pessoas especiais que passaram por minha vida durante 2012. Felicidade é uma questão de espírito. Ou só questão de ser, como diz Jeneci. E que comecem os trabalhos...

PERDÃO. Eu sempre fui de perdoar. Deixar as mágoas pra trás e resolver meus problemas de maneira pacífica e ordeira. Ao longo desses 21 anos, muita água ofensiva rolou por debaixo da minha ponte, mas eu consegui controlar a onda formada ao meu redor. Perdoei atitudes, palavras (ditas e não ditas) e condutas, mantendo a cabeça erguida enquanto esperava que tudo voltasse ao normal - se assim tivesse de ser. O tempo passou e um dos meus grandes amigos de infância voltou a frequentar minha vida. Minha ausência deve ter servido pra alguma coisa e hoje ele mostra ser uma pessoa bem melhor do que aquela que perdeu minha confiança anos atrás. Espero que tudo continue assim. E que nossas memórias continuem firmes pra lembrar daquele passado glorioso de outrora.

MEDO. Mentira se eu disser que não tentei recomeçar, amorosamente falando. Tentei - de uma maneira torta, é bem verdade -, mas tentei. Eu sempre disse que tentar é melhor do que deixar pra lá. Mas em 2012 eu consegui a brilhante proeza de tentar deixando pra lá. Não fui mais feliz porque faltou coragem. Coragem do beijo roubado, da decisão na hora certa, coragem de parar de pensar nos outros e olhar mais pra mim... Mas a culpa não é só minha. É difícil tentar ser corajoso quando a outra pessoa não esboça reação ou quando sequer sugere que algo pode acontecer. Faltou coragem pra agir, mas não faltou decepção pra aprender.

DECEPÇÃO. Nós sempre iremos nos decepcionar. Com a namorada, com o marido, com o time de futebol, com o político eleito. A decepção está na linha da vida. Tentar evitá-la é pura perda de tempo. Mas dá pra aliviar a dor se preparando para o pior. Não sugiro que sejamos pessimistas, apenas desconfiados e um pouco atentos aos movimentos do jogo. Você, minha cara, é meu retrato de decepção em 2012. E todos os seus medos e complexos? E todos aqueles telefonemas querendo me ver, tipo, do nada? Não era um sinal? Entendi errado ou você queria brincar de sugerir o que não poderia ser sugerido? Eu sei. Fui embora primeiro, mas você sabe o motivo: querer e não ter estava ficando insuportável. Perdi você duas vezes em um único ano. Agora é pra valer. A gente se perdeu...

MARASMO. Larguei o emprego porque a faculdade iria me tomar muito tempo. Risos. Veio a greve das universidades federais e todos os meus planos foram por água abaixo. Consegui descansar e recarregar as baterias por um longo ano. Fiquei viciado em Avenida Brasil e escrevi até um texto falando sobre a novela. Pra quem não parava desde 2010, uns meses acordando às 10 da manhã fizeram um bem danado. Agora vou deixar a preguiça existencial de lado, arregaçar as mangas e começar novos projetos em 2013. Espero que tudo dê certo, se Deus quiser!

MUDANÇA. "Valeu a pena acreditar na mudança, valeu a pena!" Eu nunca me envolvi tanto com política quanto durante as últimas eleições municipais em São Luís. Indignado com a gestão do ex-prefeito (como é bom poder colocar esse prefixo) João Castelo, usei minha voz e mínima influência nas redes sociais pra espalhar a ideia de que mudar era preciso. Edivaldo Holanda Jr. se tornou um dos ícones e ídolos da minha curta existência. O candidato que carregava o 36 no peito, assim como milhares de ludovicenses, se mostrou, acima de tudo, humilde, conseguindo vencer a eleição depois de 3 meses de muito suor pelos bairros. A dura tarefa de comandar uma das cidades mais antigas do Brasil começa agora. Espero não ter que colocá-lo na lista de decepções da minha vida daqui a algum tempo. Espero de verdade...

DIVERSÃO. Eis as vantagens de ser solteiro: poder sair sem dar satisfação, aproveitar o melhor da noite sem ter que se explicar no dia seguinte, fazer o que der na telha, etc, etc, etc. E como eu me diverti em 2012. Baladas, festas particulares, lanches, almoços, jantares. Até a mais simples ida ao cinema foi motivo de diversão no ano que finda. Com a ajuda do velho e querido álcool, muitas emoções foram potencializadas, muitas mensagens foram mandadas na hora errada e até algumas mordidas foram dadas, tudo em prol do "ter história pra contar". A gente não ganha nada, mas se diverte!

EFÊMERO. Ah, o efêmero! As emoções passageiras, o beijo que não dura mais que uma noite, as palavras ditas que não fazem o menor sentido no amanhã... Pela primeira vez, descobri a sensação por trás do "ficar sem compromisso" e me acostumei com certas coisas. Ainda tentei ligar no dia seguinte, mandar mensagem pelo Facebook, puxar papo no Whatsapp, mas uma hora acordei e percebi que aquilo não era o que ninguém queria. Estabeleci limites e fui sincero até onde pude, tentando fazer com que ninguém saísse magoado desse arremedo de relacionamento. Se o fiz, peço sinceras desculpas. A gente erra na melhor das intenções. Faz parte da vida.

ZUERA. Não, a palavra não está escrita errada. A "zuera" a que me refiro é a diversão desmedida dos amigos maranhenses do Twitter. Uma turma legal que tive o prazer de conhecer em 2012 e responsável por muitos e bons momentos de alegria e loucura no ano que se encerra. Afinal, não é todo dia e com qualquer grupo de amigos que você leva sua mãe de 40 anos para ir ao banheiro de um bar onde rockeiros se reúnem no fim de semana. Nunca vou me esquecer da cara dela olhando pra eles e dizendo: "esse lugar é estranho!".

CONHECIMENTO. Li muito mais que 400 páginas em uma semana, como desejei ano passado. A faculdade e o prazer pelo saber me transformaram em um leitor sedento até por bula de remédio. Não que eu não tivesse esse hábito antes, mas ele foi potencializado em 2012 e, com certeza, será mais ainda nos anos seguintes. Vi bons filmes, li muita coisa e ouvi histórias incríveis de gente igualmente sensacional. Aliás, essa sede de conhecimento é um conselho que sempre darei para qualquer um. Se quiser me agradar, me peça uma sugestão de filme ou livro. Todo mundo sairá satisfeito da conversa...

PROMESSA. Como eu prometi em 2012. Prometi uma caixa de chocolates pra uma amiga na Páscoa e nada até hoje. Prometi que não sairia da vida de uma pessoa e saí - por um motivo plausível, mas saí. Prometi cumprir algumas promessas antigas e nada. E quanto aos furos e bolos? Desmarquei tantas saídas previamente combinadas que até perdi a conta. Mas tem uma explicação, eu acho. O marasmo de 2012 me fez desistir de muita coisa. A empolgação de uma semana inteira ia embora justamente no dia em que o evento aconteceria. Tudo culpa da preguiça existencial. Mas isso acabou. Faço agora a primeira promessa pra 2013: prometer menos e agir mais. E que eu consiga cumpri-la, afinal.

SHOW. David Guetta, Pouca Vogal, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Vander Lee, Alcione, Zeca Pagodinho e Roupa Nova, sem contar as bandas maranhenses. Nunca fui em tanto show como em 2012. A companhia agradável, seja da família ou dos amigos, contribui fortemente para tornar o espetáculo inesquecível. Encerro o ano com lembranças marcantes de cada um desses shows. E que venha muito mais em 2013.

SURPRESA. Muita coisa me surpreendeu em 2012. Foram histórias, casos vistos na televisão, algumas pessoas (que foram gratas surpresas especiais do ano que se encerra) e, principalmente, as manifestações de parabéns pelas redes sociais no dia de meu aniversário. Pela primeira vez, consegui perceber como as pessoas me veem de verdade. Longe de toda a falsidade e indiferença que supostamente reina na internet, li depoimentos e desejos sinceros totalmente inesperados. Gente que não tem um grande contato comigo na "vida real", mas que me admira pela web, por exemplo. A todos que me desejaram parabéns no dia 17, meu muito obrigado. Juro não decepcioná-los e tentar ser alguém melhor a cada dia.

Pois bem. O texto é grande, mas é de coração. Acho que resumi de maneira satisfatória um pouco desse 2012 controverso. A vida continua, apesar de sabermos que, na prática, a simples mudança de calendário não muda absolutamente nada. Que sejamos pessoas melhores em 2013 e que possamos compreender que cultivar o amor ainda é a melhor saída para os principais problemas da humanidade. Viva 2013. Viva!