Ando melhorzinho, mas ainda não livrei-me do dia do suicídio. Foi demais pra mim. Ver-te caída na sala de estar, olhos estáticos, sorriso forçado, dor. Não dava pra fazer mais nada. Só lembrava-me da carta. Maldita carta. Por que ele haveria de escrever-te dias antes uma carta? Poderia ser um e-mail, uma mensagem de texto. Tempos modernos, sacana. Morreu de amor ou do que dizia ser amor por ti, triste donzela. E você, boba, ingênua e infeliz, acreditou. Um homem não morre de amores assim. A morte é por dentro, tal qual a vida de uma árvore, que deixa a seiva acabar-se antes de cair suas folhas. Se morre aos poucos, de leve, primeiro às 4, depois às 10 da manhã. Ao meio-dia a dor é grande, mas pode-se resistir. Quando a tarde chega, já é hora de recomeçar. Deixar o sossego invadir e o pranto calar. À noite, tudo volta ao normal e fica-se esperando mais uma morte na madrugada seguinte. Morrer de amor é ressuscitar para amar, não suicidar-se da vida. Mais uma vez te enganou. Tal qual fez quando te levou pra cama, tirou tua roupa e rompeu tua inocência. Ah, Inocência. Morreu cedo demais. Antes mesmo que eu confessasse te amar. Morre aqui um sentimento, coisa que nem mesmo o tempo será capaz de matar.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
domingo, 8 de maio de 2011
Contos de Whisky VI
Ah, ela estava ali parada, infeliz. Mergulhando suas angústias em um copo de cerveja barata. Não era justo fazer o que fez, jogar o charme que jogou, invadir sua vida como invadiu. Ela era suscetível e foi um prato cheio pra teu teste de galanteador. Esqueceu-se de uma regra, fundamental nesse jogo que, pelo visto, você não sabe jogar: é proibido apegar-se. E isso vale para os dois.
Não é lição de moral. Eu tava lá. Eu vi, com esses olhos que já viram muita coisa nesse mundo. Coisas que se eu contasse, com certeza preferiria nem acreditar. Ela tinha alguém e não era você. Alguém que também não era quem teria de ser. Um jogo de aparências, blindagens e flertes. Pronto, meu caro. Ponto pra essa sua beleza, esse seu charme, esse bem-me-quer, mal-me-quer, esse eterno teste de bom caratismo em que até eu cairia.
Mas foi bom. Quem pode negar isso? Dava pra ver em teu rosto, em tua falta de medo, em teu aparente sossego. Maldita somente a noite que já iria acabar. Tinha mais depois, mas eu preferi não acompanhar. Tinha uma certa esperança de que dessa vez você saberia como conduzir o barco. Saberia a hora de dizer não, de falar sim, de contar com o talvez. Pelo visto, não soube.
Como assim não quis o Martini? Como assim prendeu-se ao U2? A noite era só agora, sem pressa, do jeito que tem que ser. Ah, meu caro. Confundem-se as sensações com as desilusões. E você nem sabe ao certo se foi parte delas. Que história é essa de personagens de filme? É tudo vida real. Não existe certo ou errado, isso ou aquilo. Era vocês por vocês mesmos. Coisa de gente grande. Ou daquilo que pensavam ser.
O certo é que agora passou. Ambos com armaduras cruéis que já nem sequer lembram da batata frita que sumiu feito Stephen Fry. Aliás, por onde anda Stephen Fry? Por onde andam aqueles dois que eu conheci bêbados naquele bar? Ela em sua essência, ele em sua decepção. Motivos teriam pra fazer tudo de novo, mas é melhor assim. Quem sabe da próxima? Quem sabe na décima? Eu, na condição de Whisky, prefiro nem contar.
Não é lição de moral. Eu tava lá. Eu vi, com esses olhos que já viram muita coisa nesse mundo. Coisas que se eu contasse, com certeza preferiria nem acreditar. Ela tinha alguém e não era você. Alguém que também não era quem teria de ser. Um jogo de aparências, blindagens e flertes. Pronto, meu caro. Ponto pra essa sua beleza, esse seu charme, esse bem-me-quer, mal-me-quer, esse eterno teste de bom caratismo em que até eu cairia.
Mas foi bom. Quem pode negar isso? Dava pra ver em teu rosto, em tua falta de medo, em teu aparente sossego. Maldita somente a noite que já iria acabar. Tinha mais depois, mas eu preferi não acompanhar. Tinha uma certa esperança de que dessa vez você saberia como conduzir o barco. Saberia a hora de dizer não, de falar sim, de contar com o talvez. Pelo visto, não soube.
Como assim não quis o Martini? Como assim prendeu-se ao U2? A noite era só agora, sem pressa, do jeito que tem que ser. Ah, meu caro. Confundem-se as sensações com as desilusões. E você nem sabe ao certo se foi parte delas. Que história é essa de personagens de filme? É tudo vida real. Não existe certo ou errado, isso ou aquilo. Era vocês por vocês mesmos. Coisa de gente grande. Ou daquilo que pensavam ser.
O certo é que agora passou. Ambos com armaduras cruéis que já nem sequer lembram da batata frita que sumiu feito Stephen Fry. Aliás, por onde anda Stephen Fry? Por onde andam aqueles dois que eu conheci bêbados naquele bar? Ela em sua essência, ele em sua decepção. Motivos teriam pra fazer tudo de novo, mas é melhor assim. Quem sabe da próxima? Quem sabe na décima? Eu, na condição de Whisky, prefiro nem contar.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
O outro lado das fadas
Quem nunca se encantou com o mundo mágico dos contos de fada? Além de ser nosso primeiro contato com a Literatura, embarcar nessa viagem por entre castelos, bruxas e princesas desenvolve ricamente nossa imaginação e nos torna pessoas melhores, sedentas por um final feliz. Por outro lado, há quem diga que preparar-se para as adversidades da vida sem a leitura obrigatória desses clássicos é bem melhor. E aí, o que fazer? Predispor uma criança para a vida contando sempre a verdade ou instigá-la a ser um pouco mais otimista?
Hollywood parece que entendeu qual caminho seguir. Na última sexta-feira, teve início a temporada fantasiosa nos cinemas com a estreia de “A Garota da Capa Vermelha” (Red Riding Hood, EUA, 2011). O filme, baseado no clássico conto da Chapeuzinho Vermelho, leva adolescentes e adultos ao delírio com o misto de retorno à infância e realidade temporal. Cercada por uma trama que vai além dos “doces para a vovozinha”, a película, que tem direção de Catherine Hardwicke (de Crepúsculo e Aos Treze), nos envolve na consagração do lobisomem como novo queridinho universal. Afinal, já passava da hora de dar um descanso aos vampiros.
No filme, Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem moradora do vilarejo de Daggerhorn, atormentado pela iminência de invasões de lobisomens. A garota nada tem a ver com os ataques até sua irmã ser brutalmente assassinada pelo monstro. A partir daí, os moradores da aldeia juram vingança e partem para a perseguição contra o tal lobo. A coisa fica mais tensa quando o Padre Solomon (Gary Oldman), famoso por sua caça a esses “demônios”, chega à cidade e afirma ser um dos moradores o verdadeiro culpado pelos crimes.
Além disso, como não poderia faltar e em meio a tanto medo, Valerie se vê dividida entre ficar com seu verdadeiro amor ou casar-se com um rapaz rico, prometido pela família. Uma espécie de pano de fundo para mexer com o que realmente importa no filme: o mistério e os motivos, românticos ou não, que levam o lobo mau a atacar a comunidade. Para os carentes da vovozinha, uma triste constatação: ela não está tão viva e aumentativa como nas velhas histórias.
“A Garota da Capa Vermelha” inaugura um período de adaptações de contos de fada para o circuito. Nesta sexta, 29 de Abril, estreia “A Fera”, baseado no dilema de aparências de “A Bela e a Fera”. Do lado das animações, “Deu a Louca na Chapeuzinho 2” busca ganhar o público realmente alvo dessas histórias, com uma versão cheia de paródias e humor, revirando esses contos pelo avesso. Ainda em pré-produção, “Snow White and the huntsman” quer trazer o mundo da Branca de Neve e os sete anões para mais perto de nós. E acertou na escolha da protagonista. Kristen Stewart, a musa da saga Crepúsculo, promete fazer sucesso em mais essa sacada da terra de fantasias que é Hollywood.
Válido se encantar com essas histórias tão famosas desde o século XIV, na tentativa de trazer de volta a criança ingênua que já habitou em nós durante um tempo. Uma criança que acreditava em lobo mau, beijo que transforma sapo em príncipe e “viveram felizes para sempre”. Bem melhor que a realidade, você não acha?
Hollywood parece que entendeu qual caminho seguir. Na última sexta-feira, teve início a temporada fantasiosa nos cinemas com a estreia de “A Garota da Capa Vermelha” (Red Riding Hood, EUA, 2011). O filme, baseado no clássico conto da Chapeuzinho Vermelho, leva adolescentes e adultos ao delírio com o misto de retorno à infância e realidade temporal. Cercada por uma trama que vai além dos “doces para a vovozinha”, a película, que tem direção de Catherine Hardwicke (de Crepúsculo e Aos Treze), nos envolve na consagração do lobisomem como novo queridinho universal. Afinal, já passava da hora de dar um descanso aos vampiros.
No filme, Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem moradora do vilarejo de Daggerhorn, atormentado pela iminência de invasões de lobisomens. A garota nada tem a ver com os ataques até sua irmã ser brutalmente assassinada pelo monstro. A partir daí, os moradores da aldeia juram vingança e partem para a perseguição contra o tal lobo. A coisa fica mais tensa quando o Padre Solomon (Gary Oldman), famoso por sua caça a esses “demônios”, chega à cidade e afirma ser um dos moradores o verdadeiro culpado pelos crimes.
Além disso, como não poderia faltar e em meio a tanto medo, Valerie se vê dividida entre ficar com seu verdadeiro amor ou casar-se com um rapaz rico, prometido pela família. Uma espécie de pano de fundo para mexer com o que realmente importa no filme: o mistério e os motivos, românticos ou não, que levam o lobo mau a atacar a comunidade. Para os carentes da vovozinha, uma triste constatação: ela não está tão viva e aumentativa como nas velhas histórias.
“A Garota da Capa Vermelha” inaugura um período de adaptações de contos de fada para o circuito. Nesta sexta, 29 de Abril, estreia “A Fera”, baseado no dilema de aparências de “A Bela e a Fera”. Do lado das animações, “Deu a Louca na Chapeuzinho 2” busca ganhar o público realmente alvo dessas histórias, com uma versão cheia de paródias e humor, revirando esses contos pelo avesso. Ainda em pré-produção, “Snow White and the huntsman” quer trazer o mundo da Branca de Neve e os sete anões para mais perto de nós. E acertou na escolha da protagonista. Kristen Stewart, a musa da saga Crepúsculo, promete fazer sucesso em mais essa sacada da terra de fantasias que é Hollywood.
Válido se encantar com essas histórias tão famosas desde o século XIV, na tentativa de trazer de volta a criança ingênua que já habitou em nós durante um tempo. Uma criança que acreditava em lobo mau, beijo que transforma sapo em príncipe e “viveram felizes para sempre”. Bem melhor que a realidade, você não acha?
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Depressão da depressão
Somos depressivos por natureza. Desde cedo é assim. Você, ainda criança, vivia fazendo birra porque não ganhava aquela boneca ultramoderna dos comerciais da televisão. Pré-adolescente, faltava suicidar-se porque não conseguia ir aos shows bacanas de sua cidade ou à balada que seu irmão mais velho frequentava. Jovenzinho, passava noites em claro chorando e pensando no real motivo para aquela garota não querer você. E hoje, nada disso importa. Somos os mesmos, com outras depressões.
Ultimamente, uma moda tem caído no gosto dos usuários do serviço de microblog Twitter e conquistado cada vez mais seguidores: os perfis de depressão. Eu mesmo sigo uns 7. Não entendeu o que seriam esses tais ‘perfis de depressão’? Explico. Sábado à noite, todo seu círculo de amizade na farra e você em casa porque tem que entregar um relatório para seu chefe na segunda-feira. Hoje em dia, não basta lamentar-se com o cachorro, tem que compartilhar a lamentação no Twitter. Pensando nisso, foram criados perfis unicamente para postar os desgostos mais comuns de todo mundo em várias áreas de atuação.
Curte música indie, vive cantando em todo lugar, mas ninguém conhece aquela banda folk da Bélgica? O @indiedadepre te entende. Nunca soube direito o que diabos Djavan quer dizer com “Açaí, guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é a tez da manhã”? O @mpbdadepressao te dá uma mãozinha. Sua depressão é crônica e você se sente o pior dos mortais? Siga o pioneiro @caodadepressao e identifique-se. O número de perfis como esses é crescente e alguns deles podem ser vistos nessa rápida pesquisa feita no próprio microblog.
Entretanto, é importante ressaltar que essas são depressões passageiras, nada comparadas às reais, que assolam psicologicamente muita gente por aí. Essas do Twitter passam após um comentário de alguém que está na mesma situação que você ou mesmo depois de um Retweet, que consiste em repetir em sua página o que alguém falou anteriormente. Mais uma prova de que o ser humano só se consola quando vê seu semelhante na mesma situação que ele.
E graças a essa condição de ser humano é que deixar a depressão nos vencer não é permitido. A vida é bela, como dizia Benigni. Todos os nossos traumas nos tornaram, tornam e ainda vão nos tornar mais fortes. Alguns são mais poderosos, mas nossa sede de viver sem certos medos deve ser maior. Tristeza não é passaporte para nada. Depressão é sentença de afastamento, fraqueza e falta de força de vontade. Aliás, mais conhecida como doença. Portanto, evite essa doença e encare em 140 caracteres suas depressões passageiras.
Não desanime com uma derrota. Amanhã tem mais! #todoschora
Ultimamente, uma moda tem caído no gosto dos usuários do serviço de microblog Twitter e conquistado cada vez mais seguidores: os perfis de depressão. Eu mesmo sigo uns 7. Não entendeu o que seriam esses tais ‘perfis de depressão’? Explico. Sábado à noite, todo seu círculo de amizade na farra e você em casa porque tem que entregar um relatório para seu chefe na segunda-feira. Hoje em dia, não basta lamentar-se com o cachorro, tem que compartilhar a lamentação no Twitter. Pensando nisso, foram criados perfis unicamente para postar os desgostos mais comuns de todo mundo em várias áreas de atuação.
Curte música indie, vive cantando em todo lugar, mas ninguém conhece aquela banda folk da Bélgica? O @indiedadepre te entende. Nunca soube direito o que diabos Djavan quer dizer com “Açaí, guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é a tez da manhã”? O @mpbdadepressao te dá uma mãozinha. Sua depressão é crônica e você se sente o pior dos mortais? Siga o pioneiro @caodadepressao e identifique-se. O número de perfis como esses é crescente e alguns deles podem ser vistos nessa rápida pesquisa feita no próprio microblog.
Entretanto, é importante ressaltar que essas são depressões passageiras, nada comparadas às reais, que assolam psicologicamente muita gente por aí. Essas do Twitter passam após um comentário de alguém que está na mesma situação que você ou mesmo depois de um Retweet, que consiste em repetir em sua página o que alguém falou anteriormente. Mais uma prova de que o ser humano só se consola quando vê seu semelhante na mesma situação que ele.
E graças a essa condição de ser humano é que deixar a depressão nos vencer não é permitido. A vida é bela, como dizia Benigni. Todos os nossos traumas nos tornaram, tornam e ainda vão nos tornar mais fortes. Alguns são mais poderosos, mas nossa sede de viver sem certos medos deve ser maior. Tristeza não é passaporte para nada. Depressão é sentença de afastamento, fraqueza e falta de força de vontade. Aliás, mais conhecida como doença. Portanto, evite essa doença e encare em 140 caracteres suas depressões passageiras.
Não desanime com uma derrota. Amanhã tem mais! #todoschora
domingo, 10 de abril de 2011
Corra, vida. Corra!
Corra, querido. Eu sinto muito, mas não posso alcançá-lo. Não posso alcançar seu desejo, tampouco negar o que sinto. Corra, querido, antes que seja tarde demais. Saia de perto do fogo. Lembre-se: eu não prometi queimar você. Respeite a minha linha amarela, o meu sinal vermelho. Escolha o seu caminho, longe de mim, longe da sua melhor ambrosia, do melhor mel daquela abelha que picou você em nosso primeiro encontro. Corra em direção ao vento, saia debaixo da chuva. Entenda que tempestades vêm e vão. Elas vêm e vão. E eu também sou assim. Feito também, mas com uma diferença: eu não aviso que estou pra cair. Eu venho caindo há muito tempo. Cada pingo, cada gota de chuva é como se fosse um aviso. Um aviso pra você correr. O mais rápido que puder. Pra perto de mim.
*Postado originalmente no blog Baladas de Calçada, um projeto paralelo que, ainda, não deu muito certo.
*Postado originalmente no blog Baladas de Calçada, um projeto paralelo que, ainda, não deu muito certo.
sábado, 19 de março de 2011
Com gosto de nostalgia
Quem nunca se viu olhando para o passado, relembrando velhos e bons momentos como se estivessem acontecendo ali, naquele instante? Fotos antigas, músicas de outrora ou simplesmente uma lembrança aleatória sempre são capazes de nos transportar para lugares mágicos, longínquos e inesquecíveis. Coisas boas, ruins, desejos, tudo isso nos fez chegar até aqui cheios de garra e força de vontade para enfrentar o que der e vier. É uma nostalgia gostosa, algo bom, mesmo que tenha sido ruim. Por isso, quero compartilhar algumas com vocês.
Quando era criança, sonhava em ficar acordado até mais tarde, ouvir o barulho da noite, o som das corujas, o mistério das estrelas. Saber o que tocava naquele horário no rádio, o que passava na televisão, o que faziam os mais velhos. Ouvia comentários sobre “baladas inesquecíveis” e sempre tive curiosidade em saber o que tornava algo da noite tão inolvidável assim. A liberdade daquelas pessoas mais velhas me dava inveja, eu queria ser como elas, queria crescer e descobrir determinados prazeres que só gente grande tinha. Eis minha primeira festa.
Inebriante, sem nenhum pingo de álcool na boca. A mãe por perto e uma turma de escola me apresentando ao êxtase universal de todo final de semana. Música alta, adolescentes, noite, ar livre. 12 anos. Nunca vou me esquecer daquela paisagem, daquele vento soprando perto da entrada da festa. Não fazia muita questão de ser notado, só queria notar. A curiosidade deu lugar ao prazer e à vontade de repetir aquilo sempre que desse. Dançar mesmo sem saber, ver aquelas luzes psicodélicas mesmo sem entender quais efeitos da física as faziam piscar tanto, liberdade.
7 anos se passaram e muita coisa mudou, exceto o fato de que continuo me divertindo à vera sempre que dá. Descobri que o inesquecível que os adultos falavam está no momento, na companhia, no seu espírito. Não dá pra lembrar-se de algo como bom se você não estiver se importando com aquilo de verdade. A noite é uma criança e eu queria estar lá, preso a ela, envolvido. Nem sempre deu certo, é verdade. Por vezes, me decepcionei. Mas eu estava lá, consciente de que realmente queria estar lá. E agradeci, sempre que pude, aos que me proporcionaram momentos conscientes como esses.
A fórmula é simples e universal: noite, amigos e um lugar bacana. Eu, que sempre prezei poucas e boas amizades, fico feliz em saber que essas poucas e boas pessoas também sentem o mesmo e também se divertem quando estou por perto. Elas fazem falta quando não estão e deixam saudade no final da festa. Mas estão aqui, de alguma maneira. Pra que daqui a mais 7 anos, eu possa olhar pra trás e lembrar mais um momento inesquecível perto de gente tão legal e especial. Gente que só me fez mudar e nunca mais mudou de mim...
A lua lá fora, no momento em que escrevia esse texto.
sábado, 12 de março de 2011
Fim do mundo
Acordava, religiosamente, às 5 da manhã. Nem um minuto a mais ou a menos. Deixava terminar a música que ecoava do rádio, levantava da cama e escovava os dentes. Olhava para o céu, como se planejasse o que iria fazer no dia e suspirava 3 vezes, como se fosse cansaço, desejo e realização. Não tinha família. Morava só, em uma casa apertada, onde tudo era bagunçado. O único lugar do recinto em que não existia sujeira era o escritório, apelidado carinhosamente por ele de Bishop, um super-herói mutante dos X-Men.
Em Bishop tudo poderia acontecer. Histórias surgiam feito passe de mágica. Tempestades, navios de guerra, terremotos, tsunamis, paixões devastadores, glórias... Tudo era escrito, passado para o papel, carimbado e enviado. Japão, Grécia, Indonésia, Filipinas, Austrália, Costa Rica... Cada país do mundo recebia, pelo menos, 2 avisos de premonições por ano. Algumas muito estranhas, quase impossíveis de acontecer, outras muito prováveis. A margem de erro era a mínima possível.
Quase tudo o que o dono do Bishop previu tornou-se realidade. Furacão Katrina, eleição de Barack Obama nos EUA, Saddam Hussein escondido em um buraco, mineiros presos no Chile, terremoto no Haiti, tsunami no Japão. Escrevia cartas premonitórias como se não houvesse amanhã. Até o dia em que descobriu que não haveria amanhã. Era o fim do mundo, o fim de um ciclo.
Enviou cartas a todos os países, inclusive aos que iriam nascer até a chegada do fim. Enumerou medidas preventivas, sugeriu construções de emergência, delegou funções aos cidadãos. Tornou-se mundialmente conhecido. Documentários, reportagens e filmes usaram e abusaram de seu dom, provando cada vez mais sua credibilidade. Não demorou muito para que seus pais aparecessem e protagonizassem uma das cenas mais bonitas que o mundo já houvera televisionado.
Os dias se passavam. A preocupação era iminente e as pessoas apavoradas desfaziam planos, despediam-se de seus parentes e corriam para abrigos do governo, onde a proteção era, diziam, de 100%. Perguntado se iria proteger-se, o dono do Bishop disse que não. Se tivesse que acontecer, se essa fosse a vontade de um ser supremo e se ele tivesse que morrer, morreria em paz.
A hora marcada chegou. Meios de comunicação do mundo inteiro estavam apreensivos, pessoas recorriam ao suicídio na tentativa de evitar o sofrimento, outros morreram de medo. Nada aconteceu. Em casa, morreu ao receber uma carta. A primeira carta que havia escrito, há muito tempo, tanto que nem lembrava mais. Nela, algumas palavras que representavam muito bem aquele momento: “Cuidado com o fim. Nem sempre o que esperamos é o que realmente acontece.”
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Vivendo ciclos
E saiu dali com os olhos cheios d’água.
Era agora desprezada pela única pessoa que confiava, o único afeto que tinha no mundo, a única boa lembrança de tempos difíceis. Quem seria agora aquela garota além de nada? Quem a levaria pra casa nas noites de terça-feira, quando o que mais queria era uma cama depois de um longo e cansativo dia de trabalho? Quem era aquela garota? Quem era aquele garoto?
Aquele garoto sensível, bonito e inteligente. Aquele cara digno de orgulho e compreensão. Por que fizera isso com ela? O que passou na cabeça dele ao fazer aquilo? Quem seriam os dois, além de nada?
Ela sabe que ciclos existem, mas nunca quis acreditar que esse chegaria ao fim. Ele entendeu tudo errado quando ela disse “I Want To Break Free” imitando os passos do clipe do Queen. Talvez já não gostasse dela como deveria. Ou talvez não.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Antes da alvorada voraz
Desperto o desejo louco de poder te amar
A tua boca na minha tamanha 4 da manhã
Não ouço nada além do som da madrugada e do teu beijo sofrido
Ávido, teus lábios dormentes a me atormentar
Vai, vai-te embora em busca de vida
Eu não posso e nem quero ser esse aí, das tuas fotos, do teu álbum de recordações
Mas só faço um pedido: fica por perto.
Não fede nem cheira. Só fica por perto.
Talvez eu mude de ideia e possa voltar a dormir tranquilo
Tamanha 4 da manhã.
A tua boca na minha tamanha 4 da manhã
Não ouço nada além do som da madrugada e do teu beijo sofrido
Ávido, teus lábios dormentes a me atormentar
Vai, vai-te embora em busca de vida
Eu não posso e nem quero ser esse aí, das tuas fotos, do teu álbum de recordações
Mas só faço um pedido: fica por perto.
Não fede nem cheira. Só fica por perto.
Talvez eu mude de ideia e possa voltar a dormir tranquilo
Tamanha 4 da manhã.
Marcos Lima
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Eu e as despedidas
Eu nunca gostei de despedidas. Nunca gostei de ter que dar adeus às pessoas que amo, deixá-las passar, mesmo que para seguir seus próprios caminhos – sem mim. Já sofri um bocado com isso, fosse de véspera ou depois do acontecido. Chorei, esperneei, tentei achar mil maneiras de não deixá-las ir, mas foi inevitável. Começou, teve seu meio, teve seu fim. Mas não acabou de verdade. Essas despedidas foram reversíveis. E cá entre nós, elas são bem melhores!
Nunca gostei – nem nunca vou gostar – das despedidas de verdade, dessas que você jamais vai ver a pessoa de novo. Encarar a morte como o fim mais traiçoeiro ainda me é difícil. Como da vez que chorei desgarrado pelo meu padrinho que ia viajar pra outro estado e não entendi o porquê. Anos depois, sem nunca mais tê-lo visto, ele faleceu. E como foi complicado, mesmo entendendo, depois de tanto tempo, o real motivo daquele choro. Mas a vida passa, você se apega às pessoas e elas vão dizendo ‘tchau’ o tempo todo. Cabe a você aceitar – ou tentar que seja diferente.
É importante ressaltar que eu também dei diversos ‘tchaus’ por aí. Deixei várias pessoas que eu julgava importantes ao léu, querendo notícias, implorando contato. Saí de relacionamentos tomado pela indiferença, pela imaturidade, pelo gostar demais ou pelo gostar de menos. Mas também larguei alguns com a certeza de que era aquilo que devia ser feito. Mais cedo ou mais tarde eu deveria me despedir, deixando a garantia de que voltarei pra resolver qualquer mal-entendido mal explicado.
A gente sempre volta. Se não é por querer, por pura força de vontade, a vida se encarrega disso. Seu ex-amigo aparece na fila do supermercado depois de 10 anos e você sente vontade de falar com ele. Sua ex-namorada surge linda e loira com um belo rapaz de olhos azuis e você sente inveja por não estar ali, com ela. Seu ex-chefe agora é subordinado em sua própria empresa. O mundo dá voltas – e você sempre espera que essas voltas sejam em seu mundo.
Despeço-me de você, leitor, com uma certeza: esse não é o fim. Um novo ciclo está sempre começando em nossas vidas e as despedidas só encerram com chave de ouro esse momento. Talvez hoje não consigamos entender o quão bom pode ser o fim de alguma coisa, mas mais tarde, com certeza, iremos conseguir. Olhar pra trás e dizer pra si mesmo que aquilo era o certo a fazer, o mais prudente. E ir seguindo cada despedida, em busca de novos começos e de surpresas planejadas pelo inesperado. Vai ser sempre assim. E eu quero que seja sempre assim!
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